Centenário do Palmeiras - ( )

Ademir vê título de 74 como mais marcante e quer gol em novo estádio

São Paulo (SP)

O título do Palmeiras sobre o Corinthians, no Campeonato Paulista de 1974, ficou marcado na memória do maior jogador da história do clube alviverde. Presente em 901 jogos da equipe, Ademir da Guia se orgulha por ter impedido o rival de encerrar o pior jejum de sua história, mas recorda também os duelos contra o Santos de Pelé naquela época.

Em entrevista exclusiva concedida à TV Gazeta e reproduzida abaixo, o ex-meio-campista rejeitou o status de principal ídolo do clube e, mesmo assim, apontou o time do bicampeonato brasileiro de 1972 e 1973, do qual fez parte, como o melhor da história.

Triste pelas dificuldades do Palmeiras no ano do centenário, Ademir da Guia ainda defende as cores verde e branca, pois, mesmo aos 72 anos, é um dos mais assíduos das partidas do time de máster. Assim, tem como próxima meta jogar no reformado estádio do clube. “Quero fazer um gol no novo estádio, que é minha casa”, avisou, sorridente.

De todos os títulos que você conquistou pelo Palmeiras, qual foi o mais importante?
Ademir da Guia: Tivemos o bicampeonato brasileiro, em 1972 e 1973, e também o Paulista de 1974, em uma disputa contra o Corinthians, que vinha de uma sequência desde 1954 (sem títulos). Eram 20 anos, e esse clássico realmente marcou e ficou gravado.

Foi seu título mais saboroso?
Ademir da Guia: Acho que sim, porque ganhar do Corinthians sempre foi especial. Nós conseguimos mantê-los no jejum e fazer com que ultrapassassem os 20 anos.

Você acha que o Corinthians era visto como favorito para aquele jogo?
Ademir da Guia: Não vejo assim. Tínhamos uma grande equipe e a confiança de que poderíamos ganhar, mas sabíamos que seria um jogo difícil e que o adversário viria com uma pressão muito grande. Isso atrapalhou o time deles. Nossa torcida acreditava, inclusive ela não foi, porque eram 90% de corintianos no Morumbi. Mas nós jogamos bem, em uma partida normal, e conseguimos essa vitória.

Acervo/Gazeta Press
O maior ídolo da história do Palmeiras explica que as críticas ao seu estilo o ajudaram a evoluir
O Palmeiras tem muitos ídolos em sua história, mas, para a maioria dos torcedores, você é considerado o maior de todos os tempos. Concorda com isso?
Ademir da Guia: Eu me considero um dos maiores ídolos, porque tivemos grandes jogadores também, como Djalma Santos, Júlio Botelho, Vavá, Chinesinho... O Palmeiras sempre teve grandes elencos e é por isso que conseguiu chegar para disputar títulos e ganhar, isso realmente foi muito importante.

O que o Palmeiras representa para você?
Ademir da Guia: Poder fazer parte desta história é sensacional, pois passei 16 anos no clube, que é minha segunda casa. Estou sempre aqui, sendo bem recebido.

Como foi a história para você deixar o Bangu e chegar ao Palmeiras?
Ademir da Guia: Eu ainda estava nos juvenis do Bangu, que veio fazer dois amistosos em Campinas, contra Guarani e Ponte Preta. O Renganeschi era o técnico do Guarani, me viu jogar e gostou. Passados seis meses, ele veio para o Palmeiras e indicou meu nome. O clube acreditou no meu futebol, mesmo eu ainda estando nos aspirantes, e me deu a oportunidade. Foi aqui que consegui me consagrar.

Você chegou a receber críticas por supostamente ser lento. O que você achava disso?
Ademir da Guia: Na verdade, na minha época, nós jogávamos no 4-2-4. Eu ficava no meio-campo com o Dudu, que defendia mais, mas normalmente eu tinha que ajudar a defender também. Como eu era mais técnico, tinha que ajudar ainda o ataque e era importante que eu pudesse fazer gols. Com isso, tinha que chegar nas duas áreas. Mas comecei a entender que era lento. As pessoas diziam que eu era muito lento, e acho que a crítica realmente ajudou, porque percebi que podia evoluir nesse tipo de coisa. Os anos se passaram, consegui evoluir, e a dupla Dudu e Ademir foi muito importante, porque nós jogamos por muito tempo juntos e nos conhecíamos. Se a equipe tem um conjunto bom e craques, as coisas ficam mais fáceis.

O Dudu foi seu grande parceiro?
Ademir da Guia: Foi meu grande parceiro, um grande amigo. É assim até hoje, pois estamos juntos no máster. Agora, ele é o técnico, que me coloca no time e, de vez em quando, me tira também, mas estou lá aceitando (risos).

Acervo/Gazeta Press
Amigo até hoje de Dudu, Ademir da Guia aponta o ex-meio-campista como seu grande parceiro da carreira
Qual foi o grande técnico que você teve no Palmeiras?
Ademir da Guia: Tivemos o Oswaldo Brandão, que ficou por quatro anos e colocou uma equipe que conseguiu jogar, com bons resultados. Ninguém se machucava e não tinha muito cartão amarelo, o que facilitou bastante.

O time era tão forte na sua época que conseguia fazer frente ao Santos do Pelé. Como eram aqueles confrontos?
Ademir da Guia: Nos anos 60, nós conseguimos alguns títulos, senão o Santos teria sido campeão paulista por 12 vezes seguidas. Eles tinham uma grande equipe, com um ataque com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Não era fácil. Santos e Palmeiras faziam um jogo em que torcida ia para o campo lotado. Era realmente muito complicado.

Durante seu período no clube, qual foi o melhor time em que você jogou?
Ademir da Guia: O time do bicampeonato brasileiro jogou mais tempo junto e ganhou mais, com Leão, Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu e Ademir, Edu, Leivinha, César e Nei. Entravam também Fedato, Madurga, Ronaldo... Acho que é o grande time da história do Palmeiras, pelo menos na minha concepção.

Mas o que aquele time tinha de especial?
Ademir da Guia: Tinha o Oswaldo Brandão, um técnico especial. O treinador é importante para colocar os homens em campo e passar uma qualidade aos jogadores, para que possam se movimentar e tocar a bola do jeito que querem. Assim, os jogadores também passam confiança para a torcida.

O Palmeiras conquistou um título em 1976 e, no ano seguinte, você se aposentou. Depois disso, o clube amargou um jejum até 1993. Por que o time ficou por tanto tempo sem título depois da sua geração?
Ademir da Guia: Na verdade, não fui só eu que parei, foram vários jogadores. O Dudu também parou, e o Leão e praticamente todo o ataque saíram. Ficou um time diferente, porque mudou bastante, até voltar a ser uma grande equipe, que foi quando chegou a Parmalat.

O que faltou no período sem títulos?
Ademir da Guia: Faltou contratar os jogadores certos. Precisava de uma visão de diretores e técnicos para que trouxessem jogadores que chegassem, jogassem e melhorassem a equipe. Este é um trabalho muito complicado.

Se não fosse o Palmeiras, sua vida seria diferente?
Ademir da Guia: Com certeza, porque o Palmeiras me trouxe ainda jovem, acreditou no meu futebol e me deu a oportunidade de me consagrar, até disputando um Mundial (de 1974) pela Seleção Brasileira. Devo tudo isso ao Palmeiras.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Presente em partidas de másters do clube, o ex-jogador sonha em marcar gol no novo estádio alviverde
Você jogou em uma época vencedora, mas o clube vem de anos difíceis com dois rebaixamentos. Como vê o clube em dificuldade agora de novo?
Ademir da Guia: É triste, muito difícil. Você vê um torcedor garoto chorando quando tem uma derrota que pensava que poderia ser um triunfo, mas o palmeirense está acreditando, vai ajudar e isso é importante. Com este presente de estádio moderno, acho que vai melhorar realmente.

Você tinha mais prazer em tocar a bola para que os atacantes fizessem os gols?
Ademir da Guia: Eu tinha mais facilidade de tocar para o companheiro, mas fiz 153 gols pelo clube e sou o terceiro maior artilheiro na história do Palmeiras, ainda que sendo um volante.

Você deve receber muitas homenagens nas comemorações do clube...
Ademir da Guia: Se Deus quiser. E vou estar lá no campo, tocando a bola... Acho que seria uma grande realização, só está faltando isso. Quero fazer um gol no novo estádio, que é minha casa. Espero ter essa festa. Quero fazer um com a perna direita, um com a esquerda e um de cabeça, mas em três anos (risos).