Centenário do Palmeiras - ( )

De afastado a herói, Evair acha pênalti de 99 mais difícil que o de 93

São Paulo (SP)

O pênalti convertido por Evair na prorrogação da final do Campeonato Paulista de 1993, contra o Corinthians, tirou o Palmeiras do jejum de títulos que durava desde 1976. Depois daquele gol, o ídolo alviverde sentiu como se estivesse gritando por anos, tendo superado não apenas o sofrimento do clube, mas também seus próprios percalços. Porém, outro pênalti ficou marcado na memória do ex-atleta como ainda mais difícil, em 1999.

Na decisão da Copa Libertadores da América, diante do Deportivo Cali, Evair começou no banco de reservas, mas, depois de ter entrado em campo para substituir Arce, foi o escolhido para bater o pênalti que abriu o placar da vitória por 2 a 1 no tempo normal. “Foi mais difícil do que o de 1993. Naquele Paulista, eu estava muito mais preparado, pois já sabia que bateria pênaltis. Já em 1999, saí do banco e fui bater”, recorda.

Ainda na partida que rendeu o título sul-americano ao Palmeiras, Evair acabou expulso e só pôde rezar no vestiário enquanto o time se sagrava campeão justamente na disputa por pênaltis. Nesta entrevista concedida à Gazeta Esportiva, em sua casa na capital paulista, o ex-jogador também detalhou as dificuldades de seus primeiros anos no clube, quando evitava sair de casa por conta do jejum de títulos. Para piorar, ainda foi afastado pelo técnico Nelsinho Baptista.

Acervo/Gazeta Press
Evair chegou ao Palmeiras em uma época de jejum e críticas, mas se consagrou no clube
Gazeta Esportiva: Você chegou ao Palmeiras em 1991, em meio ao jejum de títulos do clube. Como era a pressão daquele período?
Evair: Foi uma época difícil. Cheguei já quase indo embora, porque diziam que eu tinha hérnia de disco e que não teria condições de jogar. Isso tudo era fruto da falta de títulos, pois joguei por três anos no Atalanta sem ter dor nenhuma. Mas, de repente, cheguei ao Parque Antártica e veio toda aquela polêmica da hérnia. Eu já tinha até esquecido daquilo, mas falavam que o clube tinha comprado um jogador bichado. Foi uma situação bastante difícil, porque vim com a esperança de fazer algo de bom e encontrei aqueles contratempos, justamente por causa da pressão pela falta de títulos.

Gazeta Esportiva: O longo período do Palmeiras sem conquistas o deixou com receio de aceitar a proposta do clube?
Evair: Não. Aquilo para mim era estimulante, desafiador, porque eu tinha jogado em um time considerado pequeno, o Guarani, no qual fui vice-campeão por duas vezes e cheguei a ser artilheiro do Paulista, além de vice-artilheiro do Brasil. Por isso, pela experiência que tinha adquirido lá fora, jogando em um time muito pequeno também na Itália, que chegou entre os seis por duas vezes, eu esperava que minha chegada desse um ânimo maior e conquistássemos alguma coisa.

Gazeta Esportiva: Com a pressão nos primeiros anos, você evitava sair de casa?
Evair: Sim, o tempo todo, porque era comum ouvir piadinhas. Os garçons faziam comentários, dizendo assim: “Chegou mais um, mas esse não vai dar em nada...” Nós ouvíamos muito disso. Não saía de casa, não ia ao cinema e evitava ir ao mercado, para não me desgastar, porque era cobrado na rua. Isso era bastante comum para nós, porque não queríamos ser tratados daquela maneira. Não era justo, mas a cobrança era tão grande, o palmeirense era tão sentido, que isso parecia ser algo bastante normal no dia a dia, mas vimos depois que não é dessa maneira. Com o passar de 1992, as coisas já começaram a melhorar, veio o vice-campeonato (paulista), e o torcedor do Palmeiras passou a sentir uma esperança.

Gazeta Esportiva: Como a pressão atrapalhava o time nos jogos?
Evair: Se não fizesse gol em 15 ou 20 minutos no Parque Antártica, já começava a escutar a cobrança, que era forte, porque o torcedor pegava no pé em qualquer errinho. Às vezes, o jogador tinha o erro de um passe, bastante comum, e dali para frente era perseguido. Quando o Parque Antártica não estava tão lotado, ouvíamos mais ainda. Isso nos fazia sofrer um bocado, porque não tinham paciência, faltava uma estrutura melhor e talvez bons jogadores para que déssemos determinadas respostas.

Gazeta Esportiva: Neste período, você ainda passou por uma fase difícil, que foi o afastamento...
Evair: Exato, justamente por causa disso (da pressão). Estava no campeonato e não conseguíamos vencer nas primeiras partidas. Nós corríamos, as coisas não davam certo e o grupo também era limitado. Escolheram quatro jogadores, e eu estava no meio. Eu não estava fazendo gol e aquilo fez minha carreira mudar completamente. [Além de Evair, os outros três jogadores afastados foram Ivan, Jorginho e Andrei]

Gazeta Esportiva: Mas como aconteceu? Você chegou em um dia normal de trabalho e foi avisado de que estava fora?
Evair: Isso. Nós tínhamos perdido para o Botafogo no Rio de Janeiro e, quando nos apresentamos, foi comunicado que quatro jogadores estavam dispensados. Como eu era sempre o primeiro a chegar, troquei de roupa e fiquei ali normal. Depois, fui chamado na salinha e disseram que seria feita uma mudança no elenco, e que eu ficaria treinando separado. Fiquei a partir daquele momento treinando separado por dois ou três meses.

Gazeta Esportiva: Foram cinco meses de afastamento.
Evair: Sim. O tempo treinando separado foi de três meses, mas depois nem precisávamos treinar. Não mandavam nem o preparador físico para fazer os trabalhos com a gente.

Gazeta Esportiva: Houve alguma justificativa?
Evair: Deficiência técnica dos quatro.

Gazeta Esportiva: Não houve indisciplina?
Evair: Não existiu. Colocaram que foi deficiência técnica, mas foi mais por não conseguirmos resultados mesmo. O grupo não dava resultados e, no Palmeiras, era desse jeito, tinha que dar alguma coisa a mais na estreia para não ser dispensado na segunda partida. Era uma época bastante conturbada e, por qualquer coisa, era mandado sair.

Gazeta Esportiva: Como você trabalhou nesse período?
Evair: Procurava fazer a minha parte, mesmo quando não mandavam mais o preparador físico. Ficava durante a semana em São Paulo e ia para Minas (Crisólia) nos fins de semana, porque são apenas duas horas e meia até lá. Corria no Ibirapuera ou na academia, para depois eu poder continuar. O Jorginho também ia ao Ibirapuera, e o Ivan às vezes... Nós marcávamos de nos encontrar lá para correr, dávamos umas voltas e pronto. Era só para não ficar parado mesmo.

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A relação com Nelsinho Baptista nem sempre foi tranquila para Evair, que foi afastado do elenco
Gazeta Esportiva: Foi seu pior momento no Palmeiras?
Evair: Os piores foram quando fui afastado e quando tive contusões. Ser afastado do time, pegar as coisas em cima da hora e colocar em cima de saco de lixo, foi um dos piores momentos.

Gazeta Esportiva: Em um saco de lixo?
Evair: Eles me arrumaram um saco, não sei se era de lixo. Peguei minhas chuteiras, porque estava afastado, e saí. Quando cheguei ao meu apartamento, percebi a gravidade do negócio e caiu a ficha.

Gazeta Esportiva: Mas você deve ter cogitado deixar o clube.
Evair: Sim. O União São João tinha me procurado para jogar o Paulista por eles, mas o Palmeiras não aceitou.

Gazeta Esportiva: Com a chegada do técnico Otacílio Gonçalves, você foi reintegrado. Você comemorou a saída do Nelsinho Baptista?
Evair: Não. Para mim, não fazia diferença, mesmo porque, se fosse para jogar futebol no União São João de Araras, eu teria jogado. Se fosse para voltar para a Itália, talvez pensasse duas vezes e não voltasse. Mas, como já tinha certa experiência, sabia que uma hora iria acabar e eu voltaria a jogar futebol. Quando o Otacílio me ligou e perguntou se eu queria voltar, falei que queria conversar pessoalmente com ele antes. Cheguei lá e encontrei uma pessoa muito tranquila, calma e consciente das situações. Vi sinceridade nas palavras dele, querendo que eu voltasse. Ele disse para eu ficar tranquilo, porque aquilo não iria acontecer de novo, era só eu fazer meu trabalho, e confiei naquilo.

Gazeta Esportiva: Como foi a chegada da Parmalat para vocês?
Evair: Eu lidava tranquilamente. Acho que só eu e o Sampaio não éramos da Parmalat. Eles começaram a fazer as contratações, e era algo diferente e legal, porque não existia muito diálogo entre diretoria e jogadores do Palmeiras. Quando chegou a Parmalat, começou a existir um diálogo maior, até com a simples brincadeira de falar que pegaria um leite. Já era motivo para ir lá, conversar com os diretores e mostrar o seguinte: “Somos jogadores, podemos errar e não precisamos ser mandados embora por isso”. Esse tipo de situação começou a mudar. Alguns passavam lá e queriam pegar leite do outro, porque tinham filhos...

Gazeta Esportiva: Vocês realmente levavam leite para casa?
Evair: Tinha brincadeiras sobre isso e, às vezes, a gente passava e pedia um fardo de suco. Existia esse tipo de coisa, mas tudo levado na brincadeira, que fazia com que a gente fosse lá, tivesse diálogo, almoçasse com dirigente da Parmalat... Era algo que nunca tinha existido. Vimos que melhorou bastante.

Gazeta Esportiva: A redenção foi mesmo no título paulista de 1993, já com o Vanderlei Luxemburgo. Como foi a semana que antecedeu o segundo jogo contra o Corinthians?
Evair: A semana parecia durar 16 anos, porque perdemos o primeiro jogo e o tempo não passava. Ficamos a semana toda em um hotel-fazenda e só viemos na sexta-feira para São Paulo, para o jogo no sábado. Lá na concentração, era dormir, treinar, comer e descansar. Mas o jogo não chegava nunca, era uma vida inteira.

Gazeta Esportiva: Na preleção, o Vanderlei explorou bastante a imitação de porco feita pelo Viola no primeiro jogo?
Evair: Ele colocou uma mensagem de familiares, mostrou tudo de bom que tínhamos feito durante o campeonato, os gols que marcamos, a maneira como comemoramos, a alegria que tivemos e também a imitação. Foi uma das preleções mais rápidas que ele fez, porque estava tudo pronto. Tivemos a semana inteira nos preparando e ali foi o arremate mesmo. Quando terminou, ele perguntou: “Precisam de mais alguma coisa?” Todo mundo se levantou e falou que não precisava de mais nada. Nós queríamos que o jogo já começasse naquela hora, sem trocar de roupa, do lado de fora. Nós pegamos o ônibus, e o engraçado é que o torcedor do Corinthians ia seguindo de carro, dando tchauzinho. Nós acenávamos, falando para eles irem ao Morumbi, porque tínhamos uma confiança tão grande de acabar com a fila naquele dia que queríamos que todos estivessem lá.

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Edmundo também quis bater pênalti contra Corinthians, mas Luxemburgo deixou para Evair
Gazeta Esportiva: A confiança era maior do que o medo de dar errado?
Evair: Era muito maior. Nunca passou por nossa cabeça perder aquele título, tanto é que no primeiro jogo nós quase empatamos. Eu estava no banco, vindo de contusão, mas entrei na partida e tivemos oportunidades. No segundo jogo, não tínhamos dúvida do que aconteceria, mas queríamos palpar aquilo. Por isso, a ansiedade era muito grande, e manter aquele frio na barriga era bom, fazia parte do esperado.

Gazeta Esportiva: Vocês falaram com o Viola durante o jogo, por causa da provocação?
Evair: Não tínhamos esse tipo de cobrança com o adversário.

Gazeta Esportiva: Mas a imitação pesou durante a semana para vocês?
Evair: Aquilo chamou mais a atenção porque o torcedor ligava para nós no hotel, oferecendo dinheiro, falando desse episódio... Mas eu, como profissional, achei aquilo uma imitação e pronto, acabou ali. Poderíamos usá-la e motivar por causa disso, mas só isso, porque nós que teríamos que dar resposta e não ficar preocupados com imitações.

Gazeta Esportiva: Como esses contatos dos torcedores foram tratados por vocês?
Evair: De vez em quando, antes dos treinos, falávamos que a torcida estava ligando para oferecer dinheiro. Ligavam para mim e para outros mais velhos do time, e levávamos tudo na brincadeira, porque, para nós, não interessava mais nada, só queríamos escrever nosso nome na história e o que ganharíamos de dinheiro estava bom. Se não fosse ganhar (a mais), tudo bem também. Era mais um motivo de descontração.

Gazeta Esportiva: Como foi a chegada ao estádio?
Evair: Todo mundo estava muito concentrado e focado naquilo que queria. Fomos ao vestiário e já estava certo que eu jogaria, não havia dúvida nenhuma. Quando estava no vestiário, ouvi a torcida gritar meu nome e percebi que a responsabilidade era muito grande. Foi um momento em que eu pensei: “É hoje, tem que ser hoje”.

Gazeta Esportiva: Você fez um gol no tempo normal, mas o pênalti na prorrogação teve um significado especial?
Evair: Acho que sim, porque foram muitos anos de espera. Tivemos tantas oportunidades para fazer gol com a bola rolando, mas, infelizmente ou felizmente, sobrou para o pênalti, o que foi para coroar, para dizer acabou. Era um momento tão esperado no futebol que não sabíamos qual seria o desfecho de tudo.

Gazeta Esportiva: Quando o árbitro marcou o pênalti, você já sabia que seria o responsável? O Edmundo também se colocou à disposição...
Evair: O Edmundo queria bater, e o Sampaio veio me falar. Eu disse para o Sampaio que ele deveria falar para o treinador. Se o Vanderlei dissesse para ele bater, tudo bem. Mas o Luxemburgo decidiu que quem bateria o pênalti seria eu.

Gazeta Esportiva: Você foi para a bola com a certeza de que faria o gol?
Evair: Tinha certeza de que a bola entraria, porque eu sempre disse que pênalti não é o presidente que tem de bater e não tem essa de sorte. Pênalti é para aquele que estiver mais preparado, e eu tinha me preparado para fazer aquilo. Não tinha muito segredo.

Gazeta Esportiva: Como foi a comemoração depois do título?
Evair: Quando chegamos ao Parque Antártica, eu já não tinha mais voz, não conseguia mais falar, porque parecia que estava gritando havia 16 anos. Tinha acabado e era um alívio para nós. Não era apenas por ser campeão, mas sim pelo orgulho do palmeirense de vestir a camisa de novo. Dali para frente, nós fazíamos questão de sair para a rua. Depois da comemoração, cheguei em casa de madrugada, tomei banho e fui dormir. Quando acordei às 9 horas, decidi ir para minha casa em Minas. Peguei a estrada e, quando cheguei ao pedágio da (rodovia dos) Bandeirantes, as pessoas me reconheceram. Foi então que vi que o palmeirense tinha tirado a camisa do armário e tinha orgulho novamente. Queriam tirar fotos e pegar autógrafos, mas a fila de carros precisava andar. Aquele momento foi marcante, porque eu soube que o Palmeiras tinha feito história. Aquilo ia virar um tumulto e, quando passei, fui embora, com os palmeirenses atrás agradecendo e acenando com a mão.

Gazeta Esportiva: O time de 1993/94 é um dos melhores da história do clube. É o melhor em que você jogou?
Evair: Foi o de 1994. Já não existia aquela pressão de ser campeão paulista e brasileiro. Nós já jogávamos com mais tranquilidade e confiança, tanto é que perdemos poucas partidas no ano. Sabíamos que o desgaste passaria e que seríamos campeões. Já tinha Rivaldo, Rincón... Era um time mais encorpado e sabia o que queria na competição.

Gazeta Esportiva: Dos títulos de 1993 e 1994, três foram sobre o Corinthians: um Paulista, um Brasileiro e um Rio-São Paulo. Havia um significado a mais para vocês ter sempre o rival no caminho?
Evair: Acho que dava mais motivação, porque ganhamos o primeiro, e o adversário se sentia na obrigação de vencer o segundo. Isso nos deixava jogar esperando um pouco atrás, para termos as oportunidades no contra-ataque. Sabíamos que tínhamos de tirar proveito. Era uma vantagem sim, diferente de disputar o título com outro time, principalmente pela rivalidade que tinha dentro de São Paulo. Depois de vencermos a primeira e a segunda, o adversário vinha com obrigação. A torcida obrigava os caras a sair e nós sabíamos tirar proveito.

Gazeta Esportiva: Além de ter encerrado o jejum vencendo o Paulistão, vocês ainda ganharam o Brasileirão em 1993, que o Palmeiras não conquistava havia 20 anos. Como foi trabalhado para que não diminuíssem o ritmo?
Evair: Foi bastante especial, nós queríamos fazer uma história diferente. Já tínhamos quebrado o tabu, mas queríamos escrever nosso nome. Ótimo que já estávamos com um título, mas queríamos continuar, porque os adversários não eram superiores. Todos tínhamos salários excelentes, com possibilidade de jogar fora do Brasil, e isso nos fez relaxar para conquistar, tendo a ideia de escrever nosso nome na história. O Vanderlei sabia muito bem e falava bastante isso, para que não nos preocupássemos com o dinheiro e nem com o material naquele momento, porque o importante era colocar uma estrela.

Gazeta Esportiva: Depois de cinco títulos pelo clube, como foi sua decisão de deixar o Palmeiras, no fim de 1994, para jogar pelo Yokohama Flugels?
Evair: Talvez aquilo fosse uma recompensa... Eu ganharia um salário muito bom, iria para o Japão, teria outros dois colegas meus (César Sampaio e Zinho) e poderíamos conquistar lá também. Havia muita cobrança em cima, de ter que ser campeão e artilheiro todo o dia. De repente, veio uma proposta e você pensa como um alívio: “Vamos encarar isso, ganhar um dinheiro também e sair por cima”. Na minha cabeça, naquele momento, acho que foi isso. Lá, não teria tanta cobrança, sairia um pouco daquele estresse de cima e poderia desfrutar.

Gazeta Esportiva: Nos dias que antecederam sua viagem ao Japão, como foi o contato com o torcedor? Havia pedidos para ficar?
Evair: Eles não sabiam o que aconteceria e nem se sentiriam falta, porque o Palmeiras iria contratar. O torcedor já tinha a expectativa de quem chegaria e pensava em continuar sendo campeão. Houve o muito obrigado, mas eles sabiam que o Palmeiras era maior, e eu também precisava seguir meu caminho.

Gazeta Esportiva: Já sem você, o Palmeiras perdeu um título paulista para o Corinthians em 1995...
Evair: Naquele momento, o torcedor do Palmeiras me ligou. Os amigos palmeirenses pediam: “Evair, volte, pelo amor de Deus”. Mas eu falei para deixar mais um pouco.

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Evair era reserva no elenco de Felipão que conquistou a Libertadores, mas não se sentiu menosprezado
Gazeta Esportiva: Mas você só voltou ao Palmeiras em 1999. Como foi seu retorno?
Evair: Foi uma negociação muito rápida. Saí de Minas e vim para São Paulo pensando onde jogaria. Recebi um telefonema chegando a São Paulo, e do outro lado me disseram que havia uma proposta do Palmeiras, cobrindo a dos outros. Eu disse que então estava certo.

Gazeta Esportiva: Entre esses outros, havia o Corinthians?
Evair: Sim, tinha o Corinthians. Mas a pessoa que me ligou perguntou se poderia acertar (com o Palmeiras), e eu disse que sim. Foi coisa de meia hora.

Gazeta Esportiva: Se não acertasse com o Palmeiras, existia a chance de jogar no rival?
Evair: Talvez. Existia essa possibilidade, mas muito remota. Eu já tinha recusado uma vez, quando fui para o Japão.

Gazeta Esportiva: O Corinthians tentou te contratar em 1994?
Evair: Exatamente. Eu estava em Minas, recebi um telefonema e do lado de cá uma pessoa se dizia diretor do Corinthians, mas expliquei que já tinha dado minha palavra no Japão. Ele disse que seria possível, mas falei que não faria aquilo de maneira alguma. Eu já tinha dado também minha palavra no Japão e não tinha motivo para causar tanta polêmica.

Gazeta Esportiva: Quando voltou ao Palmeiras, você tinha o temor de não dar certo e arranhar de alguma forma sua imagem no clube?
Evair: Não. Eu tinha confiança de que daria tudo certo.

Gazeta Esportiva: Neste retorno, você ficou muitas vezes no banco de reservas. Como lidava com isso?
Evair: Foi tranquilo, porque nós tínhamos um ambiente muito favorável e sabíamos da importância de todos. Eu tinha sido titular absoluto por onde havia passado e estava naquela situação, mas não me sentia reserva e sabia que tinha uma obrigação no grupo. Isso é também uma maneira de crescer, e você é valorizado por essas coisas, sabendo ficar quieto na hora certa e não criar tumulto no grupo. Faz parte de um time que quer ser campeão.

Gazeta Esportiva: A grande conquista do Palmeiras em sua nova passagem foi a Libertadores de 1999, inclusive com um gol seu de pênalti no tempo normal da decisão contra o Deportivo Cali. Dá para comparar com o pênalti da decisão contra o Corinthians, em 1993?
Evair: Foi mais difícil do que o de 1993. Naquele Paulista, eu estava muito mais preparado, pois já sabia que bateria pênaltis. Já em 1999, saí do banco e fui bater o pênalti. Apesar de ter estudado antes o Dudamel (goleiro do Deportivo), sabendo como ele se comportava, foi muito difícil. Digo isso pela parte psicológica, de sair do banco para já bater. É mais desgastante psicologicamente do que fisicamente.

Gazeta Esportiva: Mesmo com seu gol, a partida seguiu com sofrimento até o fim, inclusive com o empate do Deportivo logo em seguida.
Evair: O pior para mim foi ter sido expulso, isso que foi difícil. Já tínhamos feito 2 a 1, mas precisávamos de mais um gol para não ter pênalti, e o filho da mãe do juiz resolveu me expulsar. Eles (adversários) falavam na língua dele, e uma hora o cara caiu e falou que eu tinha dado uma cotovelada. O juiz acreditou, e é bastante comum até hoje a arbitragem fazer isso, porque eles falam na língua deles. Somos cansados de ver time brasileiro ser prejudicado.

Gazeta Esportiva: Por ter sido expulso, você acha que se sentiria culpado em caso de perda do título?
Evair: Não iria me sentir culpado, mas ficaria bastante chateado. Tinha certeza de que não havia agredido, mas não estaria lá dentro e não bateria pênalti. Isso era difícil de encarar.

Gazeta Esportiva: Como você acompanhou os pênaltis?
Evair: Só ficamos no vestiário eu e o padre (Pedro Bauer, amigo de Felipão). Foi impressionante, um desespero total. Não sabia o que fazer, e fiquei andando de um lado para o outro, até que resolvi orar. Ajoelhei e, quando levantei a cabeça, vi o padre rezando do outro lado. Não tinha TV, e fomos só pelo som da arquibancada. Na hora em que o Zinho bateu, houve aquele silêncio. Quando acabou, alguém chegou para nos avisar que tínhamos sido campeões. Só então fui saber quem tinha batido, errado e marcado. Eu nem acreditava, tive que subir as escadas para ver se era realmente verdade. Que sufoco.

Gazeta Esportiva: E você já era evangélico?
Evair: Sim, por isso que ficou estranho (rezar com o padre), mas o pensamento era normal. O desespero era tanto... (risos)

Gazeta Esportiva: Depois de todas essas conquistas, teve o jogo contra o Manchester United, em que você começou no banco.
Evair: Tinha a possibilidade de ser titular, mas fui escolhido para ficar no banco. O Asprilla e o Paulo Nunes começaram a partida, mas eu sabia que entraria no jogo, tinha certeza. Só não esperava não resolver, apesar de que poderiam não ter dado impedimento no gol que o Alex fez. E o passe era meu. Já teria ido pelo menos para a prorrogação e, provavelmente, poderia ter ido para os pênaltis, em disputa que teríamos possibilidade muito grande de ser campeões.

Gazeta Esportiva: Você já sabia que aquele jogo poderia representar o fim de sua passagem pelo Palmeiras?
Evair: Eu já sabia. Queria terminar com o título para poder até mesmo encerrar a carreira, apesar de saber que não me deixariam parar. Eu estava com 33 anos, e joguei até 38. Provavelmente, eu não iria encerrar ali, mas seria um bom motivo para me aposentar do Palmeiras e ir embora com o dever cumprido.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Evair jogou pela última vez pelo Palmeiras em 1999 e se sente mais distante do sonho de treinar o clube
Gazeta Esportiva: Ainda houve alguma negociação para ficar?
Evair: Não houve. Queria ter sido campeão, para poder ir embora mais tranquilamente, de cabeça erguida. Apesar de ter sido campeão da Libertadores, aquele título teria sido para fechar com chave de ouro.

Gazeta Esportiva: Você ainda tem a meta de ser técnico do Palmeiras?
Evair: Ser treinador do Palmeiras já foi um sonho maior na minha vida, por tudo aquilo que o clube significa para mim. Quem sabe um dia possa realizar.

Gazeta Esportiva: Mas o sonho já foi maior?
Evair: Hoje é menor, porque já sabemos o que realmente significa ser treinador hoje, não depende só da sua capacidade, e sim de muitos outros interesses, dos quais não faço parte.

Gazeta Esportiva: Quais são esses interesses?
Evair: No futebol, hoje em dia, são os empresários que mandam, mas não tenho esses empresários para me indicar, para me levar a alguns times. São essas as diferenças, não tenho amigos empresários. É por isso.