Centenário do Palmeiras - ( - Atualizado )

Prass contém missão de título e vê honra por participar do centenário

São Paulo (SP)

“O ano que vem não pode passar sem título, tem que ter um título, pelo menos, para marcar o centenário do clube com uma conquista. Isso é o princípio de tudo para nós”. A declaração é de Fernando Prass em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva às vésperas de ser campeão da Série B do Brasileiro do ano passado. Hoje, o goleiro contém as próprias palavras.

Um dos jogadores com mais influência no elenco, o veterano conversou com a reportagem sobre a pressão da histórica temporada até agora e prefere se sentir privilegiado por participar de um momento único. Embora ainda esteja em recuperação de cirurgia no cotovelo direito pela qual passou em maio.

Até como uma maneira de controlar o nervosismo da equipe, o jogador de 36 anos adota a postura de pensar passo a passo, com evolução gradual antes de sonhar alto demais. Mas mostrando conhecimento da história do clube a ponto de, inclusive, minimizar o peso dos protestos da torcida diante das glórias do Verdão.

Gazeta Esportiva: Como é fazer parte do elenco no ano do centenário do Palmeiras?
Fernando Prass: Jogar em um clube grande como o Palmeiras já tem pressão e responsabilidade e dá orgulho. Não se pode dizer que o ano do centenário é igual, como qualquer outro, porque fica marcado. Mas não encaro como pressão, só como privilégio. Na história do Palmeiras, somos os únicos privilegiados por jogar no ano do centenário, só daqui a 100 anos outros terão esse privilégio. A vida, principalmente no futebol e no esporte, se resume a aproveitar ou não as oportunidades, e temos uma oportunidade grande, do tamanho do clube. É difícil porque o futebol brasileiro tem vários times em condições de brigar por títulos, e não pode ser uma pressão extra, mas um título no centenário seria marcante na história do clube.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Longe de título em 2014, Prass se vê privilegiado por jogar no centenário, mas com seriedade de sempre
Gazeta Esportiva: Vocês, dentro do elenco, têm falado sobre centenário? 
Prass: Não temos essa ansiedade. Isso é muito mais por parte da torcida e da imprensa, que trabalha muito em cima disso. Estamos preocupados com o Campeonato Brasileiro e com a Copa do Brasil. O centenário faz parte da história do clube, é importantíssimo, é muito legal, mas é uma coisa com a qual não temos que nos preocupar.

Gazeta Esportiva: No ano passado, você falava em conseguir um título no centenário como se fosse uma missão. Por que é diferente ser campeão no centenário do Palmeiras?
Prass: Por causa da repercussão. No ano passado, o Palmeiras tinha a obrigação enorme de conquistar um título e, no ano que vem, independentemente de ser campeão ou não neste ano, vai ter pressão. Se ganharmos um título neste ano, não vamos entrar tranquilos no ano que vem, vai ter pressão de novo. A diferença de um título no centenário é mais em relação à exposição, à mídia, que fica mais marcado. Mas, para o jogador, a pressão de jogar em time grande é constante e diária.

Gazeta Esportiva: É diferente atuar no centenário?
Prass: Tem essa exposição e a cobrança, a ideia e o sonho para a torcida que quer ser campeã no centenário, a imprensa toca muito na tecla de que se está montando um elenco para o centenário, o planejamento para o centenário... Na realidade, o clube trabalha como um ano normal, só que a repercussão de tudo que acontece, para o bem ou para o mal, é muito maior.

Gazeta Esportiva: O que você está achando da temporada do centenário até agora?
Prass: Ficamos no quase. No Campeonato Paulista, tínhamos chances de chegar. Eu preferia estar falando isso como campeão porque estaria com a mesma postura: não se pode reclamar do regulamento porque foi assinado por todos no início, mas que se privilegie a parte técnica, não que um jogo decida o campeonato todo e o time com 20 pontos a menos seja campeão. (O Palmeiras parou na semifinal e o Ituano foi campeão paulista tendo somado ao longo de toda a sua campanha os mesmos 35 pontos que o Verdão teve só na primeira fase)

Fernando Dantas/Gazeta Press
Goleiro mostra conhecer história do clube, destacando Academia de Futebol, Ademir da Guia e Marcos
Gazeta Esportiva: Ainda confia em título neste ano? 
Prass: Precisamos ser realistas e, primeiro, pensar passo a passo, passar para a primeira página da classificação, ficar em colocação melhor. É necessária a consciência de que precisamos melhorar e evoluir tanto dentro de campo como na tabela. Não podemos pensar em título estando tão longe do líder. Temos que pensar em recuperar, ultrapassar quem está mais próximo, a seis, sete, oito pontos, e o nosso desempenho e a nossa recuperação vão ditar para o que vamos acreditar.

Gazeta Esportiva: A Copa do Brasil parece ser um sonho mais possível de título no centenário... 
Prass: Na Copa do Brasil, toda fase começa zerada. Os times entram em igualdade e o máximo que te separa da classificação é uma vitória se você perder o primeiro jogo. O Brasileiro é muito mais longo, com 38 rodadas, quatro ou cinco vitórias para chegar à liderança, um campeonato mais difícil e árduo para se jogar.

Gazeta Esportiva: Você acompanhou do Rio Grande do Sul, quando era criança, a pressão por títulos no jejum do clube entre 1976 e 1993. Dá para comparar com a pressão de hoje? 
Prass: Só quem viveu internamente sabe o que é a pressão. Nós, que estamos no meio do futebol, muitas vezes nos surpreendemos quando vem um pessoal de um time e comenta algumas coisas, que é assim e assado. É difícil de se mensurar isso, ainda mais sem viver com a situação. Enfrentamos pressão, mas é uma pressão normal de time grande.

Gazeta Esportiva: O que sempre se destacou na história do Palmeiras para você? 
Prass: A Academia, aquela fase maravilhosa do Palmeiras com grandes jogadores, principalmente com a referência do Ademir da Guia, que é um dos jogadores que todas as torcidas reconhecem. Depois o Marcos, a história dos goleiros do Palmeiras, a estrutura, a tradição que o Palmeiras tem, as condições de trabalho, e a dificuldade que era jogar aqui no Palestra. Enfrentei o Palmeiras algumas vezes aqui e era muito complicado.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Para veterano, glórias do Verdão tornam despercebidos casos como da xícara que cortou sua cabeça

Gazeta Esportiva: As xícaras atiradas por torcedores de organizada contra o elenco e que cortaram sua cabeça no ano passado é um dos episódios que mancham essa história de 100 anos? 
Prass: Se todos pudessem voltar atrás e rever algumas coisas, com certeza iam apagar alguns deslizes de sua história, até na vida pessoal. Mas temos que valorizar o que é bom. Tenho certeza de que, por mais que tenha certo receio de admitir, a pessoa sabe quando as coisas não são positivas para a imagem do clube. O Palmeiras tem uma história muito mais positiva, sem dúvida nenhuma, pelos oito títulos brasileiros, pela Libertadores, pelas Copas do Brasil, pelos jogadores que teve. É uma história tão grande que, às vezes, as coisas ruins passam despercebidas.