Centenário do Palmeiras - ( )

Academia de Futebol fez do Palmeiras o campeão do século XX

São Paulo (SP)

Estampada acima da entrada da Avenida Francisco Matarazzo do antigo Palestra Itália, a inscrição “Campeão do Século XX” servia para lembrar aos torcedores, jogadores e adversários a grandeza do clube antes de cada partida. Se o Palmeiras hoje tem o direito de se auto-intitular como tal, deve à lendária Academia de Futebol.

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No recorte histórico, o glorioso período começa com o título do Super Campeonato Paulista de 1959, conquistado sobre o Santos de Pelé, e termina com o Estadual de 1974, diante do Corinthians. Neste intervalo, o Palmeiras ganhou nada menos que seis títulos nacionais, hoje com status de Campeonato Brasileiro.

“A gente sente saudade, porque foram tempos gloriosos que o Palmeiras viveu. Naquela época, existiam muitos torneios. Ano sim, ano não, o clube era campeão de alguma coisa. Paulista, Brasileiro, da Taça Brasil”, enumerou o ex-volante Dudu à Gazeta Esportiva.

O período em que a Academia de Futebol brilhou coincide com o auge do futebol brasileiro, entre o título mundial da Copa da Suécia 1958 e a defesa do tricampeonato na Alemanha 1974. Desta forma, a briga por conquistas era protagonizada pelos maiores craques em atividade, a começar pelos do poderoso Santos.

De 1958 a 1969, somente o Palmeiras, campeão em 1959, 1963 e 1966, e o Santos ganharam o Campeonato Paulista. Se o time praiano era liderado por Édson Arantes do Nascimento, o Verdão contava com Ademir da Guia, não por acaso chamado de Divino.

“O futebol era jogado de uma maneira diferente. Nós entrávamos com quatro zagueiros, dois jogadores no meio de campo e quatro atacantes. Então, existiam mais craques na equipe. Tínhamos dois pontas, jogadores que buscavam a linha de fundo, driblavam, cruzavam”, recorda Ademir da Guia, saudoso.

Acervo/Gazeta Press
Eurico, Leão, Dudu, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Edu Bala, Leivinha, César Maluco, Ademir da Guia e Nei
O período é, de longe, o mais prolífico em termos de títulos para o Palmeiras. Historicamente, estabeleceram-se duas Academias de Futebol. A Primeira, com nomes como Julinho Botelho, Djalma Santos e Valdir Joaquim de Moraes, protagonizou um dos maiores feitos da centenária equipe.

Em 1965, sob o comando do argentino Filpo Núñez, único estrangeiro a dirigir a Seleção Brasileira, a Primeira Academia vestiu a amarelinha no jogo que marcou a inauguração do Mineirão e venceu o Uruguai por 3 a 0, gols de Rinaldo, Tupãzinho e Germano.

Já a Segunda Academia, treinada no auge por Osvaldo Brandão, ofereceu ao Palmeiras aquela escalação lembrada eternamente pelos torcedores e arquirrivais, fundamental para todo time que se preze. Eurico, Leão, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. Seis deles foram chamados para a Copa 1974.

“Naquela época, tinha cinco para cada posição e aquele que estivesse em melhores condições jogava. Se você ficasse resfriado, para voltar era uma briga. Precisava esperar o outro se machucar. O apelido do Valdir, goleiro, era Manco, porque ele jogava até mancando. Eu mesmo cheguei a jogar com estiramento”, lembra César Maluco.

Acervo/Gazeta Press
Ademir da Guia defende a equipe de masters
Os ídolos da Academia conviveram durante longos anos. Ademir da Guia (901 jogos), Emerson Leão (617) e Dudu (609) são os três atletas que mais vestiram a camisa do clube fundado em 1914. De acordo com César Maluco, segundo maior artilheiro (180), o relacionamento entre o grupo era bom.

“Na nossa época, dos 30 jogadores, cinco tinham carro. Na hora do almoço, subiam cinco em cada carro e a gente comia junto. Atualmente, cada jogador tem cinco carros. Não há união. Eles pouco se falam. Antigamente, se surgia algum problema, a gente resolvia no vestiário”, disse o ex-atacante.

Ao falar sobre o futebol atual, marcado pela força física em detrimento da técnica, os ídolos da Academia de Futebol adotam tom nostálgico. Aos que preferem ver Ademir da Guia a Felipe Menezes, há a opção de acompanhar uma partida do time de masters, já que o Divino, aos 72 anos, segue na ativa.