Centenário do Palmeiras - ( )

Copa Rio de 51 apresentou Verdão ao mundo e resgatou orgulho do País

São Paulo (SP)

Na tentativa de resgatar o orgulho nacional após a derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) organizou o primeiro importante campeonato internacional envolvendo clubes do país um ano depois. Desta forma, coube ao Palmeiras, no dia 22 de julho, no mesmo Maracanã que foi palco da vitória celeste, fazer nação voltar a vibrar com o futebol: o time do Palestra Itália venceu a Juventus, da Itália, na decisão.

“Palmeiras, campeão do mundo”, escreveu o jornal A Gazeta Esportiva ainda no dia da decisão. O diário também destacou a mobilização da torcida pelas ruas de São Paulo, que buscava informações sobre o jogo realizado no Rio de Janeiro. O carioca O Globo, por sua vez, mostrou que a antiga rixa entre os dois estados estava amenizada com a conquista e exibiu a foto dos onze jogadores do time “campeão dos campeões do mundo” em sua capa.

Se uma das intenções da CBD era apagar a imagem da derrota para o Uruguai, o desempenho palestrino foi fundamental. Na transmissão da Rádio Continental, o narrador Oduvaldo Cozzi, com a proximidade do título alviverde no Maracanã, descrevia: “a torcida prorrompe o grito de Brasil, Brasil e Brasil”. Já na paulistana Rádio Panamericana, após o apito final, Pedro Luiz afirmou: “O Palmeiras dá o primeiro grande título internacional do futebol ao Brasil”.

Acervo/Gazeta Press
Os campeões mundiais antes da partida decisiva contra Juventus (da esquerda à direita): o goleiro Fábio Crippa, Luiz Villa, Juvenal, Salvador, Dema, Rodrigues, Ponce de Leon, Túlio, Liminha, Jair Rosa Pinto e Lima
A campanha alviverde ao longo da Copa Rio, porém, não foi fácil. Com oito clubes participantes, a competição foi dividida em duas sedes: Pacaembu e Maracanã. Em São Paulo, o anfitrião Palmeiras dividia o grupo com o francês Nice, o iugoslavo Estrela Vermelha e a italiana Juventus. Na outra chave, o Vasco recebeu o uruguaio Nacional, o português Sporting e o Áustria Viena.

Depois de vencer as últimas edições do Paulista e do Rio-São Paulo, o Palmeiras chegou com força ao torneio internacional e confirmou o favoritismo ao vencer o Nice, por 2 a 0, e o Estrela Vermelha, por 2 a 1, nos dois primeiros jogos. A vaga nas semifinais estava garantida, mas ainda era preciso disputar o primeiro lugar da chave. Diante da Juventus, a equipe do Palestra Itália não repetiu as mesmas atuações, foi goleada por 4 a 0, em uma “autêntica catástrofe para o futebol brasileiro”, e passou a não ser mais cotada como favorita.

Acervo/Gazeta Press
A histórica capa de "A Gazeta Esportiva" no dia da conquista palmeirense, que mobilizou até torcedores de outros clubes na festa pelas ruas de São Paulo
Com o resultado, o Palmeiras teria que enfrentar o Vasco, líder do outro grupo. Ainda invicto, o time de São Januário vivia um momento melhor na competição e ainda jogaria as duas partidas com o apoio da torcida no Maracanã. O time liderado por Jair Rosa Pinto, porém, surpreendeu, vencendo o primeiro jogo por 2 a 1 e segurando o empate sem gols no segundo compromisso. O destaque das semifinais, aliás, também foi uma surpresa: terceiro goleiro, Fábio Crippa assumiu a vaga de Oberdan Cattani e brilhou sob as traves.

A heroica classificação serviu para espantar a desconfiança, mas ainda seria preciso exorcizar o fantasma da primeira fase para conquistar o título, já que na outra semifinal a Juventus também passou pelo Áustria Viena. A história, porém, seria diferente desta vez. Logo no primeiro jogo, novamente no Maracanã, e com apoio da torcida carioca, o ponta-esquerda Rodrigues tratou de garantir a vitória alviverde por 1 a 0 e colocar o Palmeiras em vantagem na final da Copa Rio. Era preciso, no entanto, encarar o forte time italiano mais uma vez.

No dia 22 de julho, Palmeiras e Juventus se reencontraram no gramado do Maracanã, diante de 100.093 pessoas, e iriam decidir o primeiro importante título entre clubes no futebol mundial. Para tirar a vantagem adversária, os estrangeiros terminaram o primeiro tempo vencendo por 1 a 0, com gol de Praest, mas uma mudança na equipe palestrina durante o intervalo mudaria os rumos da partida.

Canhotinho entrou na vaga de Ponce de León e deixou o Palmeiras mais ofensivo. Rodrigues voltou a ser decisivo e empatou o confronto logo aos 3 minutos do segundo tempo, mas a Juventus voltaria a ficar à frente do marcador aos 18, com Boniperte. A redenção brasileira foi confirmada apenas aos 33, quando Liminha entrou com bola e tudo e anotou o segundo do Verdão. Estava definido: 2 a 2 no Maracanã e título no Palestra Itália.

Em São Paulo, não demorou a iniciar os pedidos para que o povo fosse às ruas “saudando o campeão dos campeões no dia da volta de sua mais gloriosa jornada”, como descreveu A Gazeta Esportiva. Já no dia da festividade, o jornal cravou cerca de um milhão de pessoas, com o apoio de são-paulinos e corintianos, pela capital para acolher o Palmeiras. O alviverde, formado por Fábio Crippa, Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Lima, Ponce de León (Canhotinho), Liminha, Jair e Rodrigues, comandado por Ventura Cambon, entrava para a história.

*Texto originalmente publicado em 09/08/2014