Centenário do Palmeiras - ( )

Corintiano de 26 anos administra jornal que marcou início do Palestra

São Paulo (SP)

Em agosto de 1914, o jornal Fanfulla publicou a carta que motivou o surgimento do Palestra Itália. Cem anos depois, o histórico aniversário da Sociedade Esportiva Palmeiras será noticiado pelo veículo por meio da Internet. Fundado em 1893, o órgão voltado à comunidade italiana no Brasil atravessou três séculos e atualmente é administrado pelo jovem Leonardo Dellarole, 26 anos, torcedor do Corinthians.

“Eu gosto de futebol, embora não acompanhe muito. Se eu falar o time que torço, talvez muita gente fique com raiva. Sou corintiano, mas não tenho problema algum em relação à ligação histórica do Palmeiras com o Fanfulla. Sei da importância que o jornal teve no desenvolvimento do Palestra Itália e sinto orgulho disso”, explicou Dellarole à Gazeta Esportiva.

Um dos mais antigos veículos de imprensa do País, o Fanfulla, fundado na esteira da imigração massiva dos italianos ao Brasil no final do século XIX, tinha tiragem significativa. Desta forma, foi a publicação ideal para divulgar a intenção de criar um clube de futebol para representar a numerosa colônia na capital paulista.

“Per la formazine di una squadra italiana di foot ball in S. Paolo” é o título da carta assinada pelo então estudante Vicente Ragognetti, lembrado atualmente em uma placa instalada no clube ao lado de outros pioneiros. A correspondência foi publicada na edição do dia 14 de agosto de 1914 do Fanfulla. Doze dias depois, atraídos por um novo chamado veiculado no periódico, cerca de 46 interessados se reuniram no Salão Alhambra para fundar o Palestra Itália.

A iniciativa de formar uma equipe de futebol em São Paulo foi inspirada pelas recentes excursões do Torino e do Pro-Vercelli ao Brasil. O Fanfulla teve papel importante não apenas para divulgar a iniciativa de Vincenzo Ragognetti, Luigi Cervo, Luigi Marzo e Ezequiel Simone, mas também para efetivamente constituir uma equipe.

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O corintiano Leonardo Dellarole, de apenas 26 anos, administra jornal que marcou início do Palestra Itália
Os idealizadores do Palestra Itália usaram o órgão voltado aos imigrantes italianos para convocar homens interessados em praticar o futebol. Antes de disputar sua primeira partida oficial, o clube passou meses treinando em um precário campo localizado na Rua Major Maragliano (Vila Mariana), em terreno hoje ocupado por um hospital psiquiátrico.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Palestra Itália e Fanfulla sofreram juntos. O jornal foi empastelado e o clube acabou obrigado a mudar de nome por Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, que tomou partido dos Aliados contra italianos, japoneses e alemães. Nos anos 1960, enquanto a Academia do Palmeiras orgulhava imigrantes e seus descendentes, o periódico passou por mudanças.

A partir de novembro de 1966, o jornal trocou edições diárias por semanais e mudou de nome para “La Settimana”. Em 2011, com o antigo “Fanfulla” já retomado, a publicação tornou-se quinzenal. Já em 2014, ano em que a Sociedade Esportiva Palmeiras comemora seu centenário de fundação, os números impressos foram definitivamente descontinuados, permanecendo apenas a página na Internet.

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A imagem conservada da carta de Ragognetti publicada no Fanfulla tem marcações à caneta
“Foi uma decisão triste, porém inevitável diante da situação do jornal em termos de publicidade e assinantes. O panorama era positivo, mas estagnado. Pensando no futuro, estava claro que não haveria evolução significativa. Foi mais inteligente investir em um novo caminho. Abdicamos de muita coisa, mas preservamos a marca. Na Internet, você se desprende de uma série de compromissos, prazos e despesas”, justifica Dellarole.

O jovem assumiu as operações do secular jornal em 2009. Então com apenas 21 anos, ele herdou a publicação de sua tia-avó, que havia passado a administrar o periódico após o falecimento do marido. Leonardo contou com apoio do pai e do irmão no começo da trajetória, mas hoje arca com todas as responsabilidades sozinho.

“Atualmente, eu respondo da faxina à presidência”, conta o jovem, rindo. Leonardo não domina 100% o idioma italiano, mas é capaz de organizar a publicação bilíngue do ponto de vista comercial e editorial. Para alimentar o site, ele conta com algumas contribuições esporádicas e não remuneradas, além dos textos da tradicional Agência Ansa.

A última edição impressa do Fanfulla foi publicada em dezembro de 2013, com tiragem de 5 mil exemplares. O jornal mantinha antigos assinantes em diferentes estados brasileiros que recebiam as edições pelo Correio. Periodicamente, Leonardo Dellarole ainda atende ligações de leitores inconformados com o final dos exemplares em papel.

“Alguns assinantes ficaram bem chateados, porque estavam acostumados a receber o jornal impresso há muitos anos. Era um hábito, como levar o cachorro para passear na rua. Cheguei a falar por telefone com vários para explicar a situação. Alguns entenderam e lamentaram. Outros, não entenderam tanto. Muita gente deve estar me crucificando, mas é preciso pensar na saúde da empresa”, justificou.

Formado em Rádio e TV, Leonardo Dellarole concilia a administração do Fanfulla com sua atividade como DJ, hobby que vira profissão esporadicamente. Ele se diz indignado pela “falta de apoio das multinacionais de origem italiana”, mas garante que no momento a situação financeira da publicação é saudável. Ainda assim, vê com bons olhos a possibilidade de vendê-la.

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Antiga sede do jornal da comunidade italiana
“Diante do panorama atual, seria interessantíssimo vender o Fanfulla a alguém que tenha verba suficiente para contratar uma nova equipe de trabalho e fazer o veículo trabalhar a todo vapor novamente. Cuidando de tudo sozinho, é evidente que não consigo manter o padrão ideal em termos de atualização e conteúdo. Tenho muito orgulho de representar essa marca, mas me interessaria por uma boa oferta de compra”, explicou.

A maior parte do arquivo do secular jornal Fanfulla está sob os cuidados do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro (ICIB), localizado em São Paulo. Os exemplares mais antigos, em avançado estado de deterioração, ficam permanentemente armazenados e não podem nem sequer ser manuseados, já que viram pó ao simples toque. Atualmente, a entidade busca verba para digitalizar o precioso material.

Se o Fanfulla publicou a carta que originou o Palestra Itália no começo do século XX, o corintiano Leonardo Dellarolle, de apenas 26 anos, se prepara para noticiar o centenário do Palmeiras pela Internet. “A filosofia da agremiação era ser o clube dos italianos, então tem tudo a ver com a proposta do jornal. Vamos publicar alguma coisa, sim”, prometeu.