Centenário do Palmeiras - ( - Atualizado )

Fundador narrou início e 1º treino do Palestra na Gazeta Esportiva

São Paulo (SP)

O antigo jornal A Gazeta Esportiva publicou uma edição especial sobre o 54º aniversário da Sociedade Esportiva Palmeiras. No exemplar de 24 de agosto de 1968, Vicente Ragognetti, um dos quatro fundadores do clube vivos à época, narrou detalhes do início do Palestra Itália e do primeiro treinamento do time de futebol.

Leia o texto de Ragognetti na íntegra:

Passada a meia noite, depois de uma longa, barulhenta e violenta discussão, eu saltei em cima de uma cadeira e gritei: “Aqui viemos, meu grupo e eu, para fundar uma sociedade de futebol. Futebol, entendem? Vocês só falam em clube de danças, de representação de peças teatrais pelos seus ‘filodramáticos’, e nem ligam para o futebol. Ou vocês acatam a ideia de tratar TAMBÉM de futebol ou eu e meu grupo abandonamos o recinto!”.

Éramos moços. O que faz o moço sem violência? Do outro lado do salão, surgiu Luis Cervo, também montado sobre uma cadeira. Irruente e fogoso, o saudoso amigo aderiu in totum, também ameaçando: “Ou vinga a ideia de Ragognetti ou eu e o grupo dos Matarazzo vamos embora!”.

Houve silêncio. No fim, depois de vários discursos enrolados e gaguejantes, foi aprovada a ideia unanimemente. Fez-se na hora as eleições. Cervo abiscoitou o cargo de Secretário Geral e eu o de Diretor Esportivo. Madrugada. Fomos todos tomar chopp no bar vizinho, cantando, falando, sonhando. Sobretudo, sonhando... Éramos moços... E o moço que não sonha nasceu velho.

Reprodução
Ragognetti é um dos fundadores do clube
No Fanfulla, convocados por mim, com a assinatura do Cervo, pedíamos a todos os italianos e filhos de italianos que soubessem dar com perícia e arte um chute numa bola que na manhã de domingo se encontrassem no Largo São Bento. Apareceram mais ou menos uns trinta. Todos com menos de 20 anos. Tomamos um bonde e lá fomos para o longínquo bairro de Vila Mariana, além da estação de Bonde da Light, à procura de um terreno baldio, indicado ao Cervo por um freguês do Matarazzo.

Encontramo-lo. Não tinha grama nem paus de gol. Não faltava poeira que se levantava a cada nosso chute falho. Tiramos as roupas e todos, já de calção por baixo, aparecemos em trajes excêntricos de futuros craques. As roupas serviram para substituir os paus de gol, com um tijolo em cima, para não voarem com o soprar da ventania.

Iniciamos a peleja. Quinze de um lado, dezoito de outro e lá fomos todos correndo atrás da bola, comprada com um rateio entre o meu grupo, da rua Santa Ifigênia, e o grupo do Cervo, empregados do Matarazzo.

O vozerio era infernal e contínuo. Eu, com pose de centroavante e capitão do time, era o que mais gritava e menos jogava. No fim, o meu saudoso amigo de infância Jorge Giannetti (fundador do clube e sócio número 1 do Palmeiras até a sua morte), na ala direita, pegou a bola, parou o jogo e com a sua inata serenidade me disse: “Ou você para de berrar e joga futebol ou eu me retiro com bola e tudo!". A pelada, sem tempo algum, ininterruptamente, foi até ao meio dia...

26 de agosto de 1914... Éramos moços, quase adolescentes, e gostávamos de sonhar um grande clube para os italianos... São Paulo abandonava as vestimentas de província e tomava a fisionomia de grande cidade... No campo baldio de Vila Mariana, içamos, com fé e entusiasmo, o pavilhão do Palestra Itália, esta Sociedade, que hoje é uma das maiores da América do Sul...

Ave, Palestra Italia!

Salve, Sociedade Esportiva Palmeiras!