Centenário do Palmeiras - ( )

Há 47 anos no Palmeiras, funcionário rejeita parada e espera estádio

São Paulo (SP)

Quando Antônio Salles começou a trabalhar no Palmeiras, Ademir da Guia vestia a camisa 10, Humberto Castelo Branco presidia o Brasil, a Jovem Guarda fazia sucesso e não era possível compartilhar vídeos pelo whatsapp. Contratado em 1º de julho de 1967, o funcionário com mais tempo de casa rejeita uma eventual parada e se diz ansioso para conhecer o novo estádio.

Salles iniciou sua carreira no Palmeiras como auxiliar de cobranças. Ao longo dos últimos 47 anos, passou por diferentes áreas e trabalhou no Centro de Treinamento da Barra Funda antes de assumir o posto de encarregado do departamento social. Hoje, mora nas imediações do clube e, ao caminhar pelas alamedas da instituição, é constantemente saudado.

“O dia de maior alegria foi quando me contrataram aqui no Palmeiras, porque eu estava desempregado. Não imaginava que fosse ficar por tanto tempo, mas naquela época era comum que as pessoas permanecessem bastante no mesmo emprego, desde que preenchessem as exigências da empresa e, é claro, gostassem da função”, explica Antônio Salles, 75 anos, ágil para subir os 15 degraus até sua sala.

Antes da construção da Academia de Futebol, o centro de treinamento usado pelo time profissional, o elenco trabalhava no Estádio Palestra Itália. No começo de sua carreira como funcionário do clube, Salles teve a oportunidade de ver de perto ídolos como Ademir da Guia, Dudu, Leivinha e César Maluco, entre outros.

“Eu peguei uma boa parte da época da Academia. Como os jogadores treinavam aqui, eles acabavam convivendo com os sócios e funcionários. Nunca teve problema. Naquela época, não existiam tantas uniformizadas. A cobrança era menor e os atletas tinha mais liberdade para trabalhar. Eles não precisavam ficar todos separados, como hoje”, diz o funcionário.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Funcionário Antônio Salles, há 47 anos no Palmeiras, aguarda ansioso reabertura do Estádio Palestra Itália
Nos anos 1960 e 1970, conta Antônio Salles, enquanto o time de futebol fazia sucesso dentro de campo, o senso de comunidade no Palmeiras era maior, já que boa parte dos sócios era formada por familiares dos diretores. O clube costumava receber aniversários, formaturas, festas de debutante e de casamento, o que contribuía para estreitar os laços entre os frequentadores.

Ao lado de outros funcionários da instituição, ele tinha o hábito torcer pelos craques da Academia de Futebol nos estádios. “Tem muita coisa aqui no clube que deixou de existir. Antigamente, havia mais união. A maioria do pessoal trabalhava por trabalhar no Palmeiras”, lembra, saudoso.

Depois de vibrar com os feitos do time liderado por Ademir da Guia, ele amargou a longa fila de 1976 a 1993. Em 1990, ficou assustado com a quebra de troféus promovida por vândalos que invadiram a sede após um empate diante da Ferroviária, pelo Campeonato Paulista. Testemunha da retomada do sucesso a partir de 1993, Salles trata as oscilações com naturalidade.

“Aquele foi um dos primeiros ataques de torcida ao patrimônio de clube. O período da fila foi de muito sofrimento. Os times não eram dos melhores e ninguém gosta de ficar morrendo na praia sempre”, diz o funcionário, com um sorriso amarelo. “Mas os altos e baixos sempre vão existir. Nunca vai ser tudo perfeito”, completa, com a experiência de ter vivido os dois rebaixamentos à Série B (2002 e 2012).

Arquivo Pessoal
Funcionário com mais tempo de casa, Antônio Salles (à dir.) conversa com ex-presidente Nelson Duque
Desde que foi contratado pelo Palmeiras, Antônio Salles viu 12 presidentes passarem pelo clube, do respeitado Delfino Facchina a Paulo Nobre, o mais jovem a assumir o cargo. Ele já se aposentou há 10 anos, mas por enquanto nem sequer cogita a possibilidade de abandonar seus afazeres como encarregado do departamento social.

“Consegui ficar por tanto tempo porque gostaram do meu trabalho, tanto que passei por vários departamentos. Adoro trabalhar no Palmeiras, principalmente pelo ambiente. Às vezes, você fica meio entediado. É normal. Mas jamais pensei em sair. Espero continuar por mais 100 anos. Enquanto viver, se não me despedirem, vou estar aqui. Só a aposentadoria não é suficiente, até porque não ganho como jogador de futebol”, brincou.

A demolição do antigo salão de festas do clube durante as reformas do estádio Palestra Itália, iniciadas em 2010, diminuiu as atividades do departamento social. A celebração do aniversário da instituição, antes organizada pelos próprios funcionários, será feita em uma casa de shows especializada, com ingressos a R$ 600,00.

Antônio Salles deixou de acompanhar as partidas do Palmeiras nos estádios há muitos anos, mas já pensa em retornar. “Ser o funcionário com mais tempo de casa é uma honra, como se fosse um título. Sem dúvida, estou muito ansioso para conhecer a nova arena. Vai ficar linda. Quero estar presente no primeiro jogo, de preferência com a família toda. A tendência é que o Palmeiras como um todo melhore”, projetou.