| Foto Acervo/Gazeta Press |
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De Sordi: o sacrifício que valeu um título
Por Matheus Henrique Pichonelli, especial
para a GE.net
Há onze anos, Nilton de Sordi deixou o futebol para
cuidar da família e de sua fazenda. Desencantou-se
com o esporte. As viagens, a pressão, os desdobramentos
dentro e fora dos gramados: a rotina já lhe cansara
a vista. Sentiu que era hora de parar.
Quando se mudou para Bandeirantes, norte do Paraná,
onde encerrou a carreira como jogador, o ex-lateral-direito
logo passou a investir em uma nova empreitada, desta vez como
treinador e supervisor da equipe local, o União Bandeirantes.
Essa vida enjoa muito, cansa. O futebol ainda é
uma profissão muito ingrata, em especial quando se
trabalha como técnico. A pressão é grande.
Se perder mais de duas partidas, está em crise no clube,
não tem paz. Logo está na rua, analisa
o ex-jogador.
Essa vida enjoa muito, cansa. O futebol ainda é
uma profissão muito ingrata, em especial quando se
trabalha como técnico. A pressão é grande.
Se perder mais de duas partidas, está em crise no clube,
não tem paz. Logo está na rua, analisa
o ex-jogador. Vim para o Paraná porque tinha
uma terrinha na região e não voltei mais para
São Paulo. Quase não tenho contato com o pessoal
de lá. Mas aqui estou tranqüilo. Foi aqui que
meus filhos se criaram, cresceram, estudaram e se formaram,
conta.
Paulista de Piracicaba, teve uma passagem vitoriosa pelo
XV de Piracicaba, quando fez parte do grupo que, pela primeira
vez, levou uma equipe do interior à primeira divisão
estadual, em 1949. O futebol do interior paulista era
muito forte. É uma pena hoje em dia ver equipes como
o XV, o Mogi Mirim, entre outras, como estão. Quase
não existem, analisa.
| Foto Acervo/Gazeta Press |
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Seu lamento sobre a mudança
no cenário do futebol brasileiro tem lógica. De
Sordi foi um lateral direito que tinha na regularidade a sua
maior característica. Desde que chegou ao São
Paulo, no dia 1º de janeiro de 1952, aos 18 anos, até
o fim. Encerrou a carreira como jogador no dia 16 de julho de
1965 no time do Morumbi. Sempre com o mesmo vigor, mantendo
as virtudes. Com uma noção de cobertura sem igual,
é lembrado até hoje pelo impulso quando subia
para cabecear a bola, a fim de afast á -la da área
de defesa. Mesmo baixo, poucas vezes os adversários levavam
a melhor em jogada aérea. Por isso, não tinha
dificuldade alguma em manter as boas atuações
quando escalado para atuar como zagueiro-central.
Como era conhecido pelos companheiros de time e torcida como
um atleta que não decepcionava em campo, seja em treino
coletivo, seja em final de campeonato, De Sordi irrita-se
ainda quando escuta que tremeu na grande final
da Copa de 1958. Na ocasião, ocupara com êxito
sua função na equipe que conquistaria o primeiro
título mundial na história de seu país.
Mas uma lesão muscular sofrida nas semifinais, contra
a França, havia lhe tirado o sossego. Atônito,
na véspera do jogo contra a Suécia (quando o
Brasil venceria os adversários por 5 a 2), decidiu:
não entraria em campo. Foi uma decisão
acertada. Na época, não se podia fazer alterações
no meio do jogo. Se eu não conseguisse atuar nos 90
minutos, o time ficava com um a menos em campo. Para não
prejudicar a equipe, resolvi não entrar e dar meu lugar
ao Djalma Santos, conta o ex-lateral.
A história sobre a ausência de De Sordi naquela
partida deu margem à criação de lendas
que adentraram sem dificuldade nos anais da história
do futebol brasileiro. O mistério sobre a sua saída
daquele time, no momento alto do esporte nacional, permitiu
que as más línguas dissessem que ele não
atuara devido a outra anomalia que lhe impregnara o corpo
às vésperas da decisão: o medo. Isso
é uma maldade. É bom ter a chance de esclarecer
isso tanto tempo depois, porque muita gente falou coisas absurdas,
que logo viraram lendas. Mas a verdade é que eu não
entrei em campo simplesmente porque não estava bem
fisicamente e não quis prejudicar a minha equipe,
explica.
O desfalque na final acabou marcando minha carreira,
mas fiz questão de relevar. Afinal, quem me conhecia,
sabia que eu não era assim. Nunca tremi, estava acostumado
a jogar finais de campeonato, justifica. Mas cumprimos
nossa missão, isso eu tenho certeza, comemora
ainda, passados 45 anos da conquista, o campeão do
mundo. Até hoje recebo cartas de parabéns
de vários países. Dias destes, eu recebi uma
da Alemanha. Muitos ainda me param para pedir autógrafos,
isto é muito bom, diz o ex-jogador, que se lembra
ainda da festa preparada para recebê-lo em Piracicaba,
após a conquista de 1958.
Imagine: alguém do interior vencer em São
Paulo e depois em um campeonato mundial. Isto era inimaginável.
Fizeram uma festa belíssima para mim e para o Mazzola,
que também era de Piracicaba, quando voltamos ao Brasil,
relembra, com orgulho.
Naquele dia, a sorte estava mesmo ao lado de De Sordi . Em
seu lugar não entraria qualquer jogador. Djalma Santos
pisou em campo, deu conta do recado e ainda levou as glórias
do título de campeão do mundo. Não fosse
o destino deixar ao Brasil a b ênção de
ter dois grandes atletas para cada posição,
a História talvez hoje fosse outra. Num momento do
esporte considerado um divisor de águas, nada barrara
o destino de um país que desde 1950 tinha o grito de
campeão, já amadurecido, entalado na garganta.
Bem diferente do que aconteceu em 1998, lembra
De Sordi. O Ronaldo não estava bem, foi a campo
e deu no que deu.
Quarto atleta que mais vestiu a camisa do São Paulo
(501 partidas), De Sordi conquistou o título do Paulista
dos anos de 1953 e 1957. Com o nome assegurado na galeria
dos grandes ídolos do Tricolor paulista, o ex-jogador
se pergunta por que a equipe atual, do técnico Roberto
Rojas, com a qualidade dos atletas que compõe o time,
não consegue deslanchar no Campeonato Brasileiro. O
time peca pela irregularidade, observa. Tem bons
jogadores, como o Luis Fabiano, que faz tempo merece uma chance
na seleção. Gosto muito também do Gustavo
Nery, que é um batalhador em campo, analisa.
| Raio-X |
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Nome: Nílton de Sordi
Apelido: De Sordi
Nascimento: 14/02/31 em Piracicaba, SP
Jogos disputados pelo SPFC: 501
Data de entrada no clube: 01/01/52 (deixou
o clube em 16/07/65)
Títulos conquistados: campeão
paulista com o São Paulo em 1953 e 1957
e campeão do mundo em 1958 com a seleção
brasileira.
Outros clubes que atuou: XV de Piracicaba.
Integrou o Brasil campeão mundial de 58.
Trabalhou como jogador, treinador e supervisor
do Bandeirante-PR de 1998 a 1992.
Características: Defensor da velha
guarda, quase não passava do meio-de-campo.
Fazia uma cobertura de seus companheiros impecável.
Mesmo baixo, tinha boa impulsão e quase
nunca perdia uma disputa de bola aérea.
Chegou a atuar como zagueiro-central.
Curiosidades: De Sordi é o quarto
jogador que mais vestiu a camisa do São
Paulo. Nas 501 partidas disputadas pelo Tricolor,
no entanto, não balançou as redes
adversárias nenhuma vez.
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