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Feitosa
ensina aos futuros craques muito mais do que futebol
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Foto Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
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Por Fábio Mello, especial para GE Net
O ex-jogador Feitosa teve uma carreira curta,
mas tem muitas histórias para contar. Em 1976, o meia tinha
sido emprestado pela Portuguesa ao Remo e fazia o último jogo
da temporada. Então, numa entrada desleal no clássico contra
o Paysandu, o atacante Nilson abreviou uma carreira que tinha
tudo para ser brilhante.
Hoje, Benivaldo Silva Feitosa participa do "Craques de Sempre",
programa da Prefeitura de São Paulo em que ex-jogadores ensinam
futebol a crianças de todas as idades. "É lindo. Você vê as
grandes diferenças da sociedade. E o mais legal é que é um
projeto social, que busca a inclusão de todos", comemora o
ex-meia, orgulhoso de seu trabalho.
Casado com Ana Lúcia desde 1976, Feitosa tem orgulho de
sua família, formada pela filha Ana Paula, de 27 anos, e Fernando,
de 23. Sua nova paixão é a netinha Ana Júlia, nascida em 2004.
Para ele, se não fosse o apoio de sua esposa, hoje ele poderia
ter ido para um caminho errado: "Ela que segurou a barra quando
as coisas ficaram difíceis".
Carreira curta: Apesar de ser baiano de Saúde, Feitosa
se considera paulistano, já que mora na cidade desde os 10
meses de idade. Foi nos campinhos da periferia da Capital
que o futebol apareceu em sua vida. Quando tinha 14 anos,
ele começou a fazer seus primeiros testes em clubes como o
São Paulo e a Portuguesa, onde não era aproveitado por ser
considerado magrelo e mascarado: "Meu ídolo era o Rivelino.
Eu o imitava em tudo, tanto é que meu apelido na época era
Beni. Por tudo isso, eu ficava mascarado".
Aos 17 anos, "Beni" disputou o campeonato de indústrias
pelo SAAD, clube da cidade de São Caetano. Depois, passou
no teste na Portuguesa e participou do campeonato extra-amador,
equivalente a um juvenil de hoje. Em 1971, aconteceu sua estréia
no profissional: "Foi contra o Santos e ganhamos de 1 a 0.
O time era praticamente todo formado por jogadores da categoria
de base como o Miguel, Izidoro e o Enéas".
Como a concorrência por sua posição, a de volante, era grande
na Portuguesa, (Badeco, Basílio e Dicá), Feitosa entrava poucas
vezes como titular, o que lhe causava ansiedade. Mesmo assim,
ele era considerado um grande talento pelo técnico Otto Glória,
que o aproveitou bastante na campanha vitoriosa do Campeonato
Paulista de 1973, último título da Portuguesa. Porém, em 1974,
a vontade de jogar com freqüência falou mais alto e ele foi
emprestado ao Sport: "Eu queria jogar, mas só saindo para
conseguir. Hoje eu penso diferente. Os titulares não jogam
o tempo todo, já que há sempre contusões e expulsões".
A identificação do jogador com o Nordeste e Norte do Brasil
foi rápida, tanto é que nos dois anos seguintes, Feitosa foi
emprestado para o Paysandu e Remo, respectivamente. "É uma
coisa fantástica você jogar com o estádio lotado, com os repórteres
correndo atrás de você. Por outro lado, a visibilidade fora
do eixo Rio-São Paulo é muito pequena", analisa o jogador.
Mesmo assim, ele não se arrepende: "Minha história é isso
aí. Se tivesse que ter sido mais, eu teria ido jogar no Corinthians,
meu clube do coração, ou no Rio de Janeiro, onde eu acho que
meu futebol, por ser cadenciado, se encaixaria legal".
O drama da contusão: No final de 1976, Feitosa jogou
sua última partida de futebol, assim narrada por ele: "Era
o último jogo do ano. O clássico Remo e Paysandu não valia
nada, já que o Botafogo tinha sido campeão daquele quadrangular.
O jogo estava tranqüilo, mas o Nílson correu atrás de mim
e me pegou por trás. Resultado: fratura de tíbia, perônio,
semi-rompimento dos nervos e rachadura no tornozelo. A hora
que olhei para minha perna e vi tudo fora do lugar, foi aquele
desespero".
Com a falta de estrutura para cirurgias em Belém, Feitosa
foi transferido para São Paulo e operado depois de três semanas.
Foi dado o prazo de sete meses para ele voltar a jogar, o
que, na visão dele, foi uma forma de poupá-lo de saber a verdade.
Depois de dois anos, ele estava praticamente recuperado e
começou a andar, porém houve refratura: "Daí começaram a me
operar para colocar e tirar placa, enxerto ósseo... Ao todo,
foram 13 cirurgias até a última, há pouco tempo atrás".
Com a falta de apoio dos clubes, Feitosa mergulhou numa
crise e precisou muito do apoio de sua mulher para superar
a frustração de ter que encerrar a carreira. Além dela, a
Associação de Garantia ao Atleta Profissional (AGAP), na época
presidida por Dudu, ajudou o ex-jogador a terminar os estudos
e se preparar para alguma profissão. Feitosa ilustra o descaso
dos clubes com essa história: "Fizeram uma transição de futebol
para pagar o hospital. O Guarani tinha comprado o lateral-esquerdo
Cuca do Remo e pagou com promissórias minha operação. Os médicos
me operaram, mas quando aconteceu a refratura, os médicos
particulares me mandaram para o INPS para não ter que esperar
mais um ano para receber o dinheiro".
Recomeço: Com duas filhas e uma mulher para serem
mantidos, Feitosa foi à luta. Trabalhou como vendedor, como
monitor da Febem e até no jogo do bicho. Depois, em suas palavras,
reapareceu o vírus do futebol: "Eu fui chamado para ser treinador
da categoria de base da Portuguesa e aceitei. Fiquei seis
anos lá, e hoje continuo a fazer aquilo que sempre gostei
no programa da prefeitura".
Agora, sua esperança é que todas as ações trabalhistas sejam
julgadas a tempo de ele poder comprar uma casa para a família,
seu grande sonho. Ele lembra que o dinheiro de auxílio-doença
que recebe hoje é menor que um salário mínimo e não se importa
de receber ajudas para tentar reverter essa situação. "Com
todas as dificuldades que passei, eu vivo dignamente", faz
questão de ressaltar Feitosa, principalmente para seus alunos.
Para finalizar, ele resume o futebol em sua vida: 'Jogar
futebol é a profissão mais linda, mas o mesmo tempo é uma
das mais cruéis que existe. Eu fui assistir ao filme do Pelé
e vi ele chorando ao recordar de seus tempos gloriosos. No
sucesso ou na tragédia o jogador vai chorar. Eu por não ter
conseguido mais jogar por alguns anos, ele por ter conseguido
tudo na vida, mas não poder mais praticar futebol. De uma
forma ou de outra, o futebol fica só na lembrança".
| Raio-X |
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Nome: Benivaldo Silva Feitosa
Nascimento: Saúde (BA), dia 27/09/1951
Posição: Meia-esquerda ou
volante
Clubes: Portuguesa (1970-1973), Sport
Recife (1974), Paysandu (1975) e Remo (1976)
Títulos: Campeonato de Aspirantes
de 1972 e Campeonato Paulista de 1973, ambos pela
Portuguesa
Ídolo: Pelé
Melhor jogador de quem foi companheiro:
Enéas
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