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29/12/2006
Montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Milhares de anônimos amadores emprestam colorido especial à SS

Serviço

Corrida Internacional
de São Silvestre

Data: 31/12/2006
Largada: Na Av. Paulista, em frente ao Masp
Horários:
15 horas – portadores de necessidades especiais
15h15 – elite feminina
17 horas – elite masculina

A lua foi substituída pelo sol, o percurso foi invertido, mas o charme continua o mesmo. A Corrida Internacional de São Silvestre chega à sua 82ª edição mantendo o apelo popular que sempre teve. A prova deste domingo, que fecha o calendário de atletismo nacional, reunirá 15 mil atletas, dos quais apenas 100 estão na elite. Os outros 14.900 fazem parte da legião de semi-profissionais, amadores e festeiros que têm na corrida um desafio pessoal.

Com 15 quilômetros e um percurso reconhecidamente difícil, a São Silvestre pode ser o ápice no teste de resistência de muitos e como a corrida de rua mais tradicional e importante da América Latina abriu as portas para um fenômeno que só fez se popularizar nos últimos tempos. Pelos cálculos da Federação Paulista de Atletismo (FPA), em seis anos, o estado de São Paulo cresceu em 1750% o número de provas de rua.

“Este é um fenômeno que tem ocorrido em todo o Brasil, mas especialmente em São Paulo tem crescido muito”, reconhece o presidente da FPA, José Antônio Martins Fernandes. Segundo ele, até 2000 eram disputadas apenas 20 provas deste tipo por ano. Hoje, este número chega a aproximadamente 350. “Sendo que mais ou menos 250 estão catalogadas”, acrescenta Fernandes.

Para ele, o aumento reflete a evolução do interesse. “Geralmente, começa como uma preocupação de saúde e acaba com um aficionado pela corrida”, indica. A história é exatamente a de Armando Francisco Cunha Ferreira Santos, diretor-executivo da Corpore (Corredores Paulistas Reunidos), que também organiza provas.

Corredor há 28 anos, ele era um sedentário clássico. 1,87m de altura, gerente de banco, chegou a pesar 110kg. “Para minha sorte, um dia tive um piripaque”, recorda. Socorrido por um amigo/cliente médico recebeu o diagnóstico. “Lembro exatamente a frase dele: você vai fazer os exames, mas já te digo quais serão os resultados. Colesterol alto, pressão. Vai pensando em duas alternativas. Você continua do mesmo jeito, vamos te monitorando com remédios e dá para te dar mais um tempinho, ou começa a mudar sua vida, parar o cigarro e ter uma atividade física”. A mudança não foi fácil, mas definitiva. “Fui tentar e deu no que deu. Se não tivesse acontecido isso, não sei se estaria aqui agora. Não dá para comparar o antes e o depois”, confessa.

A paixão pessoal virou profissão e o levou à diretoria de uma das mais importantes entidades de corredores do país. “Somos um clube de corredores para corredores”, explica, concordando com a avaliação de crescimento da modalidade. Situação que se refletiu nos números da própria instituição. Nas três últimas temporadas, seu quadro de associados cresceu em progressão geométrica (35 mil em 2004, 75 mil em 2005 e 150 mil em 2006) e de 1997 para 2006, o número de participantes em suas provas passou de 10 mil para 140 mil.

Como se não bastasse, a presença de ‘estreantes’ é outro fator que denuncia a evolução. A cada prova, os organizadores registram cerca de 10% de pessoas novas. Mesmo que sejam novatos apenas nos eventos da entidade, mas já tenham participado de outra prova antes, o número é expressivo. “O crescimento é um fato”, concorda Santos. E arrisca um motivo para isso: mudança de meta. “O grande foco no esporte sempre foi a performance. Isso não acabou, mas todo mundo sabe que a atividade física traz muitos benefícios. É uma questão de comportamento e tornou-se uma coisa muito forte”, completa.

A ponta do iceberg - As provas de 10km são as mais populares. “Do total (no Estado), cerca de 60% têm percurso de 10km”, diz o presidente da FPA. Das 23 organizadas pela Corpore este ano, três tinham esta distância. “Realmente existe uma concentração nos 10km. Como atleta imagino que seja porque este é o primeiro desafio de um corredor. Quando ele completa sua primeira prova nesta distância é uma marca que não esquece mais”, avalia Santos.

A metragem também serve de parâmetro mesmo para atletas experientes. Na São Silvestre deste ano, por exemplo, os índices estabelecidos para quem buscou uma vaga nos pelotões de elite foram 30min e 36min na distância no masculino e feminino, respectivamente. Mas, em geral, os 10km são apenas o começo da trajetória.

Aldo Luiz Moresi é um dos ‘anônimos’ que vai dar estofo à São Silvestre deste domingo. Funcionário da Carbocloro, que terá um grupo de funcionários e colaboradores na prova, começou a correr há 13 anos para abandonar o vício do cigarro e participa de sua quarta edição da prova. “Quanto mais eu corria, menos fumava”, recorda. Quando chegou a 10km na esteira em 1 hora/1h10 foi treinar no Clube do Hospital das Clínicas junto com um primo, que o incentivou a participar da primeira prova de rua. O desafio inicial foi exatamente nesta distância.

Pé na estrada e olho vivo

Quem pretende se aventurar no universo das corridas de rua deve ficar atento não apenas a sua própria preparação para o desafio, mas também à estrutura oferecida pelas provas. As oficiais podem ser de 10km, 15km, 20km, meia-maratona, 30km, maratona (42.195km), 100km e corrida de revezamento (geralmente na distância da maratona).

Para evitar surpresas desagradáveis, o ideal é optar por corridas reconhecidas pela Federação Paulista de Atletismo (FPA). Estas têm a obrigação de atender às exigências estipuladas pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) na regra 240 de seu regulamento.

Entre os requisitos básicos da prova bem organizada estão:

- distância medida oficialmente pela IAAF
- largada demarcada por faixa branca de, no mínimo 5cm, e iniciada com um tiro ou sinal sonoro audível
- sinalização ao longo do percurso
- nas provas de 10km, a hidratação (oferta de água) deve ser feita em intervalos de 2 a 3km.
- provas mais longas devem incluir também estações jatos de água para refrescar os atletas a cada 5km, aproximadamente
- segurança para atletas e fiscais
- além da básica permissão das autoridades locais para realização da corrida e do respeito aos competidores: do primeiro ao último colocado.

Desde então, participou de várias meias-maratonas e duas maratonas. A evolução foi uma provação extra. “As transições são um grande desafio” admite. “E você só consegue treinando, treinando, treinando”.

A atividade tornou-se fator de dependência. “Se passo uma semana sem correr, fico com peso na consciência”, confessa. “Para mim é como escovar os dentes, comer ou pentear os cabelos. Virou parte da minha vida. Depois de certo tempo correndo, seu corpo libera endorfina e vira um vício positivo”. O diretor-corredor Santos assina embaixo. “Qualquer forma de prazer precisa de mais oxigênio e correndo você oxigena mais”.

A balança também agradece a opção de vida da dupla. “Posso comer sem preocupação porque sei que vou queimar tudo depois”, brinca Moresi. Mas não é apenas o organismo do corredor que pode se beneficiar da atividade. Com certo jeitinho, até o bolso sai lucrando nesta história.

Se no universo das grandes corporações o clássico golfe é tido como esporte que aproxima os homens de poder e favorece a concretização de empreendimentos financeiros, as ruas também têm se tornado um bom balcão de negócios ou, até mesmo, consultório sentimental. “Além de se incluir mais e melhorar a auto-estima, muita gente faz negócio, cria um verdadeiro network nas corridas. Também há casos de gente que se conheceu e até casou assim. O importante é que você começa a criar oportunidades em outro tipo de ambiente”.

Com tantos benefícios aos praticantes, Santos está seguro que a evolução das provas de rua está apenas no começo. “Acho que não chegamos nem à metade do caminho. As pessoas que praticam estimulam outras cada vez mais”. Segundo ele, a demanda por eventos é constante. O que limita acaba sendo o calendário e os requisitos básicos para uma prova de qualidade (ver matéria ao lado).

“Calendário já é um problema pela falta de espaço, principalmente em São Paulo. Também já há problemas para treinar”, diz o dirigente, lembrando do alto fluxo de corredores em locais como a Cidade Universitária e o Parque do Ibirapuera. “Já está na hora de as autoridades públicas criarem espaços para evitar problemas. Vamos ter de nos organizar”.

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