Por
Marta Teixeira
Beber na fonte e aprender os segredos do campeão. O técnico
da seleção brasileira masculina de basquete, Lula Ferreira,
foi um dos que aproveitou a palestra do técnico pentacampeão
mundial de futebol, Luiz Felipe Scolari, em São Paulo, para
descobrir o que diferencia vencedores de simples competidores.
Famoso por seu estilo linha dura, Felipão voltou da Copa do
Mundo do Japão-Coréia com o título e uma imagem diferente, desde
o advento da Família Felipão. Denominação dada ao novo estilo
de comando, que combinava psicologia e talento dentro e fora
de campo.
Atento às últimas novidades esportivas, Lula fez questão
de acompanhar a palestra de Felipão e da psicóloga Regina
Brandão, nesta segunda-feira. "É know-how de vencedor", brinca
Lula, que pretende contar com a experiência do gaúcho na preparação
da seleção para o Pré-olímpico de Porto Rico. O torneio definirá
os três representantes das Américas nos Jogos Olímpicos de
Atenas-2004. "Conversei com o Felipão, que se colocou à disposição
para conversar com o pessoal", diz Lula. Claro que tudo isto
depende da agenda do pentacampeão, hoje treinador da seleção
de Portugal.
Sobre a criação da Família Lula, o técnico de basquete ri,
mas não descarta a possibilidade. "Por que a mãe lida tão
bem com todos os filhos? Porque ela conhece cada um, sabe
como são. O segredo em uma equipe é combinar os defeitos.
Isto sim é duro. Combinar as qualidades é fácil".
Segundo Lula, não importa se as modalidades são diferentes,
o importante é ter a técnica de trabalho adequada por isso,
a experiência do campo é na quadra. "Fui conferir como ele
faz o trabalho de formação do time e o que faz para motivar
os jogadores", explica. O contato com o Felipão não se limitou
à palestra. Antes, Lula foi ao camarim trocar segredos com
o pentacampeão.
"Para mim, Felipão é um ídolo nacional. E é legal ter um
técnico como ídolo. Normalmente, os ídolos são os jogadores",
revela Lula, para quem o gaúcho traz a marca da coragem. "Foi
coragem deixar o Romário de fora (da Copa). Ele deixou de
fora um craque e levou um time", analisa, reconhecendo a importância
do trabalho da psicóloga Regina nas decisões de Felipão.
Regina acompanha Felipão em suas equipes desde o tempo do
Grêmio. A combinação de seu trabalho, com o comando do treinador,
resultou em resultados importantes com o time gaúcho. Felipão
conquistou oito títulos com o Grêmio, incluindo a Copa do
Brasil de 94, a Libertadores de 95 e o Brasileiro de 96, e
quatro com o Palmeiras, entre eles a Libertadores de 99.
Uma das principais atribuições da psicóloga em seu trabalho
com as equipes é elaborar os perfis dos jogadores e das comissões
técnicas das equipes. Com isso, os técnicos descobrem a melhor
forma de lidar com cada um de seus atletas, poupando desgastes
desnecessários. "Não adianta achar que falando igual com todo
mundo, vai dar o mesmo resultado", admite Lula. "O treinador
tem que atingir o coração do jogador".
Antes de chegar aos perfis, a psicóloga faz entrevistas,
aplica testes e tem várias conversas com o grupo. O sistema
de trabalho não é novidade para Lula, que já contou com o
trabalho da própria Regina no COC/Ribeirão, equipe que dirige
nos torneios nacionais, e na seleção juvenil, que dirigiu
no Mundial de 99. O projeto agora é levar este recurso extra
também aos adultos. "Gostaríamos de fazer um trabalho permanente,
começando desde a base. Estamos vendo com o Grego (Gerasime
Bozikis, presidente da Confederação Brasileira de Basquete)
e já conversei com ela sobre isto. Mas tudo depende, porque
ela está trabalhando com o Felipão em Portugal".
Com a difícil tarefa de disputar vagas para Atenas contra
Estados Unidos, Argentina, Canadá, Porto Rico e Venezuela,
Lula reconhece que os resultados de um trabalho de apoio psicológico
podem não surgir nesta temporada, que inclui ainda a disputa
dos Jogos Pan-americanos, Sul-americano e Super Four. "Talvez
não dê para fazer tudo isto agora. Mas para o futuro...",
diz, reafirmando sua confiança na classificação brasileira.
"Temos esperança de nos classificar e acho que vamos conseguir
a vaga", garante.
Se o basquete conseguir repetir a trajetória do futebol,
as chances existem. A seleção de Felipão também embarcou para
o Mundial desacreditada. O time quase não se classificou para
o torneio, garantindo a vaga apenas na última rodada, com
uma vitória sofrida sobre a Venezuela.
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