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24/01/2004

Expansão tenta fugir do balão de ensaio

Por Marta Teixeira

Com um estado a mais na competição, o Campeonato Nacional masculino de basquete começa a ser disputado neste domingo, reunindo 16 equipes. A nova praça na competição é Brasília, representada pelo Universo/DF. O sul também reserva surpresas com o URB/Adeblu, conquistando a vaga por Santa Catarina.

A equipe brasiliense, mais uma ligada à rede de ensino Salgado Filho (Universo, que patrocina diretamente três equipes – Unit, Ajax e Brasília - e é parceiro em outros dois – Minas e Campos), conseguiu sua classificação através da Supercopa Brasil. Os catarinenses desbancaram o Bandeirante, que representou o estado nas duas últimas edições do torneio. As novas caras no Nacional, simbolizam o movimento de expansão das fronteiras da modalidade, que ultrapassaram os limites de São Paulo, Rio de Janeiro e, mais recentemente, Minas Gerais.

Paraná e Goiás firmaram-se como novos centros, enquanto Brasília tenta resgatar uma tradição que andava esquecida, mas rendeu ao país nomes como o Mão Santa Oscar - que tomou gosto pelo esporte jogando no Unidade Vizinhança -, Santa Catarina, terra de uma das sensações da nova geração de talento, o pivô Tiago Splitter, tenta trilhar um novo caminho. "Esta é a primeira temporada da nova estrutura (do clube). Estamos trabalhando com todas as categorias e nosso objetivo é massificar novamente o basquete na cidade", explica o técnico Sérgio Cardoso, que busca em projetos recentes o exemplo de eficiência.

"A gente pega como exemplo cidades fora de São Paulo como Uberlândia, Londrina, Ulbra, Casa Branca. Projetos que se solidificaram", explica.

Programa de longo prazo também é o ideal da Ulbra, como explica o técnico e supervisor da equipe Ricardo Mancuso. Para ele, não adianta a equipe surgir do nada e em um ano fazer um investimento tremendo no time principal e parar o trabalho por aí. A prioridade tem de ser crescer com constância para chegar ao nível que o clube tem hoje em esportes como vôlei e futsal: com tradição na camisa e apelo junto à torcida.

Nacional de longo prazo

A preocupação em fugir dos balões de ensaio – equipes que surgem com força total em um momento e depois desaparecem – faz com que o técnico do Corinthians/Mogi, Carlos Alberto Rodrigues, defende um Nacional de longo prazo. "Sempre defendi que o Nacional poderia começar em setembro e terminar na época que termina hoje (junho). Nas primeiras fases teria um jogo por semana e os estaduais poderiam seguir como são hoje, com jogos em outro dia", explica.

Para Carlão, o modelo, que é utilizado atualmente na Europa – as equipes disputam simultaneamente os campeonatos nacionais e a Euroliga, além de outros torneios mais rápidos, como a Copa do Rei na Espanha -, seria uma maneira de comprometer equipes com um projeto duradouro.

"Garantiria estabilidade de emprego e não teríamos equipes que ficam seis meses sem gastar e depois correm atrás de jogadores que nós formamos. O que acaba prejudicando o trabalho dos outros e São Paulo acaba sendo o grande prejudicado", diz o treinador.

Carlão usa ainda o argumento mercadológico para fundamentar sua idéia. "Um Nacional mais longo também garantiria mais visibilidade aos patrocinadores como acontece no mundo inteiro. (O torneio) seria muito mais disputado e garantiria estabilidade acima de tudo" .

Mas para o presidente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB), Gerasime Grego Bozikis, tal proposta não é viável. "Temos campeonatos estaduais fortes e que merecem continuar assim. Já temos um calendário", diz.

Já a preocupação sobre a constância dos projetos de basquete não é exclusividade paulista. O técnico do Tijuca/Del Valle, Roberto de Almeida, o Betinho, faz questão de ressaltar que a proposta da equipe vai na contramão do que foi feito no Rio temporadas atrás. "Fizeram trabalho em cima de grandes nomes e tiveram a imagem diminuída por não pagar". O preço pela técnica de trabalho foi uma crise profunda, que levou à extinção de algumas equipes tradicionais. Agora, ele garante que a mentalidade é outra com enfoques diferenciados nas equipes que vão representar o estado no Nacional. "A gente precisa massificar o basquete do Rio. Campos é um time de cidade, Flamengo, de massa e o Tijuca é um clube social, que permite uma redução de custo".

Mas a massificação, que também é o foco de Carneiro em Santa Catarina, exige cuidados para resultado. "O basquete precisa de duas coisas: massificar, unindo quantidade com qualidade, e profissionalismo. Temos três pólos bem estruturados, mas profissionalismo tem que envolver mais dinheiro", avisa.

Em contrapartida à entrada de mais uma região no Nacional, São Paulo perdeu uma de suas vagas e terá apenas seis representantes. Isso fez com que a briga por um lugar no Nacional ficasse mais acirrada no mais disputado campeonato estadual do país.

"Com uma vaga a menos as dificuldades aumentaram bastante", diz o técnico do Liberty Seguros/Casa Branca, Marco Antônio Aga. A prova foi que a última vaga paulista no torneio só foi definida na última rodada de classificação do estadual. "Agora vamos para a Liga que é uma competição muito forte. No Paulista tínhamos quatro favoritos e nove times na briga. Agora, serão dez favoritos e seis times na briga".

A dança das cadeiras

A edição 2004 do Campeonato Nacional masculino de basquete não tem como única novidade o surgimento de núcleos do esporte fora do eixo São Paulo-Rio e, mais recentemente, Minas Gerais. Equipes tradicionais do torneio também vão para a disputa com novidades.

Apontado como um dos favoritos, o Universo BH/Minas é um dos que passou pela maior transformação. Dos cinco titulares da temporada passada ficou apenas o pivô Aylton. "A gente sabe que vai ser difícil. O minas de uma profunda reformulação", diz o técnico Flávio Davis Furtado.

Outro quadrifinalista de 2003 também mexeu no grupo. O Uniara/Araraquara perdeu três jogadores, o pivô Adriano, que foi para o Flamengo, o armador Ricardo Giannechini, que deve ir para Franca, e o pivô André Bambu, que fechou com o Universo/Goiás. O único reforço é o armador norte-americano Courtney Eldridge.

A saída mais comprometedora é, sem dúvida, a de Bambu que era titular. Para o seu lugar existe a possibilidade de Araraquara contratar um norte-americano. "Vai depender do resultado da ressonância do Edvaldo", explica o técnico Tom Zé. "Se não precisar fazer artroscopia, o time é esse mesmo".

As mudanças de última hora não preocupam Tom Zé, que pretende usar jogadores das categorias de base para as substituições. "Com certeza vamos começar mais fortes que no ano passado porque os meninos já têm um ano de experiência", diz, referindo-se à formação da temporada passada que também mudou às vésperas da competição.

Fora do grupo principal as mudanças também foram grandes. Retornando ao nacional depois de cinco anos, o Tijuca reforçou seu grupo em relação ao Estadual. A equipe que desbancou o Vasco da Gama na luta pela terceira vaga carioca (as outras ficaram com Campos e Flamengo, respectivamente, campeão e vice) trouxe seis reforços, o principal deles o armador Ricardinho (ex-Vasco). Do alvinegro vieram também Wagner e Maicon. No Flamengo, o técnico Roberto de Almeida, o Betinho, foi buscar Douglas e Marcelão. O último reforço foi Luís Fernando Helminsky (ex-São Caetano).

Quem também vai tentar a volta por cima depois de um desmanche é o Liberty/Casa Branca, que perdeu cinco jogadores do Estadual. "Perdemos cinco por problemas financeiros. Todos ficariam até o final da temporada, mas receberam ótimas propostas e não temos o direito de atrapalhar", diz o técnico Marco Antônio Aga.

Do grupo que conquistou o oitavo lugar no Paulista ficaram apenas Té, Murilo Jordão, Acari, Daniel Amaral e Paulinho Cheidde. Os reforços vieram de fora. "Contratamos dois armadores: Alê (ex-São Caetano), Cauê (ex-Santos), os alas Fischer (ex-Hebraica) e Gustavo (ex-Unit), Atílio e Rapa (ex-Limeira). "O time ainda estuda a contratação de outros dois reforços: um pivô e um ala.

Quem também buscou reforços fora de casa foram os catarinenses do URB/Adeblu. Eles contrataram o veterano ala norte-americano Charles Byrd e o pivô Emeka Okewa, que estréia no Brasil.

Na sexta-feira, a temporada de anúncio de reforços chegou ao fim com a contratação do armador Demétrius e do ala Marquinhos pelo Corinthians/Mogi.

Nacional sem Olimpíada

A temporada do basquete brasileiro não vai ser completa em 2004. Em agosto, quando todas as atenções estiverem voltadas para os Jogos Olímpicos de Atenas, os jogadores nacionais terão de acompanhar o torneio apenas pela televisão.

Mas para os técnicos do Nacional, isso só acrescenta valor à competição.

O técnico Aluísio Ferreira, o Lula, responsável pela seleção brasileira e pelo time do COC/Ribeirão acha que, até por não estar nas Olimpíadas o Nacional tem de ser mais valorizado.

Principal vitrine dos atletas que sonham em chegar à seleção, o torneio também recebe distinção especial do técnico Flávio Davis Furtado, responsável pelo Universo BH/Minas. "São duas coisas separadas. Nosso campeonato tem vida própria, dá ritmo, revela novos jogadores", destaca.

A luta por uma oportunidade no próximo ciclo olímpico acaba sendo o grande motivador para quem está na quadra. "Há muita expectativa, até porque temos o Sul-americano este ano", lembra Flávio Davis. "Iniciamos um novo ciclo. Demos o primeiro passo no ano passado. Fica um gostinho de que podia estar lá (Atenas), mas será que o Nacional perde o interesse por não estar? Não. Se coloca muito o foco em uma única competição. Temos que trabalhar para tudo".

Se não carimbou o passaporte para os Jogos Gregos, a seleção brasileira não ficará totalmente fora do circuito internacional. Em julho, a equipe disputa o Sul-americano no Rio de Janeiro. "Vamos enfrentar a Argentina completa", diz Grego.

Depois, a equipe ainda participa do torneio Super Four e encara Espanha e Grécia no Torneio Acrópoles, na Grécia. Tudo já de olho no próximo Mundial.

Novidades na competição

Ficar restrita às transmissões em canal por assinatura era uma das grandes queixas de quem disputava o Campeonato Nacional masculino de basquete. Em 2004, o problema foi solucionado com o contrato feito com a Rede TV, emissora de sinal aberto que transmite para todo o país. A rede vai transmitir um jogo por semana, sempre nos domingos, às 11 horas. A Sportv mantém a cobertura tradicional do torneio no canal fechado.

O Nacional também apresenta novidades na parte de estatísticas. Nesta edição haverá 65 rankings, incluindo um de eficiência, que classificará o melhor jogador por partida, semana e fase, atendendo a uma solicitação antiga das equipes.

Para o presidente da CBB, Grego, o 15º Nacional vai provar que há razões para crescer o otimismo em relação ao desenvolvimento do basquete. "Vamos ter uma competição com 15 cidades diferentes e 32 patrocinadores – entre eles seis prefeituras, um governo estadual, 14 empresas privadas e seis fornecedores. Temos porque ficar mais otimistas. O produto basquete está crescendo", comemora.

Confira a programação completa da primeira rodada de jogos do Nacional:

11 horas – Universo/Ajax x Tijuca/Del Valle – Ginásio do Rio Vermelho (Rede TV )
COC/Ribeirão Preto x Liberty Seguros/Casa Branca – Ginásio da UNICOC
11h30 – Flamengo/Petrobras x Paulistano/UNIFMU – Ginásio do Tijuca (Sportv)
15h30 – Unit/Uberlândia x ACF Campos/Universo – Ginásio do Uberlândia (Sportv)
17 horas – Universo/DF x Sport Ulbra – Ginásio da ASCEB
18 horas – Franca Basquete x Universo BH/Minas – Ginásio Pedrocão
Londrina/TIM x Uniara/Araraquara – Ginásio Moringão
URB/Adeblu x Corinthians/UMC – Ginásio Galegão

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