| Cidades tradicionais
no basquete tentam recomeçar
Por Marta Teixeira
Foto: Divulgação/CBB

Guerrinha: O objetivo não era resgatar apenas a
equipe, mas principalmente o lugar, que tem o vírus
do basquete no sangue |
Há algum tempo, o basquete nacional vivia mais de notícias
sobre crises em equipes e problemas em projetos. Mas desde
a última temporada esse quadro parece estar tomando um novo
rumo. No masculino e no feminino, nomes tradicionais no cenário
da modalidade têm ensaiado recomeços e alguns já colhem os
primeiros frutos dos novos trabalhos.
Os mais significantes exemplos são Franca/Mariner/Unimed
e Bandeirantes/Rio Claro, que com novos projetos mostraram
que estão de volta ao cenário nacional com times competitivos.
Cidade-sede do hexagonal semifinal do Campeonato
Nacional Masculino de Basquete, o Franca garantiu
vaga na final do torneio contra o COC/Ribeirão Preto. Rio
Claro também esteve muito perto da decisão e caiu apenas na
semi com derrota por três pontos diante do Brasília.
Winner/Limeira, Paulistano/Dix Amico e Conti/AMEA/Assis
igualmente fazem parte deste contingente de times que ensaiam
passos em novos caminhos e que engloba também o feminino.
Desde a temporada passada, equipes como Ponte Preta/Campinas,
Divino Salvador/Jundiaí, Catanduva, Unimep/Amhpla/Selam/Piracicaba
também retomaram seu trabalho, tentando reviver épocas mais
felizes. Entretanto, na quadra, as realidades entre homens
e mulheres seguem bem diferentes como explicam à GE.Net
os responsáveis por alguns destes ressurgimentos.
Em Rio Claro, foram oito anos longe do cenário principal
do basquete nacional até que a cidade saísse do ostracismo.
No ano passado, o time masculino passou por uma completa reestruturação
e deu início a um novo projeto que não procura apenas resgatar
a equipe principal, mas também alimentar a tradição da modalidade
na cidade, que já foi campeã sul-americana (1995), bicampeã
nacional (1992 e 95) e pentacampeã paulista (1987, 91, 93,
94 e 95).
O pontapé na iniciativa foi dado pela Prefeitura e pela
Associação Beneficente Cultural e Desportiva Bandeirantes,
que se uniram para revigorar o basquete local. Com 70 anos
de tradição, o Bandeirantes mudou seu status social tornando-se
uma Organização Social Civil de Interesse Público (OSCIP)
e foi atrás de apoiadores para a iniciativa.
“O mais difícil foi superar as dificuldades financeiras
inerentes, mas, na verdade, Rio Claro estava sedenta pelo
retorno. Esta vontade que tinha de ter o sucesso reconhecido
ajudou muito”, garante o presidente da divisão de basquete,
Rafael D’Urso, explicando a relação da cidade com a modalidade.
“Basquete é um vírus que não sai do sangue”.
Hoje, garante ele, cada jogo realizado no ginásio Felipe
Karam atrai em média duas mil pessoas. Reunindo um pool de
empresas colaboradoras, o time de Rio Claro conta com um orçamento
anual de aproximadamente R$ 1 milhão e a torcida também colabora.
De acordo com o presidente, a bilheteria rende cerca de R$
3 mil por jogo, o que já livra a despesa com arbitragem, por
exemplo.
Os gastos incluem não apenas o time principal, mas também
toda a categoria de base. “Não adianta ser apenas campeão.
A equipe não é só equipe, é estrutura”, explica o técnico
Jorge Guerra, o Guerrinha, adversário clássico da cidade nas
quadras em seu tempo de jogador e convocado para levar avante
a proposta socializante do Rio Claro.
Definindo-se como um ‘social à esquerda’, Guerrinha elogia
as metas traçadas pela nova administração. “Gosto de trabalhar
este lado e a resposta que proporciona”, diz o treinador que
há 27 anos possui uma escolinha de basquete em Franca (SP),
berço de sua própria formação. “Sou da escola francana, meu
perfil é formação”, confessa. “É fantástico ver a penetração
que estamos tendo. O objetivo não era resgatar apenas a equipe,
mas principalmente o lugar”.
Para proporcionar a interação do time com a cidade, nos
dias em que os atletas não têm jogos são envolvidos em atividades
sociais como visitas a escolas e hospitais, em uma filosofia
bem próxima às adotadas pelas franquias da NBA. “É um conceito
de headcoach”, sintetiza Guerrinha para explicar sua participação.
Em quadra, a proposta tem dado resultado. No Campeonato
Paulista, Rio Claro chegou às quartas-de-final, com 14 vitórias
e oito derrotas na fase regular. No Nacional, também teve
com campanha regular. Foi vice-líder do grupo B com 12 vitórias
em 16 jogos e por muito pouco não passou pelo hexagonal semifinal.
“Não esperava um retorno desses em curto prazo”, confessa
Guerrinha, atribuindo à sintonia da equipe com os propósitos
do projeto o sucesso. “Tudo isso que estamos conquistando
é fruto de uma filosofia séria”, concorda D’Urso. “Mas nossa
principal preocupação é montar uma estrutura que permaneça
forte”, completa. Mas além de assegurar a continuidade do
basquete, Rio Claro também quer ampliar a oferta de opções
de ídolos para seus cidadãos e planeja a estruturação de equipes
competitivas de judô e vôlei.
Franca, por sua vez, já começa a colher os frutos de seu
projeto de reestruturação e sob o comando do técnico Hélio
Rubens disputa seu primeiro título nacional depois de cinco
temporadas. Após quase seis anos de crise, uma nova diretoria
resolveu atacar o mal pela raiz e teve, como ponto de partida,
o saneamento das dívidas. Um raciocínio que parece ser lógico,
mas que ainda soa estranho para aqueles que insistem em ver
o assunto apenas como paixão pelo esporte.
“No ano passado fomos terceiro no Paulista e 11º no Brasileiro.
Agora, estamos voltando à final (do Nacional)”, diz o diretor
de esporte, Fernando Minucci, relacionando a evolução da equipe
nas quadras. Formado em administração e cursando um MBA em
gestão empresarial, Minucci defendeu Franca por 18 anos como
jogador. Contudo, acha precipitada qualquer comemoração sobre
o renascimento da modalidade. “Quem estiver falando que o
basquete está revigorado está fantasiando”, sentencia. “Nosso
esquema de cadeia produtiva é pequeno ainda. Falta um investimento
maior na modalidade”, diz, cobrando iniciativa dos próprios
clubes para melhorar o trabalho administrativo e de marketing
da marca.
Foto: Divulgação/CBB

Pedrocão lotou apenas no jogo decisivo da semifinal
entre Franca e Ribeirão. Para Minucci, ainda é
muito pouco. |
A realização do hexagonal em Franca é um exemplo das necessidades
do setor. “Aquela festa bonita só foi possível por causa do
patrocínio do Magazine Luiza. Se não tivesse um apoio forte
por trás não ia dar em nada”. Durante os cinco dias de realização
do evento, o ginásio Pedrocão teve média de 35% de ocupação
em seus 8.000 lugares, chegando a 7530 apenas no jogo decisivo
entre Franca e Ribeirão. Minucci acha a situação natural:
“tudo é resultado”, sentencia. “Este foi um erro que as administrações
anteriores cometeram, querendo salvar o clube pela torcida.
Você precisa da paixão, mas ela não sustenta um projeto sozinha
ou ele vai se perder por si só”. O raciocínio é o mesmo para
o trabalho social. “Você precisa ter o terceiro setor, mas
não pode ficar só nisso”.
Apesar disso, ele reconhece que foi a paixão que fez a Associação
de Pais e Amigos (ASPA) sustentar por si só as categorias
de base nos cinco anos de maior penúria no clube. “Precisaria
uma visão de mercado geral e nós só temos a visão do mercado
local”, explica.
Com um orçamento atual de R$ 2 milhões/ano – na fase mais
difícil, o time da cidade não custava mais de R$ 70 mil/mês
-, ele sente que o bom momento ainda é terreno incerto. “Por
conta da fragilidade do nosso sistema (esportivo), eu digo
que hoje nós temos patrocínio. Mas você pode me ligar daqui
a um mês e não termos mais”. Os contratos do clube são por
uma temporada e Minucci não se ilude quando se trata de manter
os apoiadores. “Basquete é mais um produto e precisa ser encarado
assim. Se não der lucro eles não continuam, mas o lucro não
pode ser o título e sim a exposição da marca”.
Para ele, iniciativas como as do grupo Universo, em Brasília
(DF), Goiás (GO) e Uberlândia (MG), e do COC, em Ribeirão
Preto (SP), mostram o caminho por serem projetos de médio
para longo prazo. “Você tem que pensar como empresa. Agora,
já temos o Guerrinha em Rio Claro, Uberlândia e Ribeirão que
têm uma visão assim, mas ainda precisamos melhorar muito pelo
volume que o basquete movimenta”, avalia.
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