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23/05/2006
Montagem sobre foto de Divulgação/COB
Feminino
A luta para voltar a ser grande

Cidades tradicionais no basquete tentam recomeçar

Por Marta Teixeira

Foto: Divulgação/CBB

Guerrinha: O objetivo não era resgatar apenas a equipe, mas principalmente o lugar, que tem o vírus do basquete no sangue

Há algum tempo, o basquete nacional vivia mais de notícias sobre crises em equipes e problemas em projetos. Mas desde a última temporada esse quadro parece estar tomando um novo rumo. No masculino e no feminino, nomes tradicionais no cenário da modalidade têm ensaiado recomeços e alguns já colhem os primeiros frutos dos novos trabalhos.

Os mais significantes exemplos são Franca/Mariner/Unimed e Bandeirantes/Rio Claro, que com novos projetos mostraram que estão de volta ao cenário nacional com times competitivos. Cidade-sede do hexagonal semifinal do Campeonato Nacional Masculino de Basquete, o Franca garantiu vaga na final do torneio contra o COC/Ribeirão Preto. Rio Claro também esteve muito perto da decisão e caiu apenas na semi com derrota por três pontos diante do Brasília.

Winner/Limeira, Paulistano/Dix Amico e Conti/AMEA/Assis igualmente fazem parte deste contingente de times que ensaiam passos em novos caminhos e que engloba também o feminino. Desde a temporada passada, equipes como Ponte Preta/Campinas, Divino Salvador/Jundiaí, Catanduva, Unimep/Amhpla/Selam/Piracicaba também retomaram seu trabalho, tentando reviver épocas mais felizes. Entretanto, na quadra, as realidades entre homens e mulheres seguem bem diferentes como explicam à GE.Net os responsáveis por alguns destes ressurgimentos.

Em Rio Claro, foram oito anos longe do cenário principal do basquete nacional até que a cidade saísse do ostracismo. No ano passado, o time masculino passou por uma completa reestruturação e deu início a um novo projeto que não procura apenas resgatar a equipe principal, mas também alimentar a tradição da modalidade na cidade, que já foi campeã sul-americana (1995), bicampeã nacional (1992 e 95) e pentacampeã paulista (1987, 91, 93, 94 e 95).

O pontapé na iniciativa foi dado pela Prefeitura e pela Associação Beneficente Cultural e Desportiva Bandeirantes, que se uniram para revigorar o basquete local. Com 70 anos de tradição, o Bandeirantes mudou seu status social tornando-se uma Organização Social Civil de Interesse Público (OSCIP) e foi atrás de apoiadores para a iniciativa.

“O mais difícil foi superar as dificuldades financeiras inerentes, mas, na verdade, Rio Claro estava sedenta pelo retorno. Esta vontade que tinha de ter o sucesso reconhecido ajudou muito”, garante o presidente da divisão de basquete, Rafael D’Urso, explicando a relação da cidade com a modalidade. “Basquete é um vírus que não sai do sangue”.

Hoje, garante ele, cada jogo realizado no ginásio Felipe Karam atrai em média duas mil pessoas. Reunindo um pool de empresas colaboradoras, o time de Rio Claro conta com um orçamento anual de aproximadamente R$ 1 milhão e a torcida também colabora. De acordo com o presidente, a bilheteria rende cerca de R$ 3 mil por jogo, o que já livra a despesa com arbitragem, por exemplo.

Os gastos incluem não apenas o time principal, mas também toda a categoria de base. “Não adianta ser apenas campeão. A equipe não é só equipe, é estrutura”, explica o técnico Jorge Guerra, o Guerrinha, adversário clássico da cidade nas quadras em seu tempo de jogador e convocado para levar avante a proposta socializante do Rio Claro.

Definindo-se como um ‘social à esquerda’, Guerrinha elogia as metas traçadas pela nova administração. “Gosto de trabalhar este lado e a resposta que proporciona”, diz o treinador que há 27 anos possui uma escolinha de basquete em Franca (SP), berço de sua própria formação. “Sou da escola francana, meu perfil é formação”, confessa. “É fantástico ver a penetração que estamos tendo. O objetivo não era resgatar apenas a equipe, mas principalmente o lugar”.

Para proporcionar a interação do time com a cidade, nos dias em que os atletas não têm jogos são envolvidos em atividades sociais como visitas a escolas e hospitais, em uma filosofia bem próxima às adotadas pelas franquias da NBA. “É um conceito de headcoach”, sintetiza Guerrinha para explicar sua participação.

Em quadra, a proposta tem dado resultado. No Campeonato Paulista, Rio Claro chegou às quartas-de-final, com 14 vitórias e oito derrotas na fase regular. No Nacional, também teve com campanha regular. Foi vice-líder do grupo B com 12 vitórias em 16 jogos e por muito pouco não passou pelo hexagonal semifinal.

“Não esperava um retorno desses em curto prazo”, confessa Guerrinha, atribuindo à sintonia da equipe com os propósitos do projeto o sucesso. “Tudo isso que estamos conquistando é fruto de uma filosofia séria”, concorda D’Urso. “Mas nossa principal preocupação é montar uma estrutura que permaneça forte”, completa. Mas além de assegurar a continuidade do basquete, Rio Claro também quer ampliar a oferta de opções de ídolos para seus cidadãos e planeja a estruturação de equipes competitivas de judô e vôlei.

Franca, por sua vez, já começa a colher os frutos de seu projeto de reestruturação e sob o comando do técnico Hélio Rubens disputa seu primeiro título nacional depois de cinco temporadas. Após quase seis anos de crise, uma nova diretoria resolveu atacar o mal pela raiz e teve, como ponto de partida, o saneamento das dívidas. Um raciocínio que parece ser lógico, mas que ainda soa estranho para aqueles que insistem em ver o assunto apenas como paixão pelo esporte.

“No ano passado fomos terceiro no Paulista e 11º no Brasileiro. Agora, estamos voltando à final (do Nacional)”, diz o diretor de esporte, Fernando Minucci, relacionando a evolução da equipe nas quadras. Formado em administração e cursando um MBA em gestão empresarial, Minucci defendeu Franca por 18 anos como jogador. Contudo, acha precipitada qualquer comemoração sobre o renascimento da modalidade. “Quem estiver falando que o basquete está revigorado está fantasiando”, sentencia. “Nosso esquema de cadeia produtiva é pequeno ainda. Falta um investimento maior na modalidade”, diz, cobrando iniciativa dos próprios clubes para melhorar o trabalho administrativo e de marketing da marca.

 
Foto: Divulgação/CBB

Pedrocão lotou apenas no jogo decisivo da semifinal entre Franca e Ribeirão. Para Minucci, ainda é muito pouco.

A realização do hexagonal em Franca é um exemplo das necessidades do setor. “Aquela festa bonita só foi possível por causa do patrocínio do Magazine Luiza. Se não tivesse um apoio forte por trás não ia dar em nada”. Durante os cinco dias de realização do evento, o ginásio Pedrocão teve média de 35% de ocupação em seus 8.000 lugares, chegando a 7530 apenas no jogo decisivo entre Franca e Ribeirão. Minucci acha a situação natural: “tudo é resultado”, sentencia. “Este foi um erro que as administrações anteriores cometeram, querendo salvar o clube pela torcida. Você precisa da paixão, mas ela não sustenta um projeto sozinha ou ele vai se perder por si só”. O raciocínio é o mesmo para o trabalho social. “Você precisa ter o terceiro setor, mas não pode ficar só nisso”.

Apesar disso, ele reconhece que foi a paixão que fez a Associação de Pais e Amigos (ASPA) sustentar por si só as categorias de base nos cinco anos de maior penúria no clube. “Precisaria uma visão de mercado geral e nós só temos a visão do mercado local”, explica.

Com um orçamento atual de R$ 2 milhões/ano – na fase mais difícil, o time da cidade não custava mais de R$ 70 mil/mês -, ele sente que o bom momento ainda é terreno incerto. “Por conta da fragilidade do nosso sistema (esportivo), eu digo que hoje nós temos patrocínio. Mas você pode me ligar daqui a um mês e não termos mais”. Os contratos do clube são por uma temporada e Minucci não se ilude quando se trata de manter os apoiadores. “Basquete é mais um produto e precisa ser encarado assim. Se não der lucro eles não continuam, mas o lucro não pode ser o título e sim a exposição da marca”.

Para ele, iniciativas como as do grupo Universo, em Brasília (DF), Goiás (GO) e Uberlândia (MG), e do COC, em Ribeirão Preto (SP), mostram o caminho por serem projetos de médio para longo prazo. “Você tem que pensar como empresa. Agora, já temos o Guerrinha em Rio Claro, Uberlândia e Ribeirão que têm uma visão assim, mas ainda precisamos melhorar muito pelo volume que o basquete movimenta”, avalia.

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