| Em casa, brasileiras
tentam reviver glória de 94
| Foto: Wander Roberto/Divulgação
CBB |
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| Remanescente da equipe campeã
mundial, Helen forma quarteto mais experiente da seleção |
Por Marta Teixeira
Em junho de 1994, a seleção brasileira feminina
de basquete se colocou definitivamente na história
da modalidade mundial. Contando com duas jogadoras que mantêm
seus nomes entre as melhores do mundo: Paula e Hortência,
o Brasil surpreendeu a todos conquistando o título
mundial em Adelaide, Austrália. Foi a primeira vez
que um país fora Estados Unidos e União Soviética
ficava com o ouro desde que a competição fora
criada, em 1953.
Desde então, muita coisa aconteceu. Paula e Hortência
se aposentaram e daquele grupo campeão restam apenas
quatro remanescentes: as então reservas Alessandra,
Cíntia Tuiú, Helen e a já titular Janeth.
Ao lado de outras companheiras, o quarteto tenta, a partir
desta terça-feira reviver o sucesso daquela campanha.
Mas desta vez, com um ingrediente a mais já que o Mundial
será disputado no Brasil com jogos na capital paulista
e Barueri, na Grande São Paulo. O primeiro jogo é
contra a Argentina, às 15h15, no ginásio do
Ibirapuera, com transmissão pela Globo.
O desafio de lutar pelo ouro é encarado como responsabilidade
natural pelo grupo. “Temos que disputar medalha”,
reconhece a capitã Janeth símbolo da transição
entre as duas gerações do basquete. Do Mundial
de 94, ela traz a experiência de saber que não
é apenas a qualidade técnica que garante a conquista.
“Depende de a seleção estar lapidada para
jogar bem. Quando as equipes são muito iguais é
o detalhe que faz a diferença”, diz, repetindo
o velho chavão.
Mas na prática, a lógica é exatamente
esta. Fora os Estados Unidos, que apesar de alguns problemas
de última hora mantêm-se um degrau acima dos
demais participantes, a lista de iguais em relação
ao Brasil é considerável. A vice-campeã
olímpica Austrália aparece ao lado da terceira
colocada em Atenas: Rússia, que venceu o Brasil na
disputa por medalha na Grécia.
A lista de candidatas a um lugar no pódio não
pára aí. A Espanha, mesmo com Amaya Valdemoro,
sua principal jogadora, voltando de lesão, merece atenção.
O mesmo acontece com a República Tcheca, que tem apresentado
evolução nas últimas temporadas.
“O resultado tem que ser buscado jogo a jogo”,
alerta o técnico Antonio Carlos Barbosa, para quem
a equipe está pronta na parte de treinamento. “Mas
tudo se decide mesmo no mata-mata. Temos que estar com a equipe
bem física e tecnicamente”.
Em uma análise rápida da preparação,
Barbosa destaca que a seleção conseguiu uma
boa composição de ataque e “variação
boa de jogo” graças à entrada de novos
elementos que puderam ter “um bom espaço nos
treinos desta temporada”.
Representante da nova geração, a pivô
Érika é uma das apostas de destaque na competição,
embora uma contusão ameace sua participação
no Mundial. Eleita dois anos consecutivos a melhor estrangeira
do Campeonato Espanhol ela está acostumada ao nível
dos torneios internacionais e concorda que a expectativa deve
ser controlada. “Não há mais adversário
fácil. Do mesmo jeito que nós evoluímos
o resto do mundo também evoluiu”, avalia, mantendo
o otimismo. “O time está bem entrosado e bastante
determinado. Estamos chegando para dar 110% porque apenas
100% não é suficiente. Treinamos duro e agora
só depende de nós mesmas”.
Além do trabalho em quadra, a equipe ainda espera
contar com a ajuda de pelo menos um fator externo: o apoio
da torcida. Antes de temer a responsabilidade de agradar quem
for acompanhar os jogos no ginásio, a ala Iziane assume
esta presença como um fator positivo. “Jogar
em casa vai ser uma vantagem porque as estrangeiras não
estão acostumadas a agitação da torcida
brasileira”. Com exceção das norte-americanas
talvez a frase seja correta.
A veterana Alessandra não vê a hora de reencontrar
a torcida verde-amarela. Jogando na Europa desde 1997, ela
garante que a reestréia em território nacional
será muito especial. “Vai ser uma grande emoção,
principalmente porque fui lançada na seleção
aqui, no Brasil, em 1993 (Copa América) jogando com
Paula e Hortência. Não tem nem como expressar
o que eu sinto”.
Além da ambição pelo bicampeonato e
o desejo de fazer bonito frente a sua própria torcida,
a seleção também tem outro estímulo
para o Mundial de 2006. Sepultar de uma vez por todas o tropeço
da edição da China em 2002, quando terminou
em sétimo na classificação. “Nem
me fale daquilo”, pede Alessandra quando o assunto é
levantado. “Perder dois jogos seguidos por um ponto
ainda dói”, confessa. “Chorei muito naquele
dia (da derrota por 71 a 70 para a Coréia do Sul, que
tirou o Brasil das semifinais)”.
A ala Micaela acompanhou a ‘tragédia’
do banco porque vivia um drama pessoal ao mesmo tempo. Na
véspera da estréia brasileira, treinando já
na Ásia, ela se contundiu e não pôde participar
da competição. Agora é a hora da vingança.
“A gente tem que tirar aquela imagem vergonhosa. Mas
está todo mundo focado e tem ser positivo. A meta é
ser campeão, mas não podemos esquecer que outros
também querem chegar lá”.
A única coisa que não é aceita pelas
meninas como ingrediente extra para buscar melhores resultados
é o tropeço da seleção masculina
no Mundial do Japão, mês passado. “Uma
coisa não tem nada a ver com a outra”, rebate
a ala/armadora Helen. “A responsabilidade ia ser igual
porque a gente nunca se preocupou com isso. Gostaríamos
muito que tivessem conseguido ir bem, mas a seleção
feminina é outra história”.
O técnico Barbosa concorda. “É uma imbecilidade
aumentar a cobrança por causa disso. Não tem
nada a ver, principalmente porque ao longo dos anos a seleção
feminina sempre se manteve entre as quatro melhores do mundo.
É lamentável, é triste, é frustrante
o que aconteceu com eles, mas não interfere”.
A seleção brasileira disputa o Mundial no grupo
A, enfrentando Argentina, Coréia do Sul e Espanha na
primeira fase. Se passar para as oitavas-de-final, a equipe
terá pela frente as três primeiras colocadas
do grupo B, composto por Austrália, Canadá,
Lituânia e Senegal. |