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15/08/2007
Arte com foto Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Por Marta Teixeira

Inspiração australiana

A meta de tornar o Brasil número 1 do mundo no basquete feminino pode soar ousada em um país onde se ouve falar mais em equipes que fecham que em novas oportunidades de trabalho. Mas para o técnico Paulo Bassul, outros países já provaram que mesmo com um mercado interno restrito pode-se desenvolver um projeto eficiente e de verdadeiros resultados internacionais.

A campeã mundial Austrália é fonte de inspiração para o treinador neste desafio. “Eles têm a mesma dificuldade que nós: uma liga pequena e com poucas jogadoras. A solução que encontraram foi pegar aquelas jogadoras com 15, 16 anos que têm potencial e desenvolver um trabalho específico em um instituto, rodando o mundo em jogos internacionais”.

Esta experiência é o ponto de partida para implantar a Seleção Permanente de Novas na Confederação Brasileira de Basquete. A proposta foi apresentada à entidade como um dos requisitos imprescindíveis para seu retorno à seleção e encontrou muita receptividade dos dirigentes, afirma.

O projeto ainda está em fase de elaboração, mas as linhas básicas estão traçadas. A prioridade da seleção de novas será propiciar experiência internacional a jogadoras de talento. Se para a equipe principal, Bassul reivindica amistosos contra as oito melhores seleções do mundo, as novas deverão restringir seu universo às top 15 do ranking da Fiba.

“Ainda vamos nos reunir para discutir melhor este assunto. Mas este é um trabalho que devemos começar já no próximo ano”.

O técnico Paulo Bassul nem bem assumiu a seleção brasileira feminina de basquete e já admite ter uma obsessão para a equipe. “Quero chegar ao topo. Esta é a nossa meta”, avisa, assumindo a responsabilidade de tornar o Brasil líder do ranking da Federação Internacional de Basquete (Fiba). Substituto de Antonio Carlos Barbosa na posição, ele enfrenta o primeiro teste na disputa do Pré-olímpico, de 26 a 30 de setembro, em Valdívia, no Chile.

A equipe brasileira abriu seu treinamento na terça-feira, em São Paulo, com um grupo remodelado e sem alguns dos nomes que ajudaram a manter o país entre os melhores do mundo na última década. Sem Janeth, Helen, Alessandra e Cíntia Tuiú, Bassul almeja não permanecer na quarta posição do ranking, mas sim desbancar o líder Estados Unidos, ultrapassando também Austrália e Rússia, respectivamente, os três primeiros colocados da listagem.

“Isto é uma verdadeira obsessão para mim”, diz determinado. Apesar de saber que no Chile, o Brasil ainda pode se ressentir das alterações recentes na composição do grupo, ele não tem dúvidas que as atletas brasileiras podem ser número 1, ainda que isso demore algum tempo.

“Falar quando, é complicado, mas a possibilidade é uma certeza. O quando é uma dúvida, mas o ‘se’ não existe para mim”, afirma categórico. “É um caminho longo e temos várias metas intermediárias, entre elas a classificação olímpica, mas temos toda possibilidade de chegar lá”.

Em busca da liderança do ranking, Bassul considera fundamental contar com o trabalho integrado da comissão técnica, com o envolvimento total das jogadoras e com o oferecimento das condições necessárias pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB). Ex-assistente técnico de Barbosa na equipe, Bassul estava longe da equipe desde 2004 e confessa ter acertado o retorno após algumas de suas exigências serem atendidas pela Confederação.

Uma delas foi a garantia de que a partir de agora a seleção só fará amistosos contra verdadeiras potências internacionais. “Eticamente é complicado falar do passado, mas posso falar do futuro e o que nós vamos fazer são amistosos verdadeiramente úteis, enfrentando seleções entre as oito melhores do mundo”, assegura. Um deles já está programado como preparação para o Pré-olímpico. Dois dias antes do início da competição, o Brasil enfrenta os Estados Unidos.

No Pré-olímpico, Bassul admite que sua equipe pode enfrentar obstáculos extras pelo pouco tempo de adaptação à nova situação. “A seleção atravessa um momento de renovação natural com algumas atletas terminando a carreira, mas este é um processo complicado. Vamos sentir um pouco no primeiro momento, mas com curto espaço de tempo vamos ter o conjunto necessário”.

Apesar disso, ele não perde a esperança de confirmar já este ano a vaga para Pequim. Seu raciocínio segue a lógica do ranqueamento. “O ranking da Fiba é claro e justo, somos a segunda força das Américas e estamos em posição de brigar pela vaga. Temos de trabalhar muito forte e pensar em cada jogo para não sermos surpreendidos. E chegando à final, tentar vencer os Estados Unidos. Caso não seja possível, pensamos mais na frente”.

Foto: Divulgação

Para seu projeto ambicioso, Bassul resolveu formar uma seleção mesclada com novatas e experientes. Nesse pacote, Claudinha retornou à equipe.
Apenas o campeão do torneio no Chile tem presença assegurada nos Jogos Olímpicos de Pequim. Os outros três semifinalistas terão uma nova chance noPré-olímpico Mundial. A competição, de 9 a 15 de junho de 2008, reunirá seleções de todo o mundo atrás de uma das cinco vagas restantes para Pequim.

Para o torneio em Valdívia, Bassul enfrentará dois problemas específicos, além da renovação em si. O primeiro é a ausência da pivô Érika e da ala Iziane nas fases iniciais de treinamento por causa de suas participações na WNBA. Érika defende o Connecticut Sun e Iziane, o Seattle Storm.

Bassul já mandou seu recado às atletas. “Estou torcendo por elas. Espero que se saiam muito bem individualmente e que façam boa campanha, mas torço contra suas equipes”, diz rindo. O contratempo, porém, não o desanima. “Ainda bem que serão apenas duas para inserir e, enquanto estiverem fora, posso formar um conjunto melhor. Conversamos direto, e elas estão supermotivadas para vir, enquanto eu estou secando fervorosamente as equipes delas”.

A outra dor-de-cabeça de Bassul é a ausência da armadora Adrianinha. A jogadora pediu dispensa para resolver problemas pessoais mas, segundo o treinador, estará de volta na próxima temporada. “A Adrianinha fará uma falta enorme, mas no ano que vem é nome certo. Conversamos e sei que o problema dela é estritamente pessoal. Não sou de ficar lamentando e pensando nisso. Já convoquei três jogadoras que não estavam trabalhando com a seleção”.

Bassul resgatou a veterana Claudinha, que estava longe da equipe desde 2002, e ainda incluiu Fabi (vice-campeã mundial sub-21 sob seu comando em 2003) e Karla para emplacar um espaço no grupo. “Quando ela voltar, terei pelo menos outras duas preparadas”.

A preocupação em ter sempre mais de uma opção nas posições em quadra é outro aspecto fundamental no projeto para ser número 1 do mundo do treinador. “Gosto de marcação agressiva e não há como ter isso sem treinamento e muita rotatividade. Preciso contar com, pelo menos, duas atletas de bom nível para cada posição. Ou seja, o banco do Brasil precisa estar no mesmo ritmo e nível das que estão em quadra”.

Bassul lembra que foi desta maneira que trabalhou com a seleção sub-21 no Mundial da Croácia de 2003. Quem jogou mais tempo ficou 23min30 em quadra. Outras dez tiveram mais de 15 minutos de jogo. “E ganhamos dos Estados Unidos, que foram campeões, na fase de classificação”.

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