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24/12/2007
Montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Por Paulo Amaral

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Fotos AFP
Ademir da Guia, ídolo do Palmeiras fala sobre as semelhanças e diferenças entre ele e o atual ídolo do Palmeiras Valdivia. Na foto, os dois craques se encontram no busto em homenagem ao Divino

Difícil começo: Antes de serem considerados unanimidades no Palestra, tanto Ademir da Guia quanto Valdívia enfrentaram a desconfiança. Contratado ao Bangu em 1961, o “Divino” demorou para mostrar seu talento com a camisa verde. “A sorte que eu tive foi a de não chegar como titular, pois tive tempo para observar as grandes diferenças entre o futebol carioca e o paulista antes de entrar na equipe. Fiquei no banco, observei e me adaptei”, comentou.

O jogador também teve que deixar para trás a fama de “lento” que carregou no início de seu ciclo no Palestra. “Eu não era lento: quando corria 100m contra o Edu Bala (antigo ponta-direita do Palmeiras), perdia, mas, quando eram 800 metros em disputa, eu chegava na frente, inteiro, enquanto ele ficava pelo caminho”, lembrou.

Valdívia também demorou a engrenar, mas por um motivo bem distinto: “A principal dificuldade foi a língua, pois vim de um outro país. Quando comecei a jogar, entrava aos poucos. Depois que chegou o Caio Júnior (ex-técnico palmeirense), mudou: ele me deu confiança e, no primeiro dia, falou que eu era o cara que tinha que representar o Palmeiras. Quando alguém passa confiança, você tem que responder dentro do campo. Foi isso que procurei fazer. Se tenho alguém a agradecer é ao Caio”, discursou o chileno.

O fato de ter de atuar em uma posição de fundamental importância para o êxito ofensivo do time também atrapalhou a caminhada do “Mago” no Palmeiras. “Vir do Chile para atuar na posição que jogo é ainda mais difícil, pois os melhores jogadores do Brasil atuam ali. Sabia que podia conquistar o coração do torcedor palmeirense, pois me conheço, mas isso só foi possível porque confiaram em mim.”

No mundo do futebol, vestir a camisa dez é sinônimo de talento. Na pelada de rua, na várzea, nas escolinhas, nos campos ao redor do globo, a verdade é uma só até aos olhos dos mais leigos sobre o assunto: o dono da camisa dez, salvo raras exceções, é o melhor jogador da equipe. Foi com ela às costas que Pelé, Platini, Maradona , Zico, Dirceu Lopes, Pedro Rocha e, mais recentemente, Riquelme, Zidane, Ronaldinho Gaúcho e outros tantos fizeram jus à fama que imortalizou o número dez e o tornou o mais cobiçado do Planeta Bola.

Eleito o melhor meia-esquerda do Campeonato Brasileiro e um dos três destaques do futebol nacional em 2007, o chileno Jorge Valdívia trouxe de volta ao Palestra Itália a “magia” antes incorporada por outro inesquecível dono da número dez alviverde: Ademir da Guia, o “Divino”, comandante da Academia de Futebol do Palmeiras, esquadrão que fez frente ao Santos de Pelé nas décadas de 60 e 70.

Adorado pela torcida e querido pelos companheiros, o “Mago” Valdívia, que completou um ano e meio de Palmeiras em dezembro, pecou apenas no aspecto disciplinar. Punido pelo STJD por uma expulsão infantil contra o Vasco da Gama, dia 28 de outubro, acabou prejudicando o Verdão na luta por uma vaga à Libertadores da América 2008 ao desfalcar a equipe em cinco das últimas seis partidas do Brasileirão.

Indisciplina à parte, o talento de Valdívia cativou os palmeirenses e o próprio Ademir da Guia. A Gazeta Esportiva.Net conseguiu realizar o sonho de muitos torcedores e colocou lado a lado dois ícones do número dez alviverde. Perto do busto que imortalizou o “Divino” nas alamedas do Palestra Itália, o “Mago” e o “Divino” puderam se conhecer pessoalmente e trocaram experiências de como é ser ídolo de um grande clube no Brasil.

O carinho dos fãs pela dupla ficou evidente já no início da reportagem. Enquanto caminhava em direção ao busto, Ademir da Guia parou para dar autógrafos a sócios e conselheiros, das mais variadas idades, e até foi reverenciado por Diego Cavalieri, titular da meta palmeirense. Valdívia também posou para fotos e distribuiu assinaturas antes de sentar à mesa para um descontraído bate-papo e posar para fotos históricas.

“Ser ídolo do Palmeiras é um orgulho. Tive a oportunidade de jogar aqui durante 16 anos, conquistar inúmeros títulos e conhecer o mundo. Até hoje sinto esse carinho e isso é importante”, comentou Ademir, enquanto autografava a camiseta de um torcedor-mirim. “Hoje eu sou palmeirense. Adoro todo mundo aqui e sei o quanto é importante ser ídolo do clube. Sei que é difícil, mas, se pudesse, ficaria a vida inteira aqui”, completou Valdívia.

A longa permanência no Palestra Itália, inclusive, ajudou Ademir da Guia a merecer o busto de bronze em sua homenagem. Foram 16 anos de serviços prestados e muitas conquistas com a camisa verde. No futebol atual, no entanto, é quase impossível um atleta cobiçado pela Europa permanecer tanto tempo no Brasil. Valdívia, na mira de clubes da Espanha, tem ciência disso e sabe que dificilmente “fará companhia” a Ademir nas alamedas do Palestra.

“Na época do Ademir, o jogador ficava mais tempo no time. Hoje é mais difícil, pois os clubes da Europa chegam e pagam. Quando vêem jogadores bons, levam. Ele ficou 16 anos aqui, eu estou há um ano e meio. Precisaria ficar muito tempo aqui. Tomara que possa ter um (busto), mas é difícil, pois a Europa é um sonho presente na minha cabeça. Espero poder conquistar um título em 2008 e aí sim poder ir embora”, discursou Valdívia, praticamente estipulando um prazo para sua saída do Verdão.

Os dois ídolos mostraram sintonia quando questionados sobre a mística do número da camisa que dividem no coração da torcida alviverde e admitiram que a dez palmeirense tem um significado especial: “Na época do futebol mais romântico, o jogador que vestia a camisa dez era o craque do time, como o Dirceu Lopes no Cruzeiro, o Zico, no Flamengo, o Pelé, no Santos. Eu fiquei muito tempo com a camisa dez e, realmente, ela era significativa para os clubes”, opinou Ademir.

“A camisa dez representa muito, seja no Brasil, na Argentina, no Chile ou em qualquer parte do mundo. O numero dez é, entre aspas, o melhor do time, o que tem mais responsabilidade e que precisa levar a equipe nas costas. Aqui já passaram nomes como Ademir da Guia, Alex. A camisa dez não tem que morrer nunca”, endossou Valdívia, para, na seqüência, admitir seu orgulho em herdar a posição do Divino.

“Se a camisa dez do Palmeiras tem essa magia, eu gostaria de ficar aqui a vida toda para que a magia não acabe. Jogar na posição que o Ademir jogou e ocupar a camisa que ele vestiu representa muito. Quando cheguei aqui, me falaram que era o maior do Palmeiras e já me deram o DVD de presente. Ele era clássico, fora de série. Quando pegava a bola, o time descansava. A Academia dependia dele e é isso que eu quero: que o Palmeiras dependa de mim e, quando o time precisar, eu resolva o jogo como ele resolvia”.

Se depender da opinião de Caio Júnior, ex-comandante do Palmeiras e hoje no Goiás, a “magia” no Palestra está garantida. “A camisa dez do Palmeiras tem a magia do Valdívia e também a divindade do Ademir. Na verdade, os dois são diferenciados, jogadores que levam o torcedor ao estádio, coisa que, infelizmente, está acabando no futebol. Não é fácil ser ídolo. Ídolo é para o resto da vida, e não algo momentâneo. O Ademir conseguiu isso e espero que o Valdívia consiga também”.


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