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15/03/2008
 
Montagem sobre fotos Gazeta Press

Por Julio Simões e William Correia

CURIOSIDADES
Resumo
Total
Jogos
181
Vitórias da Ponte Preta
57
Vitórias do Guarani
64
Empates
60
Gols marcados pela Ponte Preta
235
Gols marcados pelo Guarani
247

- Em toda a história dos dérbis, a Ponte Preta reclama três jogos que não foram registrados, todos com vitórias suas. O Guarani, no entanto, não se pronuncia sobre o caso.

- Embora o equilíbrio prevaleça nos dérbis, algumas goleadas já foram registradas. Pelo lado da Ponte, a maior foi por 5 a 2, em 22 de novembro de 1936. Já no Guarani, a maior foi 6 a 0, em 5 de junho de 1960.

- Muitas vezes apontado como um clássico em que a raça prevalece, o dérbi foi realmente violento ao menos uma vez, em 18 de agosto de 1999. Naquela ocasião, o árbitro registrou 101 faltas, pouco mais de uma por minuto. Um recorde.

- Antigamente, Ponte e Guarani costumavam se enfrentar muitas vezes ao ano, ao contrário de agora, que os times estão há dois anos sem jogar. Assim, o ano de 1943 foi o de maior número de dérbis realizados: sete.

- O maior tabu dos dérbis pertence ao Guarani, que durante quase 16 anos (de 1987 a 2002) ficou sem perder para a Ponte. Tal qual em aniversário de debutantes, a torcida bugrina dançou valsa em algumas partidas, em “comemoração” dos 15 anos da marca.

- O maior período de invencibilidade da Ponte, por outro lado, foi de pouco mais de cinco anos (ou 16 jogos), entre 1979 e 1984. Atualmente, a Ponte está invicta em dérbis praticamente pelo mesmo período e não perde no Moisés Lucarelli desde 2003.

- Os últimos três dérbis terminaram empatados: em 2006 e 2005 (no Paulistão) e em 2004 (no Brasileiro). Antes disso, os dois últimos haviam sido vencidos pela Ponte, por 3 a 1, nos anos de 2004 e 2003, ambos pela Série B do Campeonato Brasileiro.

Fonte: Assessorias de imprensa da Ponte Preta e do Guarani

Há 770 dias Campinas não vivia um domingo como o que viverá neste 16 de março. A partir das 18h10, no Estádio Moisés Lucarelli, uma das mais tradicionais partidas do futebol brasileiro terá seu 182º capítulo com o duelo entre Ponte Preta e Guarani – o famoso dérbi campineiro. O jogo é válido pela 15ª rodada do Campeonato Paulista, mas para a população local o embate direto das duas paixões do município teria o mesmo valor se fosse um mero amistoso.

A força da rivalidade tomou as ruas muito tempo antes do compromisso. Os jogadores, protagonistas do espetáculo, percebem isso de todas as formas, seja veterano ou jovem, recém-chegado à equipe. César, capitão pontepretano, sentiu a pressão na pele a três dias do enfrentamento. Na saída do treino de quinta-feira no estádio alvinegro, o jogador, de 32 anos e com passagens por agremiações como Palmeiras e Corinthians, foi abordado por um torcedor que utilizava a camisa e o gorro da Macaca. O zagueiro parou o trajeto para seu carro e ouviu a síntese do que significa o clássico para a cidade.

“César, domingo é dérbi. Tem que ganhar, não tem outra coisa. Tem que ganhar. Classificação vem depois. Você vai ver, vamos ganhar e vão sair três ônibus daqui com fogos, fazendo festa por três dias. Tem que ganhar. Vai ser o último dérbi da história, porque as ‘galinhas’ (gozação pejorativa usada contra o Guarani, atualmente na zona de rebaixamento do Paulistão) estão ficando extintas. Vou trazer meu filho aqui para ver a última vitória sobre eles”, esbravejou o torcedor, que teve seu “discurso” aplaudido por cerca de seis torcedores que passaram o dia em frente ao Moisés Lucarelli comentando o clássico. “Vamos vencer”, repetiam todos.

Apesar de limitar-se a prometer a vitória ao exaltado apaixonado pela Ponte, César não se surpreendeu com o episódio. Minutos antes da abordagem, o zagueiro, com passagem pelas categorias de base da Macaca, já falava sobre a importância do clássico para a população campineira. “Desde quando eu me apresentei na Ponte, torcedores me encontram na rua e falam: ‘é 16 de março, hein’. Não tem como esquecer a data. Com toda certeza, é o clássico de maior rivalidade do futebol brasileiro. E já falei para os jogadores: vencer é o paraíso, não queiram conhecer o inferno; se quiserem saber, é só perder o dérbi. Ainda mais esse, que vai ser o único do ano”.

A pressão decantada pelo capitão alvinegro já é sentida pelos mais novos no grupo. Aos 24 anos, o atacante Luis Ricardo está na Ponte há pouco mais de um mês. O suficiente para sentir a diferença dos dias que antecedem o dérbi. “Essa semana tem sido diferente, as pessoas têm cobrado muito mais da gente. Já joguei no Vila Nova, senti o clássico contra o Goiás, mas aqui a gente sente que a rivalidade é muito maior”, admitiu.

O volante Ricardo Conceição, que já atuou em outros clássicos campineiros, vê fatores positivos no histórico embate. “É muito bom disputar um jogo como esse. É bom para os jogadores, as torcidas, a cidade. Todos os olhos ficam voltados para Campinas, a cidade se prepara para o jogo”, animou-se o volante.

E quem passou pela cidade na semana que antecedeu a partida percebeu o clima do dérbi. A classificação e o desempenho dos times nas rodadas que antecederam o esperado confronto nem eram colocados em discussão pela população. Só havia expectativa para o embate que não acontece desde o Paulistão de 2006 e não ocorrerá mais neste ano porque a Macaca está na Série B do Brasileiro, enquanto o Bugre precisa se classificar para a Série C.

Diante dessa situação, os pontepretanos aguardam uma vitória antológica. A voz de ordem para os aficionados pela Macaca é de aproveitar o mau momento do rival. A frase que mais se ouve nas redondezas do Moisés Lucarelli é “se não ganhar do Guarani, vai ganhar de quem?!”. “O Guarani está em uma condição totalmente adversa, na zona de rebaixamento, já era. A Ponte tem tudo para fazer um jogo histórico, tem muito mais chance de aplicar um massacre”, disse Marcilio, vendedor da loja de artigos pontepretanos no estádio.

O grande fator de confiança para os alvinegros é que a Ponte briga para jogar as semifinais, muito diferente dos bugrinos, que anseiam ao menos a permanência na Série A-1. “E não vai vale ficar relembrando muito que a Ponte não ganha há cinco jogos. Adoram falar disso, mas o melhor é a Ponte chegar na final e ser campeã. Vai ser a chance de o futebol brasileiro pedir desculpa pelas vezes em que fomos ‘garfados’”, frisou Marcilio.

A esperança pontepretana por um massacre neste domingo, contudo, é totalmente desdenhada pelos bugrinos. “Esse negócio de goleada, massacre, é ilusão deles. Todo mundo sabe que clássico é difícil. No dérbi, a camisa pesa. Se você perguntar para 100 bugrinos o resultado do jogo, 99 vão dizer que vai dar Guarani e no máximo um vai falar que dá empate. E eu acho que vamos vencer”, aposta Marcelo Dias, figura conhecida no Brinco de Ouro da Princesa. “Mas é até bom que eles pensem isso, porque chega nos nossos jogadores e eles vão entrar com tudo para ganhar o dérbi”.

A previsão alvinegra de “extinção” do Guarani também é prontamente descartada por Marcelo. Advogado voluntário do clube alviverde, assim como o amigo Tiago, que atua na área de informática do Bugre também sem cobrar salário, Marcelo acredita que seu exemplo é uma mostra de que a torcida é grande e forte o suficiente para levantar o time.

“O Guarani tem torcida para levar o clube no colo. Eles falam disso, mas qual é o único time de Campinas que é campeão brasileiro? (O Guarani foi campeão nacional em 1978) A Ponte Preta só tem simpatizante. É são-paulino, corintiano que tem a Ponte como segundo time”, provoca o advogado, que, assim como a maioria bugrina, prefere chamar o adversário deste domingo de “Chita”, macaca que ficou conhecida mundialmente nos filmes de Tarzan.

Essa rivalidade, contudo, não pôde ser sentida tão de perto pelo elenco alviverde. O time do Brinco de Ouro começou a semana na lanterna do Campeonato Paulista. Para dar tranqüilidade aos jogadores, diretoria e comissão técnica decidiram levar o grupo para Jaguariúna na quarta-feira. Desde então, os bugrinos só voltaram para Campinas na quinta-feira, para enfrentar (e vencer) o Ituano. A “fuga”, no entanto, parece ter sido aprovada pelos torcedores.

“A torcida apóia essa decisão de ir para Jaguariúna. A equipe precisa de tranqüilidade para trabalhar. E na terça-feira, um dia antes da viagem, a torcida se reuniu com os jogadores e reforçou o apoio total a eles. Vamos arrancar no Paulista, e vamos vencer o dérbi”, assegurou Marcelo.

E o sentimento de tranqüilidade dominou mesmo o Guarani. “Essa ‘fugida’ foi importante pela fase em que vivemos. A torcida estava cobrando, a imprensa também. É bom para dar uma esfriada na cabeça”, analisou o atacante bugrino Henrique, que, aos 21 anos, é a principal esperança de gols do Guarani.

A distância de Campinas, porém, não quer dizer que os alviverdes não sentiram a pressão pelo clássico. “O dérbi é um jogo diferente, que movimenta toda a cidade. Esse clima já vem desde antes do início do campeonato. A gente sabe que a vitória é quase como ganhar um título”, comentou o goleiro Gesiel. “Você está no quarto e fica imaginando como é estar em campo. Dá vontade de jogar, mas é preciso ter tranqüilidade e deixar a torcida fazer o espetáculo”, completou Henrique, bugrino assumido.

Experiente em embates como o deste domingo, o técnico Jair Picerni também não está livre da expectativa que envolve o histórico embate. “Já tinha alguns torcedores fazendo barulho, é um clássico que sempre é reconhecido. Muitos jogadores importantes, inclusive de seleção, já jogaram. Eu colocaria no mesmo patamar de um Palmeiras e Corinthians ou um Flamengo e Vasco”, comparou.

Para o torcedor, no entanto, os momentos que antecedem a partida são inesquecíveis e incomparáveis até mesmo a uma final de Copa do Mundo. “Domingo vai ser daquele jeito. Depois do meio-dia está todo mundo conversando sobre o jogo, ansioso. Todo mundo acorda com dor de barriga, tremendo, com aquele friozinho. A gente só espera que às 20h30 a festa seja nossa e o choro fique para eles”, resumiu o apaixonado bugrino Marcelo.

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