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Por Rogério Nottoli
"Em 1981, tentei a sorte no Guarani. Passei no teste,
mas vacilei ao fugir da concentração para brincar
no Carnaval. Tinha de 16 para 17 anos e não sabia a
noção de certo e errado. Fui lançado
no time principal por Lori Sandri. Minhas principais características
sempre foram o domínio de bola, a visão de jogo
e o oportunismo". Evair guarda com carinho as lembranças
do Brinco de Ouro, do começo da sua vitoriosa carreira.
"Jogamos juntos por quatro anos e formamos uma dupla
forte. O Evair sempre foi calado, honesto, um amigo dentro
e fora de campo. Eu partia para cima, procurava levar o adversário
e a torcida apreciava minha ousadia. Ele (Evair) sempre estava
no lugar certo, pronto para correr para o abraço. Espero
que possamos nos reencontrar no Bugre". João Paulo
já acertou seu retorno ao clube alviverde de Campinas.
"Já tive algumas conversas com o Evair. Ele foi,
como sempre, muito transparente. Disse que gostaria muito
de voltar ao Guarani, mas que só vai negociar após
se recuperar de uma contusão. Vamos aguardar. O João
Paulo será muito importante ao grupo, colaborando com
seu talento e com sua experiência dentro e fora de campo".
Neto, o craque que virou cartola, abriu os portões
do clube aos eternos heróis.
De tantas glórias no passado, um presente de desilusões.
O Guarani, rebaixado, procura o caminho da vitória.
Como três mosqueteiros na luta para salvar a princesa
da torre, os três amigos, que têm uma forte história
ligada ao Brinco de Ouro, podem ajudar o clube e a torcida
a resgatarem o orgulho. Neto, Evair e João Paulo estão
prontos para assumir o papel de heróis da reconstrução.
E 16 anos depois do vice no Brasileirão (1986), com
alguns cabelos brancos, mas com a mesma disposição
e vontade de superar os desafios, a dupla de ataque que infernizava
os adversários do Bugre está muito perto de
voltar aos bons tempos. João Paulo, 37 anos, já
acertou: veste novamente a camisa do Guarani no Campeonato
Nacional após defender o União de Araras no
Paulistão. Evair, com a mesma idade, já se desligou
do Coritiba e só não definiu sua situação
com o amigo Neto por uma razão: "Já fui
procurado algumas vezes. Mas estou com uma tendinite no joelho
e preciso me recuperar antes de negociar com qualquer clube.
Ainda faltam cerca de três meses para o Campeonato Brasileiro,
acho que até lá estarei pronto", avalia
o matador, que lembra com carinho de João Paulo:
- Aprendemos a viver um com o outro, somos amigos. Ele ficava
quietinho na ponta esquerda. Quando acordava, entretanto,
driblava uns três e me deixava na cara do gol. Tive
a felicidade de jogar ao lado de grandes atletas, como o Edmundo
(Palmeiras e Vasco), o Leandro (Portuguesa) e o Canigia (Atalanta,
Itália), por exemplo, mas sem dúvida o João
foi o melhor 'garçom'.
Os atacantes deixaram o Guarani rumo ao futebol italiano praticamente
na mesma época. O ponta foi para o Bari e permaneceu
cinco anos no cálcio, enquanto o centroavante defendeu
o Atalanta de Bergamo antes de reforçar o Palmeiras.
Nos gramados europeus travaram duelos emocionantes. "Na
temporada 90/91, o Atalanta levou a melhor no primeiro turno,
vencendo o Bari por 2 a 0, com gol de Evair. Depois, diante
da nossa torcida, nós ganhamos por 4 a 1 e eu deixei
a minha marca", relembra João Paulo.
Evair conta que o futebol do companheiro evoluiu muito na
Itália. "Lá ele aprendeu a jogar por todos
os setores do ataque e não ficava preso na ponta esquerda.
Tornou-se um jogador moderno, que voltava para marcar e também
ajudava na armação das jogadas do Bari",
explica o matador.
Verdade, João Paulo fez muito sucesso nos gramados
europeus. "A imprensa italiana dizia que eu vivia sorrindo,
mas que por trás do meu sorriso existia um demônio
que infernizava os adversários", conta o atacante.
Na Itália, João era chamado de 'il diavollo
che sorride' (o demônio que sorri).
Evair e João Paulo não perdem a oportunidade
de provocar, com muito bom humor, o diretor Neto. "Pena,
que ele está gordo. Se não, aposto que entrava
em campo com a gente", cutuca Evair, durante uma sonora
gargalhada. João Paulo também brinca: "Ele
(Neto) é mais novo, mas está bem gordinho".
O cartola do Guarani responde, de primeira. "Não
jogo mais futebol".
Talvez essa seja exatamente a dose de esperança que
o Bugre está precisando para superar os obstáculos
da crise. E como bons companheiros, Neto, Evair e João
Paulo estão ligados às alegrias e tristezas
do Brinco de Ouro. Muita coisa mudou nestes anos. "Hoje,
sabemos enfrentar os problemas", garante Evair - que
planeja pendurar as chuteiras no final do ano. Mas a vontade
continua a mesma de sempre: "Gosto de desafios. Não
consigo viver sem eles. Gosto de ir para dentro de campo,
acho que é só por isso que continuo jogando
até hoje".
O tempo é curto, não pára. O goleador
planeja ser treinador em 2003, já fez curso e está
se preparando para isso. João Paulo se candidata a
ser auxiliar técnico do amigo. "Se o Evair gostar
da idéia, posso trabalhar com ele". E Neto torce
o nariz: "Não tenho nada a ver com isso, tenho
interesse neles jogando, dentro de campo".
O futebol da dupla poderá fazer o cartola mudar de
idéia. Com muitos gols, dribles, criatividade e jogadas
inesquecíveis, os mosqueteiros do passado talvez possam
garantir o futuro do Guarani. E quem sabe está mais
perto do que se imagina o sucesso do "um por todos e
todos por um": com a dedicação do cartola
Neto, a tática do treinador Evair e o apoio do auxiliar
técnico João Paulo... E dá-lhe Bugre!
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