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21/05/03
Governo promete não cair na chantagem
O artigo da discórdia
O que diz o seu time
O que diz o torcedor
Presidentes das organizadas falam em 'desrespeito'
Conheça melhor o Estatuto do Torcedor
Leia o Estatuto na íntegra

Quem foi ao Pacaembu assistir a Corinthians x Fluminense, no dia três de novembro de 2002, ficou surpreso com o que viu: seguranças revistavam torcedores, voluntários orientavam e indicavam os assentos numerados. Ao final do jogo, o locutor anunciou: "atenção, torcedor: em 20 minutos, transporte disponível no portão dezoito". A partida serviu de laboratório para o Estatuto do Torcedor, que estabelece o mínimo de informação, segurança e comodidade para o grande responsável pelo espetáculo em um jogo de futebol.

Nesta terça-feira, uma nova surpresa, desta vez não tão boa: cinco dias após a lei ser sancionada pelo Governo Federal, dirigentes de oito clubes alegaram falta de condições para cumprir as medidas e simplesmente resolveram paralisar o Campeonato Brasileiro. "Os clubes não tinham a mínima chance de cumprira lei em um curto prazo", resumiu Fábio Koff, presidente do Clube dos 13, após o encontro dos oito homens que falaram como se fossem a maioria.

Durante toda a quarta-feira, dirigentes e representantes do Governo travaram uma verdadeira queda-de-braço, que durou toda noite mas não definiu nada. O Governo encaminhará o Estatuto do Torcedor para ser analisado pela Advogacia Geral da União para determinar o esclarecimento de alguns artigos que suscitam dúvidas nos dirigentes.

Isso quer dizer que o impasse continua, e a decisão de paralisar a competição nacional também. Representantes do Clube dos 13 e da CBF prometem anunciar uma definição sobre o Campeonato Brasileiro para esta quinta-feira. Entre as possibilidades, existe a hipótese de ser editada uma Medida Provisória anulando a utilização do Estatuto nas competições em andamento, ou seja, ele estaria valendo apenas em 2004.

Se a decisão se confirmar, será uma derrota e tanto para o Governo Lula. Até porque o boicote provocou reações imediatas assim que foi anunciado. "Essa oportunidade de ouro, em vez de ter a colaboração, tem uma atitude dessa de confronto, que é o oposto do que nós trabalhamos o tempo todo, do diálogo permanente", respondeu o ministro Agnello Queiroz, que ainda ameaçou afastar os dirigentes que não cumprirem a nova lei. O parlamentar Aldo Rebelo, membro da bancada governista na Câmara, definiu a atitude como "chantagem".

Praticamente todos os dirigentes defendem mudanças no Estatuto, mas nem todos aprovaram a interrupção do Campeonato. Clubes como São Paulo e Corinthians fazem parte do grupo que não participou da reunião e já se posicionaram contra a interrupção. "Quando se fala que 'Os clubes brasileiros decidiram suspender o Campeonato Brasileiro de Futebol', o São Paulo F.C. não aceita ser incluído entre eles até por ser absolutamente contrário a essa posição e, inclusive, por não ter sido consultado a respeito", resumiu o presidente do clube Marcelo Portugal Gouvêa, em nota oficial.

O confronto entre clubes e o Governo mobilizou a imprensa esportiva, que repercutiu o assunto durante todo o dia, inclusive fora do país. Especialistas em Direito Esportivo lembraram que, caso seja necessária uma intervenção na CBF, a Fifa poderia proibir a seleção brasileira de disputar competições internacionais. No final da tarde, a entidade que comanda o futebol no Brasil confirmou, ao menos, a rodada da segunda divisão para este final de semana, em função da transmissão pela TV.

Longe do centro das atenções, há quem diga que a atitude só demonstra a incompetência de alguns cartolas, incapazes de colocar em prática uma antiga reinvidicação do torcedor, cansado de ser tratado como gado nos estádios. Outros argumentam que a manobra do Clube dos 13, ao lado da CBF, é apenas fogo de palha. Independente disso, a polêmica ao menos reaqueceu a discussão sobre o projeto: praticamente todos os dirigentes acreditam que não vai ser fácil colocar a lei em prática. Até mesmo alguns parlamentares acham que a sua aprovação foi precipitada.

Nesta reportagem especial, você vai ver um resumo de todo o imbróglio provocado por esta paralisação. Vai entender o motivo de tanta discussão e descobrir o que os dirigentes do seu time pensam (ou não) sobre o assunto. No final, se a rodada deste final de semana for confirmada e o Estatuto for para a geladeira, será possível afirmar que este não foi apenas o dia em que o futebol parou, mas sim a certeza de que ficará parado por mais tempo do que se supunha.

Participaram desta cobertura: André Rosa, Daniel Fernandes, Fernando Narazaki, Laudicéia Machea, Edson Fonseca, Rodrigo Almeida, Roque Mendes, Denis Eduardo Serio, Eugênio Augusto de Oliveira Brito e Mario Sérgio Guedes Bessa Lima.

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