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Quem foi ao Pacaembu assistir a Corinthians x Fluminense,
no dia três de novembro de 2002, ficou surpreso com o que
viu: seguranças revistavam torcedores, voluntários orientavam
e indicavam os assentos numerados. Ao final do jogo, o locutor
anunciou: "atenção, torcedor: em 20 minutos, transporte disponível
no portão dezoito". A partida serviu de laboratório para o
Estatuto do Torcedor, que estabelece o mínimo de informação,
segurança e comodidade para o grande responsável pelo espetáculo
em um jogo de futebol.
Nesta terça-feira, uma nova surpresa, desta vez não tão boa:
cinco dias após a lei ser sancionada pelo Governo Federal,
dirigentes de oito clubes alegaram falta de condições para
cumprir as medidas e simplesmente resolveram paralisar o Campeonato
Brasileiro. "Os clubes não tinham a mínima chance de cumprira
lei em um curto prazo", resumiu Fábio Koff, presidente do
Clube dos 13, após o encontro dos oito homens que falaram
como se fossem a maioria.
Durante toda a quarta-feira, dirigentes e representantes
do Governo travaram uma verdadeira queda-de-braço, que durou
toda noite mas não definiu nada. O Governo encaminhará
o Estatuto do Torcedor para ser analisado pela Advogacia Geral
da União para determinar o esclarecimento de alguns
artigos que suscitam dúvidas nos dirigentes.
Isso quer dizer que o impasse
continua, e a decisão de paralisar a competição
nacional também. Representantes do Clube dos 13 e da
CBF prometem anunciar uma definição sobre o
Campeonato Brasileiro para esta quinta-feira. Entre as possibilidades,
existe a hipótese de ser editada uma Medida Provisória
anulando a utilização do Estatuto nas competições em andamento,
ou seja, ele estaria valendo apenas em 2004.
Se a decisão se confirmar, será uma derrota e tanto para
o Governo Lula. Até porque o boicote provocou reações imediatas
assim que foi anunciado. "Essa oportunidade de ouro, em vez
de ter a colaboração, tem uma atitude dessa de confronto,
que é o oposto do que nós trabalhamos o tempo todo, do diálogo
permanente", respondeu o ministro Agnello Queiroz, que ainda
ameaçou afastar os dirigentes que não cumprirem a nova lei.
O parlamentar Aldo Rebelo, membro da bancada governista na
Câmara, definiu a atitude como "chantagem".
Praticamente todos os dirigentes defendem mudanças no Estatuto,
mas nem todos aprovaram a interrupção do Campeonato. Clubes
como São Paulo e Corinthians fazem parte do grupo que não
participou da reunião e já se posicionaram contra a interrupção.
"Quando se fala que 'Os clubes brasileiros decidiram suspender
o Campeonato Brasileiro de Futebol', o São Paulo F.C. não
aceita ser incluído entre eles até por ser absolutamente contrário
a essa posição e, inclusive, por não ter sido consultado a
respeito", resumiu o presidente do clube Marcelo Portugal
Gouvêa, em nota oficial.
O confronto entre clubes e o Governo mobilizou a imprensa
esportiva, que repercutiu o assunto durante todo o dia, inclusive
fora
do país. Especialistas em Direito Esportivo
lembraram que, caso seja necessária uma intervenção na CBF,
a Fifa poderia proibir a seleção brasileira de disputar competições
internacionais. No final da tarde, a entidade que comanda
o futebol no Brasil confirmou, ao menos, a rodada da segunda
divisão para este final de semana, em função
da transmissão pela TV.
Longe do centro das atenções, há quem diga que a atitude
só demonstra a incompetência de alguns cartolas, incapazes
de colocar em prática uma antiga reinvidicação do torcedor,
cansado de ser tratado como gado nos estádios. Outros argumentam
que a manobra do Clube dos 13, ao lado da CBF, é apenas fogo
de palha. Independente disso, a polêmica ao menos reaqueceu
a discussão sobre o projeto: praticamente todos os dirigentes
acreditam que não vai ser fácil colocar a lei em prática.
Até mesmo alguns parlamentares acham que a sua aprovação foi
precipitada.
Nesta reportagem especial, você vai ver um resumo de todo
o imbróglio provocado por esta paralisação. Vai entender o
motivo de tanta discussão e descobrir o que os dirigentes
do seu time pensam (ou não) sobre o assunto. No final, se
a rodada deste final de semana for confirmada e o Estatuto
for para a geladeira, será possível afirmar que este não foi
apenas o dia em que o futebol parou, mas sim a certeza de
que ficará parado por mais tempo do que se supunha.
Participaram desta cobertura: André
Rosa, Daniel Fernandes, Fernando Narazaki, Laudicéia
Machea, Edson Fonseca, Rodrigo Almeida, Roque Mendes, Denis
Eduardo Serio, Eugênio Augusto de Oliveira Brito e Mario
Sérgio Guedes Bessa Lima.
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