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22/06/2006
Montagem sobre Fotos de Marcelo Ferrelli e Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/GP
Até o amendoim era japonês durante o jogo em que o Brasil finalmente deslanchou na Copa

Por Raul Flávio Drewnick e Caroline Dulley

Bebam champanhe em um tríplex ou rabo-de-galo no boteco sujo, os brasileiros são mais brasileiros durante a Copa do Mundo. Torcer não tem nada a ver com patriotismo, mas só o futebol é capaz de diminuir, durante um fugaz grito de gol, os abismos sociais que o Brasil pentacampeão vem sendo especialista em perpetuar desde 1500.

Na imensa e contraditória Zona Sul de São Paulo, foram visitados pela reportagem da GE.Net, nesta quinta-feira, a antiga vizinhança de Kaká, na Vila Andrade, e o periférico Jardim Irene, onde Cafu deu seus primeiros chutes.

Durante a vitória por 4 a 1 sobre o Japão, o que se viu num canto e no outro foi uma festa de contrastes, que não deixou dúvidas: apesar do sotaque europeu, a seleção brasileira de Kaká é a mesma de Cafu. Quando a bola rola, a origem aristocrática de um se mistura com as agruras sofridas pelo outro.

Faltavam dez minutos para o início do jogo e a tensão era grande no “Recanto da Baixinha”, no Jardim Irene. Do ônibus 795P, Parque do Engenho/Paraíso, não paravam de descer torcedores apressados, mas a televisão do bar ainda não estava funcionando.

Foto: Djalma Vassão/GP
Ivani, a "Baixinha do Irene", comprou seu bar depois de cinco anos vendendo espetinhos no ponto de ônibus
“Pode sentar, o Vaguinho já subiu na laje e está mexendo na antena”, avisa Ivani Jesus da Silva, a Baixinha do Irene, dona do estabelecimento. “Os irmãos do Cafu às vezes vêm tomar cerveja aqui”, conta ela, tímida, pedindo desculpas pela bagunça.

Apoiada em uma caixa de cerveja, a televisão de 20 polegadas enfim começou a mostrar as primeiras imagens chuviscadas da Alemanha, instantes antes do apito inicial. Deus e o jeitinho também são brasileiros.

Depois de arrumar a antena, Vaguinho desceu do telhado, mas não se uniu aos amigos e vizinhos. Com um machado, ele começou a quebrar o que um dia já havia sido um balcão de padaria. Sua intenção era separar a madeira e o alumínio dos outros materiais.

A esta altura, na rua Iubatinga, antigo endereço de Kaká na Vila Andrade, os faxineiros e funcionários de condomínios como o Terrazza Morumbi e o Maxim’s SP já tinham saído do serviço esbaforidos para tentar ver o jogo. De sentinela, só ficaram os porteiros, que abriram a garagem para os últimos Audis, Xsaras e Corollas entrarem.

Foto: Marcelo Ferrelli/GP
Na antiga rua do craque Kaká, os cães de raça tiveram de passear mais cedo
O gol do Japão chegou aos 33 minutos de jogo para assustar os brasileiros na Vila Andrade, no Jardim Irene e em todos os cantos do mundo. Bem neste momento, Vaguinho voltava do ferro-velho. O primeiro tempo estava quase no fim e suas machadadas tinham rendido algum dinheiro. “Eles me pagaram R$ 5,80 pelo entulho”, diz o faz-tudo do “Recanto da Baixinha”, antes de, enfim, sentar para ver o jogo. Um vira-lata magro e sarnento cheirou o poste e olhou com decepção ao notar que a churrasqueira ainda não estava acesa.

Não tão longe dali, na Vila Andrade, os poodles e labradores já estavam dentro de suas casas, mas Josimar Araújo, vendedor da Cobasi, um shopping especializado em animais de estimação, revelou já ter atendido o atual camisa 8 da seleção brasileira. “O Kaká e a namorada estiveram aqui na loja certa vez”, afirmou o vendedor, que, na ocasião, encaminhou o craque até a seção de pássaros.

O movimento na loja de animais tornou-se praticamente nulo após o início do jogo do Brasil. Em uma padaria de alto padrão, diante de televisores de plasma, famílias pagavam R$12,90 pela porção de frango à passarinho. Sem tempo para desengordurar as mãos, vibraram com o gol de empate brasileiro, marcado por Ronaldo. “Vai, gorducho”, gritaram os torcedores, que ganhavam como oferta da casa uma porção de batatas fritas a cada duas garrafas de cerveja consumidas.

Foto: Djalma Vassão/GP
No campinho do Irene, onde Cafu começou, um exército de Ronaldos
No Jardim Irene, ninguém pareceu se incomodar com a ausência de Cafu no time. “O Cicinho também é craque”, comentavam os treinadores por um dia, sentados na mureta do córrego. No campinho de terra, onde o mais famoso ex-morador do bairro surgiu, nenhum garoto vestia a camisa 2. Batia bola, animado, um exército de Ronaldos e Ronaldinhos, usando sempre o número 9 ou 10 nas costas.

No “Recanto da Baixinha”, onde R$ 13 valem quatro cervejas e três espetos, uma fila começou a se formar para comer o churrasquinho. No antigo bairro de Cafu não há shopping, muito menos um especializado em animais de estimação. Mesmo assim, o papagaio Robinho observava calado o movimento estranho.

“O Robinho tem nove meses. É novinho, mas conversa bastante. Ele adora falar ‘pedala’. Não sei por que ele está assustado hoje”, conta a Baixinha do Irene, que, atarefada, nem viu o gol de Juninho Pernambucano.

Na padaria do Morumbi, no entanto, o gol perdido foi o de Gilberto. Bebendo cerveja sem álcool e trajando camisa social, o rapaz levantou na hora errada para ir ao banheiro, deixando os óculos escuros e o telefone em cima da mesa. Sua namorada aproveitou o momento para fuçar o registro de chamadas e checar se ele não havia ligado para nenhuma sirigaita nos últimos dias.

Foto: Marcelo Ferrelli/GP
Sirigaita, não! Ao levantar para ir ao banheiro, a namorada aproveitou para dar uma vasculhada no celular do companheiro
De volta, com a barra limpa, ele só queria saber quem havia marcado o terceiro gol brasileiro. A resposta da namorada não ajudou: “Foi o neguinho”, respondeu ela, chacoalhando os cabelos dourados.

Se na Vila Andrade e no Morumbi o ápice de emoção foi a entrada de Rogério Ceni nos minutos finais, o Jardim Irene explodiu de vez com o segundo gol de Ronaldo, o quarto e último do Brasil no jogo. A partir daí, quem não tinha dinheiro bebia um gole do colega e muitos clientes passaram para o lado de dentro do balcão. A Baixinha não tinha batatas fritas para oferecer, mas abriu um saco de amendoim japonês para os fregueses mais chegados.

De um lado e de outro, todos esqueceram que a sexta-feira seria um novo dia de trabalho. No Jardim Irene, todos eram pentacampeões rumo ao hexa e, por isso, tinham o direito de se sentir tão ricos quanto os torcedores da Vila Andrade. Absorta, a classe média também aposentou a pose e caiu na folia. Como se fizessem parte de um mesmo Brasil, juntos, cantaram: “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Montagem sobre Fotos de Marcelo Ferrelli e Djalma Vassão/Gazeta Press
Cenas de mundos diferentes: o limão para a caipirinha no Jardim Irene; na Vila Andrade, a garçonete atende a classe média que aplaudiu o gol do "neguinho" Gilberto

 

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