| Foto:
Djalma Vassão/GP |
 |
| Até o amendoim era japonês
durante o jogo em que o Brasil finalmente deslanchou na
Copa |
Por Raul Flávio Drewnick e Caroline Dulley
Bebam champanhe em um tríplex ou rabo-de-galo no boteco
sujo, os brasileiros são mais brasileiros durante a Copa do
Mundo. Torcer não tem nada a ver com patriotismo, mas só o
futebol é capaz de diminuir, durante um fugaz grito de gol,
os abismos sociais que o Brasil pentacampeão vem sendo especialista
em perpetuar desde 1500.
Na imensa e contraditória Zona Sul de São Paulo, foram visitados
pela reportagem da GE.Net, nesta quinta-feira, a antiga
vizinhança de Kaká, na Vila Andrade, e o periférico Jardim
Irene, onde Cafu deu seus primeiros chutes.
Durante a vitória por 4 a 1 sobre o Japão, o que se viu
num canto e no outro foi uma festa de contrastes, que não
deixou dúvidas: apesar do sotaque europeu, a seleção brasileira
de Kaká é a mesma de Cafu. Quando a bola rola, a origem aristocrática
de um se mistura com as agruras sofridas pelo outro.
Faltavam dez minutos para o início do jogo e a tensão era
grande no “Recanto da Baixinha”, no Jardim Irene. Do ônibus
795P, Parque do Engenho/Paraíso, não paravam de descer torcedores
apressados, mas a televisão do bar ainda não estava funcionando.
| Foto: Djalma Vassão/GP |
 |
| Ivani, a "Baixinha
do Irene", comprou seu bar depois de cinco anos vendendo
espetinhos no ponto de ônibus |
“Pode sentar, o Vaguinho já subiu na laje e está mexendo
na antena”, avisa Ivani Jesus da Silva, a Baixinha do Irene,
dona do estabelecimento. “Os irmãos do Cafu às vezes vêm tomar
cerveja aqui”, conta ela, tímida, pedindo desculpas pela bagunça.
Apoiada em uma caixa de cerveja, a televisão de 20 polegadas
enfim começou a mostrar as primeiras imagens chuviscadas da
Alemanha, instantes antes do apito inicial. Deus e o jeitinho
também são brasileiros.
Depois de arrumar a antena, Vaguinho desceu do telhado,
mas não se uniu aos amigos e vizinhos. Com um machado, ele
começou a quebrar o que um dia já havia sido um balcão de
padaria. Sua intenção era separar a madeira e o alumínio dos
outros materiais.
A esta altura, na rua Iubatinga, antigo endereço de Kaká
na Vila Andrade, os faxineiros e funcionários de condomínios
como o Terrazza Morumbi e o Maxim’s SP já tinham saído do
serviço esbaforidos para tentar ver o jogo. De sentinela,
só ficaram os porteiros, que abriram a garagem para os últimos
Audis, Xsaras e Corollas entrarem.
| Foto: Marcelo
Ferrelli/GP |
 |
| Na antiga rua
do craque Kaká, os cães de raça tiveram
de passear mais cedo |
O gol do Japão chegou aos 33
minutos de jogo para assustar os brasileiros na Vila Andrade,
no Jardim Irene e em todos os cantos do mundo. Bem neste momento,
Vaguinho voltava do ferro-velho. O primeiro tempo estava quase
no fim e suas machadadas tinham rendido algum dinheiro. “Eles
me pagaram R$ 5,80 pelo entulho”, diz o faz-tudo do “Recanto
da Baixinha”, antes de, enfim, sentar para ver o jogo. Um vira-lata
magro e sarnento cheirou o poste e olhou com decepção ao notar
que a churrasqueira ainda não estava acesa.
Não tão longe dali, na Vila Andrade, os poodles e labradores
já estavam dentro de suas casas, mas Josimar Araújo, vendedor
da Cobasi, um shopping especializado em animais de estimação,
revelou já ter atendido o atual camisa 8 da seleção brasileira.
“O Kaká e a namorada estiveram aqui na loja certa vez”, afirmou
o vendedor, que, na ocasião, encaminhou o craque até a seção
de pássaros.
O movimento na loja de animais tornou-se praticamente nulo
após o início do jogo do Brasil. Em uma padaria de alto padrão,
diante de televisores de plasma, famílias pagavam R$12,90
pela porção de frango à passarinho. Sem tempo para
desengordurar as mãos, vibraram com o gol de empate brasileiro,
marcado por Ronaldo. “Vai, gorducho”, gritaram os torcedores,
que ganhavam como oferta da casa uma porção de batatas fritas
a cada duas garrafas de cerveja consumidas.
| Foto: Djalma Vassão/GP |
 |
| No campinho do
Irene, onde Cafu começou, um exército de
Ronaldos |
No Jardim Irene, ninguém pareceu
se incomodar com a ausência de Cafu no time. “O Cicinho também
é craque”, comentavam os treinadores por um dia, sentados na
mureta do córrego. No campinho de terra, onde o mais famoso
ex-morador do bairro surgiu, nenhum garoto vestia a camisa 2.
Batia bola, animado, um exército de Ronaldos e Ronaldinhos,
usando sempre o número 9 ou 10 nas costas.
No “Recanto da Baixinha”, onde R$ 13 valem quatro cervejas
e três espetos, uma fila começou a se formar para comer o
churrasquinho. No antigo bairro de Cafu não há shopping, muito
menos um especializado em animais de estimação.
Mesmo assim, o papagaio Robinho observava calado o movimento
estranho.
“O Robinho tem nove meses. É novinho, mas conversa bastante.
Ele adora falar ‘pedala’. Não sei por que ele está assustado
hoje”, conta a Baixinha do Irene, que, atarefada, nem viu
o gol de Juninho Pernambucano.
Na padaria do Morumbi, no entanto, o gol perdido foi o de
Gilberto. Bebendo cerveja sem álcool e trajando camisa social,
o rapaz levantou na hora errada para ir ao banheiro, deixando
os óculos escuros e o telefone em cima da mesa. Sua namorada
aproveitou o momento para fuçar o registro de chamadas e checar
se ele não havia ligado para nenhuma sirigaita nos últimos
dias.
| Foto: Marcelo
Ferrelli/GP |
 |
| Sirigaita, não!
Ao levantar para ir ao banheiro, a namorada aproveitou
para dar uma vasculhada no celular do companheiro |
De volta, com a barra limpa, ele só queria saber quem havia
marcado o terceiro gol brasileiro. A resposta da namorada não
ajudou: “Foi o neguinho”, respondeu ela, chacoalhando os cabelos
dourados.
Se na Vila Andrade e no Morumbi o ápice de emoção foi a
entrada de Rogério Ceni nos minutos finais, o Jardim Irene
explodiu de vez com o segundo gol de Ronaldo, o quarto e último
do Brasil no jogo. A partir daí, quem não tinha dinheiro
bebia um gole do colega e muitos clientes passaram para o
lado de dentro do balcão. A Baixinha não tinha batatas fritas
para oferecer, mas abriu um saco de amendoim japonês para
os fregueses mais chegados.
De um lado e de outro, todos esqueceram que a sexta-feira
seria um novo dia de trabalho. No Jardim Irene, todos eram
pentacampeões rumo ao hexa e, por isso, tinham o direito de
se sentir tão ricos quanto os torcedores da Vila Andrade.
Absorta, a classe média também aposentou a pose e caiu na
folia. Como se fizessem parte de um mesmo Brasil, juntos,
cantaram: “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.
| Montagem sobre
Fotos de Marcelo Ferrelli e Djalma Vassão/Gazeta
Press |
 |
| Cenas de mundos
diferentes: o limão para a caipirinha no Jardim
Irene; na Vila Andrade, a garçonete atende a classe
média que aplaudiu o gol do "neguinho"
Gilberto |
|