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27/06/2006

Por Helder Junior e Caroline Dulley, especial para GE.Net

“Olha aí, a turma do balacobaco!”, apontou uma senhora que passava pelo saguão do Aeroporto de Congonhas. Uma multidão estava ali rodeando duas televisões de plasma que transmitiam a partida entre Brasil e Gana. “Ninguém trabalha, não? É o país do balacobaco mesmo!”, indignou-se, aos gritos, a mulher, sem muita razão. Foram muitos os brasileiros que não abandonaram seus serviços nesta terça-feira. A maioria de má vontade, é verdade, mas trabalharam.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
O segurança Amauri Pinheiro queria ver o jogo em uma loja no centro de São Paulo, mas o patrão mandou desligar a TV

O metrô não pode parar. Trinta minutos antes de o jogo começar na Alemanha, a composição carregou os últimos apressados brasileiros que foram dispensados do trabalho. Ficou lotado até pouco mais de meio-dia. Depois, nem as moscas fizeram companhia para seguranças e operadores de trens. “Vou ser informado por rádio pelo CCO (Centro de Controle Operacional) quando sair algum gol”, conformou-se o responsável pelo percurso da linha verde, da Vila Madalena à Imigrantes.

Há 24 anos trabalhando no metrô, o funcionário já está acostumado com a situação. Sofre mais quando trabalha no Ano Novo do que durante os jogos da seleção. Nesta terça-feira, após 50 minutos conduzindo um trem, ele ainda teria a chance de assistir ao início do segundo tempo. Iria para uma sala na estação Imigrantes, onde uma televisão de 29 polegadas o aguardava.

“Quebrada”, indicava um aviso pendurado na TV da estação Ana Rosa, quando a partida ainda não havia começado. Será que nem ali os operadores de trem poderiam torcer? “É só uma brincadeira para não deixar ninguém com vontade antes do jogo. Ela está funcionando”, divertiu-se o supervisor da estação. Brincadeira de mau gosto para quem ainda vai trabalhar, enquanto milhares de outros brasileiros se divertiam em bares, restaurantes ou reunidos no telão colocado no Vale do Anhangabaú.

Mais desertas que o metrô, ficaram as ruas de São Paulo. “Não há nada melhor do que dirigir sem trânsito. Essa é uma oportunidade única, que só acontece de quatro em quatro anos”, comemorava o motorista de ônibus João Batista Lopes, que estava estacionado o veículo no Terminal Paraíso. O cobrador contestou. “Sou louco por futebol. Na hora de fazer a escala para trabalhar, tinham que colocar esses caras que não gostam”, enfezou-se.

A poucos metros dali, o Hospital do Coração já preparava o auditório do segundo andar para uma festa. Um telão, duas televisões menores e cerca de 200 funcionários, entre médicos, enfermeiros, cozinheiros e faxineiros estavam no local. Nem todo mundo podia ficar lá, mas, vez ou outra, quando tinham uma chance, os demais espiavam o jogo pela porta. Muitos dos cardíacos internados não tiveram a mesma sorte. Estavam proibidos de sentir fortes emoções.

“Haja coração”, anunciou o famoso narrador da TV. A bola rolou. Atrasado, um cirurgião se acomodou no fundo do auditório. “Tomara que esse celular não toque agora. Acho que é melhor desligar”, comentou com um colega. Não demorou nem cinco minutos e o telefone começou a perturbar. O médico saiu, atendeu o paciente e voltou. Por pouco tempo. “P... que o pariu! De novo!”, berrou.

Retornou para assistir ao primeiro gol da seleção brasileira. Comemorou bastante antes que a paciência se esgotasse no terceiro telefonema. “C... !!!”, indignou-se. O cirurgião saiu e não voltou mais, para alegria de uma faxineira, que ocupou seu lugar no auditório.
Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Para a gari Benedita Correa, foi fácil ver o jogo. Era só demorar um pouco mais para limpar a rua em frente aos restaurantes

Do Hospital, no Paraíso, ao Cemitério da Consolação, todos brasileiros vibraram ao ver Ronaldo driblar o goleiro de Gana, Kingson, e fazer 1 a 0 para a seleção. O operador do metrô recebeu o aviso pelo rádio e comemorou solitário, o motorista e o cobrador do ônibus se animaram com os rojões vindos das ruas e até mesmo os coveiros que acompanhavam a partida em uma pequena sala com televisão, em frente a um sepultamento, romperam o silêncio. O enterro foi atrapalhado pelos gritos intensos de gol, deixando claramente atônita a família do falecido.

Um dos três coveiros que não puderam se unir aos demais reclamou. “Perdi o início do jogo. Agora espero que eu não tenha que enterrar mais ninguém até o final do segundo tempo”, chiou. Ninguém mais atrapalhou os funcionários do Cemitério da Consolação depois daquele funeral. Apenas uma barraquinha insistiu em vender flores – somente uma durante toda partida – em frente ao local.

Intervalo. Diante do Hospital do Coração, seu Carlos também se recusou a fechar sua banca de jornais, que até então só havia vendido uma única revista: de corte e costura. “Não sou brasileiro. Nasci na Bahia”, explicou. “Não acompanho a seleção desde que o Zagallo vendeu a Copa de 1998 para a França. Mas eu sei que está 2 a 0 porque me falaram”, continuou, dando a segunda justificativa com a mesma seriedade que apresentou a primeira.

No centro de São Paulo, garis e seguranças também sorriam com os gols marcados pela criticada dupla de frente. "Não posso parar, mas quando passo na frente de um bar dou uma demoradinha e vejo os lances", revelou a gari Benedita Correa na rua Barão de Itapetininga. Metros à frente, o segurança Amauri Pinheiro não teve a felicidade de ver os gols, mas já sabia do resultado. "Percebo pelos rojões. TV que é bom, nada", lamentava, frustrado com a decisão do chefe de desligar os televisores bem na hora da partida em Dortmund.

Já alguns funcionários do Aeroporto de Congonhas nem ao menos tinham o “privilégio” de saber da vitória parcial brasileira. “Está 1 a 0, né? Eu ouvi o pessoal gritar na hora do gol”, comentou um rapaz que trabalhava a contragosto no check-in. Na verdade, Adriano já havia marcado o segundo gol da seleção brasileira e há alguns bons minutos. “Não tem nenhum lugar que eu possa ver o jogo?”, interrompeu um senhor que se preparava para viajar. O rapaz apontou para o saguão, com uma televisão há poucos metros de distância. Ele só poderia ir até lá às 14 horas, quando encerrava seu expediente e também a partida.

O senhor passou pelas lojas do Aeroporto. Uma delas vendia acessórios da seleção brasileira e revezava suas funcionárias nos dois tempos da partida. Quem estava de folga, ia até às TVs de plasma, a outra se contentava com um rádio. No saguão, a comemoração pela entrada de Juninho Pernambucano na equipe confundiu novamente o rapaz do check-in, da mesma forma que as vaias para Ricardinho o desanimaram.

Zé Roberto marcou o terceiro gol e o operador do metrô, o motorista e o cobrador, os médicos e os coveiros vibraram pela última vez. A partida acabou sob os gritos de “hexacampeão”. O expediente chegava ao fim e quem trabalhou podia enfim ir para casa. Agora, seria a vez deles acompanharem o VT da partida que aconteceu ao meio-dia. Atrasados ou não, faziam parte da turma do “balacobaco”.

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