Por Helder Junior e Caroline
Dulley, especial para GE.Net
“Olha aí, a turma do balacobaco!”, apontou uma senhora que
passava pelo saguão do Aeroporto de Congonhas. Uma multidão
estava ali rodeando duas televisões de plasma que transmitiam
a partida entre Brasil e Gana. “Ninguém trabalha, não? É o
país do balacobaco mesmo!”, indignou-se, aos gritos, a mulher,
sem muita razão. Foram muitos os brasileiros que não abandonaram
seus serviços nesta terça-feira. A maioria de má vontade,
é verdade, mas trabalharam.
| Foto: Fernando
Pilatos/Gazeta Press |
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| O segurança
Amauri Pinheiro queria ver o jogo em uma loja no centro
de São Paulo, mas o patrão mandou desligar
a TV |
O metrô não pode parar. Trinta minutos antes de o jogo começar
na Alemanha, a composição carregou os últimos apressados brasileiros
que foram dispensados do trabalho. Ficou lotado até pouco
mais de meio-dia. Depois, nem as moscas fizeram companhia
para seguranças e operadores de trens. “Vou ser informado
por rádio pelo CCO (Centro de Controle Operacional) quando
sair algum gol”, conformou-se o responsável pelo percurso
da linha verde, da Vila Madalena à Imigrantes.
Há 24 anos trabalhando no metrô, o funcionário já está acostumado
com a situação. Sofre mais quando trabalha no Ano Novo do
que durante os jogos da seleção. Nesta terça-feira, após 50
minutos conduzindo um trem, ele ainda teria a chance de assistir
ao início do segundo tempo. Iria para uma sala na estação
Imigrantes, onde uma televisão de 29 polegadas o aguardava.
“Quebrada”, indicava um aviso pendurado na TV da estação
Ana Rosa, quando a partida ainda não havia começado. Será
que nem ali os operadores de trem poderiam torcer? “É só uma
brincadeira para não deixar ninguém com vontade antes do jogo.
Ela está funcionando”, divertiu-se o supervisor da estação.
Brincadeira de mau gosto para quem ainda vai trabalhar, enquanto
milhares de outros brasileiros se divertiam em bares, restaurantes
ou reunidos no telão colocado no Vale do Anhangabaú.
Mais desertas que o metrô, ficaram as ruas de São Paulo.
“Não há nada melhor do que dirigir sem trânsito. Essa é uma
oportunidade única, que só acontece de quatro em quatro anos”,
comemorava o motorista de ônibus João Batista Lopes, que estava
estacionado o veículo no Terminal Paraíso. O cobrador contestou.
“Sou louco por futebol. Na hora de fazer a escala para trabalhar,
tinham que colocar esses caras que não gostam”, enfezou-se.
A poucos metros dali, o Hospital do Coração já preparava
o auditório do segundo andar para uma festa. Um telão, duas
televisões menores e cerca de 200 funcionários, entre médicos,
enfermeiros, cozinheiros e faxineiros estavam no local. Nem
todo mundo podia ficar lá, mas, vez ou outra, quando tinham
uma chance, os demais espiavam o jogo pela porta. Muitos dos
cardíacos internados não tiveram a mesma sorte. Estavam proibidos
de sentir fortes emoções.
“Haja coração”, anunciou o famoso narrador da TV. A bola
rolou. Atrasado, um cirurgião se acomodou no fundo do auditório.
“Tomara que esse celular não toque agora. Acho que é melhor
desligar”, comentou com um colega. Não demorou nem cinco minutos
e o telefone começou a perturbar. O médico saiu, atendeu o
paciente e voltou. Por pouco tempo. “P... que o pariu! De
novo!”, berrou.
Retornou para assistir ao primeiro gol da seleção brasileira.
Comemorou bastante antes que a paciência se esgotasse no terceiro
telefonema. “C... !!!”, indignou-se. O cirurgião saiu e não
voltou mais, para alegria de uma faxineira, que ocupou seu
lugar no auditório.
| Foto: Fernando
Pilatos/Gazeta Press |
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| Para a gari Benedita
Correa, foi fácil ver o jogo. Era só demorar
um pouco mais para limpar a rua em frente aos restaurantes |
Do Hospital, no Paraíso, ao Cemitério da Consolação, todos
brasileiros vibraram ao ver Ronaldo driblar o goleiro de Gana,
Kingson, e fazer 1 a 0 para a seleção. O operador do metrô
recebeu o aviso pelo rádio e comemorou solitário, o motorista
e o cobrador do ônibus se animaram com os rojões vindos das
ruas e até mesmo os coveiros que acompanhavam a partida em
uma pequena sala com televisão, em frente a um sepultamento,
romperam o silêncio. O enterro foi atrapalhado pelos gritos
intensos de gol, deixando claramente atônita a família do
falecido.
Um dos três coveiros que não puderam se unir aos demais reclamou.
“Perdi o início do jogo. Agora espero que eu não tenha que
enterrar mais ninguém até o final do segundo tempo”, chiou.
Ninguém mais atrapalhou os funcionários do Cemitério da Consolação
depois daquele funeral. Apenas uma barraquinha insistiu em
vender flores – somente uma durante toda partida – em frente
ao local.
Intervalo. Diante do Hospital do Coração, seu Carlos também
se recusou a fechar sua banca de jornais, que até então só
havia vendido uma única revista: de corte e costura. “Não
sou brasileiro. Nasci na Bahia”, explicou. “Não acompanho
a seleção desde que o Zagallo vendeu a Copa de 1998 para a
França. Mas eu sei que está 2 a 0 porque me falaram”, continuou,
dando a segunda justificativa com a mesma seriedade que apresentou
a primeira.
No centro de São Paulo, garis e seguranças
também sorriam com os gols marcados pela criticada
dupla de frente. "Não posso parar, mas quando
passo na frente de um bar dou uma demoradinha e vejo os lances",
revelou a gari Benedita Correa na rua Barão de Itapetininga.
Metros à frente, o segurança Amauri Pinheiro
não teve a felicidade de ver os gols, mas já
sabia do resultado. "Percebo pelos rojões. TV
que é bom, nada", lamentava, frustrado com a decisão
do chefe de desligar os televisores bem na hora da partida
em Dortmund.
Já alguns funcionários do Aeroporto de Congonhas nem ao
menos tinham o “privilégio” de saber da vitória parcial brasileira.
“Está 1 a 0, né? Eu ouvi o pessoal gritar na hora do gol”,
comentou um rapaz que trabalhava a contragosto no check-in.
Na verdade, Adriano já havia marcado o segundo gol da seleção
brasileira e há alguns bons minutos. “Não tem nenhum lugar
que eu possa ver o jogo?”, interrompeu um senhor que se preparava
para viajar. O rapaz apontou para o saguão, com uma televisão
há poucos metros de distância. Ele só poderia ir até lá às
14 horas, quando encerrava seu expediente e também a partida.
O senhor passou pelas lojas do Aeroporto. Uma delas vendia
acessórios da seleção brasileira e revezava suas funcionárias
nos dois tempos da partida. Quem estava de folga, ia até às
TVs de plasma, a outra se contentava com um rádio. No saguão,
a comemoração pela entrada de Juninho Pernambucano na equipe
confundiu novamente o rapaz do check-in, da mesma forma que
as vaias para Ricardinho o desanimaram.
Zé Roberto marcou o terceiro gol e o operador do metrô,
o motorista e o cobrador, os médicos e os coveiros vibraram
pela última vez. A partida acabou sob os gritos de “hexacampeão”.
O expediente chegava ao fim e quem trabalhou podia enfim ir
para casa. Agora, seria a vez deles acompanharem o VT da partida
que aconteceu ao meio-dia. Atrasados ou não, faziam parte
da turma do “balacobaco”. |