| Foto: Reuters |
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| O capitão Cannavaro abafa crise e levanta a Taça
de Campeão |
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Por Luiz Ricardo Fini
Depois de 24 anos de espera, a Itália finalmente pôde soltar
o grito de campeã da Copa do Mundo. Os jogadores da Azzurra
se esquivaram do escândalo que abala o futebol do país e levaram
para campo o já conhecido estilo pragmático para levantar
o caneco.
Bastante questionada pelos próprios torcedores italianos,
a seleção de Marcelo Lippi desbancou rivais tradicionais,
como a França e a anfitriã Alemanha, para conseguir sagrar-se
tetracampeã. Apesar de ter feito uma campanha tranqüila nas
Eliminatórias européias (sete vitórias, dois empates e só
uma derrota), o escândalo de manipulação de resultados que
está chacoalhando os bastidores da Itália criou problemas
para a seleção antes do início do torneio.
Do atual elenco azul, 13 atletas atuam nas quatro equipes
que podem ser rebaixadas por causa do escândalo (Juventus,
Milan, Lazio e Fiorentina). Jogadores da Juve, clube que mais
sofre acusações, foram criticados com veemência por parte
da torcida, que não perdoou nem mesmo o capitão Cannavaro.
Já o goleiro Buffon, também da Vecchia Signora, viu
seu nome figurar entre os investigados pela Justiça e acabou
alvo das reclamações dos fãs. Marcelo Lippi, por sua vez,
sofreu com a pressão de ter seu filho investigado.
Foi em meio a esse clima de insatisfação que os jogadores
foram para a Alemanha buscar o título.
O desempenho nas partidas da primeira fase também não contribuiu
para diminuir a ira da torcida. A própria estréia na Copa
foi conturbada. O árbitro Carlos Eugênio Simon deixou de marcar
dois pênaltis evidentes para Gana, e a Itália aproveitou para
vencer por 2 a 0.
O empate no violento jogo contra os Estados Unidos, pela
segunda rodada, acabou resultando na primeira baixa da equipe.
Expulso depois de acertar uma cotovelada em Mc Bride, o volante
De Rossi foi suspenso por quatro partidas e só voltaria
a jogar na decisão. Em um grupo embolado até a rodada
final, os italianos só garantiram a vaga nas oitavas depois
de uma burocrática vitória sobre a República Tcheca por 2
a 0. Mas no triunfo que valeu a classificação também sobrou
tempo para lamentações. O zagueiro Alessandro Nesta sofreu
uma lesão e deu adeus à Copa do Mundo.
Mesmo com todos os problemas, os destaques da seleção começaram
a mostrar serviço logo nos primeiros compromissos, como o
goleiro Buffon, o zagueiro Cannavaro e o volante Pirlo. A
consistência tática da equipe também merece elogios. A defesa
compacta montada por Lippi foi o principal trunfo da Azzurra,
que raramente deu espaços aos adversários e acabou vazada
apenas duas vezes durante toda a Copa. Zaccardo marcou contra
no jogo com os Estados Unidos, e Zidane deixou sua marca na
decisão.
Mantido como capitão apesar das críticas pré-Copa, Cannavaro
mostrou que a conhecida raça italiana não ficou perdida no
passado e comandou o sistema defensivo, mesmo depois da contusão
do parceiro Nesta. O até então criticado Materazzi conseguiu
suprir a ausência do titular e contribuir para manter a solidez
da zaga.
Com a retaguarda garantida, as reclamações da torcida recaíram
sobre o ataque. Apesar de Luca Toni ter conseguido embalar
durante a Copa, o jovem Gilardino não correspondeu às expectativas
e acabou perdendo a vaga de titular durante o torneio.
A conturbada campanha italiana foi inevitavelmente comparada
à trajetória vitoriosa de 1982. Na época, também sacudida
por um escândalo de manipulação de resultados, a Azzurra
superou a desconfiança da torcida e bateu favoritos como Brasil
e Argentina. Criticado antes da Copa, o então técnico Enzo
Bearzot contrariou a opinião pública e bancou o atacante Paolo
Rossi, que acabara de cumprir uma suspensão de dois
anos. A recompensa à teimosia do treinador foram os
três gols do jogador na vitória por 3 a 2 sobre o Brasil de
Telê Santana, Zico e Sócrates. Como já era de se esperar,
Rossi e Bearzot foram endeusados depois do título.
As sete partidas da Copa de 2006 também formaram o caminho
que tiraram de Marcelo Lippi o rótulo de “besta” para a consagração
do “bestial”. O estilo pragmático imposto pelo treinador manteve
a seleção nos trilhos. Mas aos solavancos.
Nas oitavas-de-final, mais uma mãozinha do juiz sustentou
a Azzurra na busca pelo título. Quando todos já esperavam
pela prorrogação contra a Austrália, a Itália garantiu a vitória
por 1 a 0 nos acréscimos, em cobrança de pênalti inexistente
anotado pelo árbitro espanhol Luís Medina Cantalejo. Totti
mandou para o barbante.
A seleção da Bota só conseguiu embalar a partir das quartas-de-final.
As críticas dos torcedores ficaram escassas, já que o time
finalmente mostrou que poderia chegar ao topo mais uma vez.
Até os gols apareceram. O adversário não era dos mais tradicionais,
a Ucrânia, mas a vitória por 3 a 0 foi importante para aumentar
o otimismo de Lippi e seus comandados. Zambrotta abriu a contagem,
e Luca Toni completou com dois tentos.
Os italianos só encaram um adversário de renome na semifinal.
E não foi pouca coisa: duelo com a tricampeã e anfitriã Alemanha.
A rigidez tática das duas seleções arrastou o emocionante
jogo para o tempo-extra. Aos 13 minutos da segunda etapa da
prorrogação, quando todos já preparavam os nervos para a decisão
por pênaltis, o lateral Grosso calou o estádio ao marcar um
golaço. O desespero tomou conta dos germânicos, que deram
espaço para Del Piero sacramentar a vitória por 2 a 0 nos
acréscimos. A desacreditada Itália desbancou a favorita anfitriã.
O caminho estava traçado.
Na decisão contra a França, o destino reservou
mais uma disputa de pênaltis à Azzurra.
Em 1994, o Brasil quebrou o jejum de 24 anos com a vitória
sobre os italianos. Mas, desta vez, foi a vez de a Itália
quebrar um tabu de 24 anos e comemorar. A vitória sobre a
França por 5 a 3 nas cobranças levou o troféu para
a Bota. Agora, a Azzurra aparece sozinha no hall das
tetracampeãs (1934, 1938, 1982 e 2006), e só vê o Brasil à
sua frente na relação de ganhadores. O elenco desmoralizado
do início da Copa transformou-se no respeitado plantel que
levou a Itália ao título. O futebol foi pragmático o tempo
todo, mas provou-se eficiente. Mais uma vez, a seleção confirmou
seu poder de reagir em meio à crise.
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