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09/07/2006
Foto: Reuters
O capitão Cannavaro abafa crise e levanta a Taça de Campeão

Por Luiz Ricardo Fini

Depois de 24 anos de espera, a Itália finalmente pôde soltar o grito de campeã da Copa do Mundo. Os jogadores da Azzurra se esquivaram do escândalo que abala o futebol do país e levaram para campo o já conhecido estilo pragmático para levantar o caneco.

Bastante questionada pelos próprios torcedores italianos, a seleção de Marcelo Lippi desbancou rivais tradicionais, como a França e a anfitriã Alemanha, para conseguir sagrar-se tetracampeã. Apesar de ter feito uma campanha tranqüila nas Eliminatórias européias (sete vitórias, dois empates e só uma derrota), o escândalo de manipulação de resultados que está chacoalhando os bastidores da Itália criou problemas para a seleção antes do início do torneio.

Do atual elenco azul, 13 atletas atuam nas quatro equipes que podem ser rebaixadas por causa do escândalo (Juventus, Milan, Lazio e Fiorentina). Jogadores da Juve, clube que mais sofre acusações, foram criticados com veemência por parte da torcida, que não perdoou nem mesmo o capitão Cannavaro. Já o goleiro Buffon, também da Vecchia Signora, viu seu nome figurar entre os investigados pela Justiça e acabou alvo das reclamações dos fãs. Marcelo Lippi, por sua vez, sofreu com a pressão de ter seu filho investigado. Foi em meio a esse clima de insatisfação que os jogadores foram para a Alemanha buscar o título.

O desempenho nas partidas da primeira fase também não contribuiu para diminuir a ira da torcida. A própria estréia na Copa foi conturbada. O árbitro Carlos Eugênio Simon deixou de marcar dois pênaltis evidentes para Gana, e a Itália aproveitou para vencer por 2 a 0.

O empate no violento jogo contra os Estados Unidos, pela segunda rodada, acabou resultando na primeira baixa da equipe. Expulso depois de acertar uma cotovelada em Mc Bride, o volante De Rossi foi suspenso por quatro partidas e só voltaria a jogar na decisão. Em um grupo embolado até a rodada final, os italianos só garantiram a vaga nas oitavas depois de uma burocrática vitória sobre a República Tcheca por 2 a 0. Mas no triunfo que valeu a classificação também sobrou tempo para lamentações. O zagueiro Alessandro Nesta sofreu uma lesão e deu adeus à Copa do Mundo.

Mesmo com todos os problemas, os destaques da seleção começaram a mostrar serviço logo nos primeiros compromissos, como o goleiro Buffon, o zagueiro Cannavaro e o volante Pirlo. A consistência tática da equipe também merece elogios. A defesa compacta montada por Lippi foi o principal trunfo da Azzurra, que raramente deu espaços aos adversários e acabou vazada apenas duas vezes durante toda a Copa. Zaccardo marcou contra no jogo com os Estados Unidos, e Zidane deixou sua marca na decisão.

Mantido como capitão apesar das críticas pré-Copa, Cannavaro mostrou que a conhecida raça italiana não ficou perdida no passado e comandou o sistema defensivo, mesmo depois da contusão do parceiro Nesta. O até então criticado Materazzi conseguiu suprir a ausência do titular e contribuir para manter a solidez da zaga.

Com a retaguarda garantida, as reclamações da torcida recaíram sobre o ataque. Apesar de Luca Toni ter conseguido embalar durante a Copa, o jovem Gilardino não correspondeu às expectativas e acabou perdendo a vaga de titular durante o torneio.

A conturbada campanha italiana foi inevitavelmente comparada à trajetória vitoriosa de 1982. Na época, também sacudida por um escândalo de manipulação de resultados, a Azzurra superou a desconfiança da torcida e bateu favoritos como Brasil e Argentina. Criticado antes da Copa, o então técnico Enzo Bearzot contrariou a opinião pública e bancou o atacante Paolo Rossi, que acabara de cumprir uma suspensão de dois anos. A recompensa à teimosia do treinador foram os três gols do jogador na vitória por 3 a 2 sobre o Brasil de Telê Santana, Zico e Sócrates. Como já era de se esperar, Rossi e Bearzot foram endeusados depois do título.

As sete partidas da Copa de 2006 também formaram o caminho que tiraram de Marcelo Lippi o rótulo de “besta” para a consagração do “bestial”. O estilo pragmático imposto pelo treinador manteve a seleção nos trilhos. Mas aos solavancos.

Nas oitavas-de-final, mais uma mãozinha do juiz sustentou a Azzurra na busca pelo título. Quando todos já esperavam pela prorrogação contra a Austrália, a Itália garantiu a vitória por 1 a 0 nos acréscimos, em cobrança de pênalti inexistente anotado pelo árbitro espanhol Luís Medina Cantalejo. Totti mandou para o barbante.

A seleção da Bota só conseguiu embalar a partir das quartas-de-final. As críticas dos torcedores ficaram escassas, já que o time finalmente mostrou que poderia chegar ao topo mais uma vez. Até os gols apareceram. O adversário não era dos mais tradicionais, a Ucrânia, mas a vitória por 3 a 0 foi importante para aumentar o otimismo de Lippi e seus comandados. Zambrotta abriu a contagem, e Luca Toni completou com dois tentos.

Os italianos só encaram um adversário de renome na semifinal. E não foi pouca coisa: duelo com a tricampeã e anfitriã Alemanha. A rigidez tática das duas seleções arrastou o emocionante jogo para o tempo-extra. Aos 13 minutos da segunda etapa da prorrogação, quando todos já preparavam os nervos para a decisão por pênaltis, o lateral Grosso calou o estádio ao marcar um golaço. O desespero tomou conta dos germânicos, que deram espaço para Del Piero sacramentar a vitória por 2 a 0 nos acréscimos. A desacreditada Itália desbancou a favorita anfitriã. O caminho estava traçado.

Na decisão contra a França, o destino reservou mais uma disputa de pênaltis à Azzurra. Em 1994, o Brasil quebrou o jejum de 24 anos com a vitória sobre os italianos. Mas, desta vez, foi a vez de a Itália quebrar um tabu de 24 anos e comemorar. A vitória sobre a França por 5 a 3 nas cobranças levou o troféu para a Bota. Agora, a Azzurra aparece sozinha no hall das tetracampeãs (1934, 1938, 1982 e 2006), e só vê o Brasil à sua frente na relação de ganhadores. O elenco desmoralizado do início da Copa transformou-se no respeitado plantel que levou a Itália ao título. O futebol foi pragmático o tempo todo, mas provou-se eficiente. Mais uma vez, a seleção confirmou seu poder de reagir em meio à crise.

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