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Dois segundos mantêm Flávio
Canto nos tatames
Por Fernando Narazaki
O desespero era nítido. Depois de um combate muito equilibrado,
Flávio Canto tomou um golpe e ficou um yuko atrás de Tiago
Camilo. Se perdesse aquela luta, era o fim do sonho olímpico
e, provavelmente, de uma carreira de mais de 12 anos dedicados
totalmente ao esporte.
| Foto: Antonio Cottet/Gazeta Press |
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| Flavio Canto, (Azul) durante treino no
ginásio do Ibirapuera, em São Paulo |
Tudo mudou a dois segundos do final, quando Camilo foi punido
por falta de combatividade pela arbitragem e Canto assumiu
a frente no placar. Com isso, o judoca nascido na cidade inglesa
de Oxford, mas criado no Rio de Janeiro pôde enfim comemorar
a vaga olímpica em Atenas e, mais do que isso, a sobrevivência
da carreira.
”Não sei o que aconteceria comigo se tivesse perdido. Em
Sydney, quando perdi a seletiva, já foi muito difícil continuar.
Agora ia ser mais complicado ainda. Acho que minha carreira
ia acabar mesmo”, disse Canto, em entrevista exclusiva à Gazeta
Esportiva Net, após os treinos da seleção brasileira nessa
quinta-feira em São Paulo.
Caso perdesse, o judoca não teria mais o apoio de R$ 1,3
mil da Coca Cola, dado aos titulares da seleção, e ainda perderia
outros patrocinadores. “Ficaria sem nada. Teria de começar
tudo de novo e passar por uma situação mais difícil ainda.
Agora, foi como se tivesse tirado um peso das costas, deu
um alívio enorme, você nem imagina”, explicou.
O meio-médio não sabe estimar o quanto perderia, mas aponta
que o principal seria a motivação. “Na parte financeira, eu
nem sei quanto a derrota representaria. Mas, para mim pessoalmente,
ia ser o mais difícil”, comentou. Mesmo com a vaga, Canto
garante que não terá tranquilidade até as Olimpíadas.
”Não tenho tranqüilidade, não. A vida é muito difícil para
quem é praticante de um esporte como o judô, que quase não
tem retorno. Ainda sou dependente e moro com meus pais. A
situação só não está pior por causa disso”, afirmou o meio-médio,
que mostra preocupação com o seu futuro, após encerrar a trajetória
nos tatames.
”Tenho 28 anos e não sei o que vai ser de mim. Só não tenho
frustração, pois faço o que gosto. Adoro o judô, mas nunca
tive o retorno que esperava. Dá desânimo às vezes, mas tenho
de continuar”, avaliou Canto.
O judoca prefere não polemizar quando o assunto é o emprego
das verbas recebidas pela Confederação Brasileira de Judô,
através da Lei Piva. No ano passado, a entidade recebeu nada
menos que R$ 1.438.000, repassados pelo COB. Segundo a entidade,
boa parte do valor foi investido na preparação da seleção
olímpica, com a disputa de eventos internacionais.
”O valor é baixo. Se você for fazer a conta na ponta do
lápis, o valor não dá para muita coisa. Acho que o atleta
é a terceira prioridade da Confederação, que deve dar apoio
à estrutura e, depois, aos técnicos”, analisou o meio-médio,
que ressalta a necessidade de apoio de outras empresas. “Nós
precisamos de mais apoio. Sem estrutura não conseguiremos
nada”, disse.
Agora, Canto espera superar enfim os problemas e chegar
bem às Olimpíadas. “Procuro sempre pensar no dia seguinte
e minha meta é a medalha olímpica. Depois disso, eu não sei
o que vai acontecer comigo, mas até lá, vou me matar para
conseguir o máximo”, ressaltou Canto, que vai à sua segunda
Olimpíada. Em Atlanta-1996, ele caiu ainda na fase classificatória.
Antes disso, o judoca terá de esperar o julgamento do recurso
de Tiago Camilo no Superior Tribunal de Justiça Desportiva
(STJD), contestando o resultado da seletiva. “Dificilmente
o resultado do tatame muda, mas vamos esperar. O que posso
falar é que estou mais triste do que chateado”, explicou.
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