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09/04/2004
Dois segundos mantêm Flávio Canto nos tatames
Campeã mundial, argentina também sofre com falta de patrocínio

Dois segundos mantêm Flávio Canto nos tatames

Por Fernando Narazaki

O desespero era nítido. Depois de um combate muito equilibrado, Flávio Canto tomou um golpe e ficou um yuko atrás de Tiago Camilo. Se perdesse aquela luta, era o fim do sonho olímpico e, provavelmente, de uma carreira de mais de 12 anos dedicados totalmente ao esporte.

Foto: Antonio Cottet/Gazeta Press
Flavio Canto, (Azul) durante treino no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo

Tudo mudou a dois segundos do final, quando Camilo foi punido por falta de combatividade pela arbitragem e Canto assumiu a frente no placar. Com isso, o judoca nascido na cidade inglesa de Oxford, mas criado no Rio de Janeiro pôde enfim comemorar a vaga olímpica em Atenas e, mais do que isso, a sobrevivência da carreira.

”Não sei o que aconteceria comigo se tivesse perdido. Em Sydney, quando perdi a seletiva, já foi muito difícil continuar. Agora ia ser mais complicado ainda. Acho que minha carreira ia acabar mesmo”, disse Canto, em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva Net, após os treinos da seleção brasileira nessa quinta-feira em São Paulo.

Caso perdesse, o judoca não teria mais o apoio de R$ 1,3 mil da Coca Cola, dado aos titulares da seleção, e ainda perderia outros patrocinadores. “Ficaria sem nada. Teria de começar tudo de novo e passar por uma situação mais difícil ainda. Agora, foi como se tivesse tirado um peso das costas, deu um alívio enorme, você nem imagina”, explicou.

O meio-médio não sabe estimar o quanto perderia, mas aponta que o principal seria a motivação. “Na parte financeira, eu nem sei quanto a derrota representaria. Mas, para mim pessoalmente, ia ser o mais difícil”, comentou. Mesmo com a vaga, Canto garante que não terá tranquilidade até as Olimpíadas.

”Não tenho tranqüilidade, não. A vida é muito difícil para quem é praticante de um esporte como o judô, que quase não tem retorno. Ainda sou dependente e moro com meus pais. A situação só não está pior por causa disso”, afirmou o meio-médio, que mostra preocupação com o seu futuro, após encerrar a trajetória nos tatames.

”Tenho 28 anos e não sei o que vai ser de mim. Só não tenho frustração, pois faço o que gosto. Adoro o judô, mas nunca tive o retorno que esperava. Dá desânimo às vezes, mas tenho de continuar”, avaliou Canto.

O judoca prefere não polemizar quando o assunto é o emprego das verbas recebidas pela Confederação Brasileira de Judô, através da Lei Piva. No ano passado, a entidade recebeu nada menos que R$ 1.438.000, repassados pelo COB. Segundo a entidade, boa parte do valor foi investido na preparação da seleção olímpica, com a disputa de eventos internacionais.

”O valor é baixo. Se você for fazer a conta na ponta do lápis, o valor não dá para muita coisa. Acho que o atleta é a terceira prioridade da Confederação, que deve dar apoio à estrutura e, depois, aos técnicos”, analisou o meio-médio, que ressalta a necessidade de apoio de outras empresas. “Nós precisamos de mais apoio. Sem estrutura não conseguiremos nada”, disse.

Agora, Canto espera superar enfim os problemas e chegar bem às Olimpíadas. “Procuro sempre pensar no dia seguinte e minha meta é a medalha olímpica. Depois disso, eu não sei o que vai acontecer comigo, mas até lá, vou me matar para conseguir o máximo”, ressaltou Canto, que vai à sua segunda Olimpíada. Em Atlanta-1996, ele caiu ainda na fase classificatória.

Antes disso, o judoca terá de esperar o julgamento do recurso de Tiago Camilo no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), contestando o resultado da seletiva. “Dificilmente o resultado do tatame muda, mas vamos esperar. O que posso falar é que estou mais triste do que chateado”, explicou.

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