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12/08/2004
Brasil trabalha a cabeça para ficar no ponto certo
Brasil trabalha a cabeça para ficar no ponto certo
Cuidados aqui e agora

Por Marta Teixeira, colaborou Luís Ricardo Fini

Perder o sono, o controle dos músculos ou não conseguir lidar com a pressão até comprometer seu rendimento. Passar a noite em claro e, na hora de competir, sentir o coração disparar e quase nem conseguir respirar. Em véspera de Jogos Olímpicos, o controle emocional torna-se peça chave para quem quiser conquistar um bom resultado. Para tentar aplacar o problema, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), contratou o psicólogo Dietmar Samulski, que prestará assistência aos atletas na Vila Olímpica.

Ao contrário da fatídica experiência de Sydney-2000, quando optou pelas técnica polêmicas de Roberto Shinyashiki, o dessa vez o Comitê preferiu optar por um profissional com passado reconhecido na psicologia esportiva. Desde os Jogos australianos, Samulski trabalha com o Comitê Paraolímpico e é essa experiência que ele pretende utilizar na motivação dos novos clientes.

“Minha filosofia é a da psicologia aplicada ao esporte. Trabalho com vários objetivos. Entre eles, desenvolver as habilidades e capacidades psicológicas (dos atletas)”, afirma o especialista, que lida com preparação psicológica há 30 anos. Para atingir tal objetivo, Samulski recorre a técnicas de relaxamento, concentração, equilíbrio emocional e controle da ansiedade nas competições individuais. Nas coletivas, ele destaca a psicologia social, espírito de liderança e comunicação.

Racional, Samulski reconhece que suas possibilidades de atuação são limitadas, até em função do pouco tempo de integração com o grupo. “Não fui contratado para uma missão impossível. Não tenho como cuidar de todos, mas vou fazer o máximo possível para as equipes que me procurarem”, afirma.

No entanto, talvez escaldados pela experiência de Sydney talvez reticentes quanto a importância do psicológico na preparação, nem todos os olímpicos procuraram o especialista.

O triatlo foi um dos que preferiu “passar” e o técnico Marcos Paulo Reis explica por quê. “Se vai fazer tem que ser com mais tempo para fazer bem estruturado”. Ele reconhece que na reta final da preparação, contra adversários do mesmo nível, a hora é de “trabalhar a cabeça porque esse é um esporte muito duro”. Aí, cabe mesmo ao treinador tentar fazer sua parte. “Conversar com eles, motivar. Saber como falar”.

No basquete feminino, que também não recorreu a Samulski, o técnico Antonio Carlos Barbosa segue a mesma linha. “Você tem que lidar com a jogadora com o emocional. Um técnico não pode ter problema emocional nenhum, tem que controlar o sentimento. Ele é o espelho do grupo. Eu trago a pressão sobre mim, imagine se deixo isso para elas”.

O próprio psicólogo admite que o tempo está contra ele. “O ideal seria a longo prazo. Dois anos (de integração) seriam o ideal. Mas não vou ser nenhum salvador da pátria. Esse é um desafio, um risco trabalhar em tão pouco tempo, mas a gente sempre pode fazer algo”.

Pensando assim, ele está elaborando uma cartilha sobre pressão psicológica para que os competidores saibam se relacionar com cobranças, vitórias e fracassos, principalmente para os estreantes. O manual também deverá conter dicas de respiração e outras técnicas de relaxamento, além de informações específicas para os treinadores.

Para Samulski, a psicologia esportiva identifica três tipos básicos de atletas que variam sua reação sob pressão de acordo com a personalidade: o bem preparado e com alto nível de ativação e concentração; o jovem com alto nível de ansiedade e o apático. No primeiro grupo, os do estado de atenção, incluem-se, geralmente, os mais experientes, que já aprenderam a lidar com as cobranças; no segundo (os em estado de agitação) estão os que se deixam levar pela pressão. Os apáticos são os que, pressionados, perdem a motivação e podem até ter vontade de abandonar a competição.

“Nessas situações é muito importante que o treinador saiba orientar porque o psicólogo não pode estar lá na hora da competição. O treinador é quem vai trabalhar a diferença entre ansiedade e motivação”, explica. “Por isso minha preocupação é a ligação com o treinador”.

Se ainda não pôde fazer muito na fase de preparação olímpica, o psicólogo pretende ser um porto seguro na Vila Olímpica. “Com certeza poderei ajudar a controlar a ansiedade pré-competitiva. Pela minha experiência sei que se chegam na final, muitos têm problema para dormir e o atleta tem que dormir bem. Também posso orientar sobre exercícios para fazer meia ou 1 hora antes e controlar a ansiedade”.

As atividades de Samulski para o COB começaram há três meses. O primeiro passo foi entrar em contato com profissionais que já atendiam aos atletas e Confederações para obter informações prévias. Em muitas modalidades não havia a assistência psicológica e, aquelas que o procuraram, ele encaminhou para uma equipe de confiança dar atendimento.

“O ideal seria que cada seleção tivesse seu psicólogo como tem fisioterapeuta e médico. Mas existem técnicos que não acreditam em psicologia”, reconhece. Apesar disso, ele diz que a preocupação com esse aspecto da preparação tem crescido. “Praticamente metade dos atletas tem preparação psicológica. Em Sydney, eram só dez ou 20. Esse é nosso primeiro contato, se der certo com certeza para os próximos Jogos a situação será diferente”.

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