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30/12/05
Foto: Luciane Santos

Por Marcelo Cazavia e Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Palco de momentos históricos do esporte nacional, como a dobradinha de Nelson Piquet e Ayrton Senna no GP Brasil de 1986, o autódromo de Jacarepaguá está no centro de uma das maiores polêmicas do Pan-americano de 2007. De um lado, pilotos, membros de equipes e dirigentes do automobilismo contrários a qualquer tipo de obra que não beneficie o ronco dos motores no terreno do circuito. De outro, a prefeitura do Rio de Janeiro, que pretende construir uma arena multiesportiva, um complexo aquático e um velódromo (temporário) no local.

Orçadas em 300 milhões de reais, as obras no autódromo de Jacarepaguá deveriam ter sido iniciadas em janeiro de 2005. O atraso se deve à falta de recursos da Rio Sport Plaza, empresa que ganhou a primeira licitação para realizar obras no local, mas que acabou desistindo do consórcio no final deste ano, alegando não possuir investidores. Além disso, a forte oposição da comunidade automobilística nacional, que promete ser uma grande pedra no sapato da prefeitura carioca, também é um problema a ser resolvido pela organização do Pan.

Foto: Divulgação

Cláudio Caparelli, piloto da Stock Car V8 Light

"Se eles começarem a mexer no autódromo, a gente pára as obras com uma liminar", garante Cláudio Caparelli, piloto da Stock Car V8 Light e líder do "SOS Autódromo", movimento criado em outubro de 2004 que pretende evitar as intervenções em Jacarepaguá por conta dos Jogos. Em março de 2004, ele entrou com uma ação da 4ª Vara da Fazenda Pública do Rio de Janeiro contestando a utilização do circuito no Pan. A alegação utilizada será a de que, na época em que o governo do Estado cedeu a concessão do autódromo à prefeitura, o terreno de Jacarepaguá foi retirado do inventário da Rio Previdência sem que um outro bem fosse oferecido em troca.

O piloto também fez uma representação junto ao Ministério Público do Rio de Janeiro, mesma atitude que tomou a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) no último 12 de dezembro. No mesmo dia, a CBA também deu entrada em uma representação no Tribunal de Contas, alegando que as obras no circuito vão gerar dívidas e não um legado para o Rio de Janeiro.

"É uma falta de respeito com os pilotos e com a CBA mexer em Jacarepaguá sem que a opinião da Federação Internacional de Automobilismo e a Federação Internacional de Motociclismo sejam ouvidas", afirma Sérgio de Britto, advogado que defendia tanto a CBA quanto Caparell até janeiro de 2006 (em fevereiro de 2006 todo o trabalho passou a ser concentrado em cima do recurso da Confederação, representada por Felippe Zeraik). "Além disso, em outubro de 2005, o Ministério Público Estadual enviou uma recomendação para a Secretaria Especial do Pan: tanto o município do Rio de Janeiro quanto o consórcio vencedor deveriam se abster de qualquer modificação no autódromo", emenda. A "SOS Autódromo" e a CBA dizem estar trabalhando juntas para não deixar Jacarepaguá participar do Pan. "O posicionamento é conjunto porque estamos defendendo o mesmo interesse, que é a preservação do autódromo. Não temos nada contra e não queremos prejudicar o Pan", afirma Paulo Sclaglione, presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).

"Ninguém entende porque eles querem fazer estas obras no autódromo", afirma Caparelli que, ao lado de André Buriti, outro membro do movimento, apresentou à GE.Net diversos motivos para a preservação de Jacarepaguá. "A atividade automobilística no Rio de Janeiro pode ser lucrativa e viável, mas para isso precisamos do autódromo inteiro, e não dividido, cedendo parte de seu traçado para construções que podem ser feitas em qualquer outro local. O potencial de realizações que pode ser levado a cabo dentro daquele espaço é capaz de gerar empregos, renda e diversão permanentemente", garante Buriti.

Ele vê nas atitudes da prefeitura um objetivo fora da esfera esportiva. "O real interesse da prefeitura é a especulação imobiliária, não o automobilismo", diz, atentando para o fato de o terreno do circuito não estar mais localizado em Jacarepaguá, mas sim na Barra da Tijuca, um dos bairros mais nobres da cidade, graças a uma mudança efetuada pelo governo da cidade para supostamente valorizar o terreno. "Não dá para entender esta atitude da prefeitura. Acho que eles não devem gostar de automobilismo", comenta Sclaglione.

Para compensar os investimentos da Rio Sport Plaza, a prefeitura do Rio de Janeiro viabilizou a construção de sete prédios residenciais de 12 andares e um hotel de 22 andares no terreno do autódromo. Ou seja, após o Pan de 2007, o antigo autódromo se tornaria um grande complexo com pista de automobilismo, ginásio esportivo, parque aquático, residências e hotel. A garantia, em caso de calote do vencedor da licitação, seria a própria prefeitura carioca, que, após a desistência da Rio Sport Plaza, assumiu a responsabilidade das obras. Um dos motivos para a saída do consórcio, que teve uma proposta de financiamento para as construções negada junto ao BNDES, seria a falta de investidores interessados no local.

Ao lado de Interlagos como as únicas pistas brasileiras com homologação na Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para receber a Fórmula 1, o traçado de Jacarepaguá seria encurtado dos atuais 4.933 m para aproximadamente 3 mil metros pelo projeto inicial, mas o prefeito César Maia, no último mês de novembro, desistiu de mexer na pista. Mesmo assim, continua não agradando aos opositores, que utilizam como argumento o projeto de Lei 3758, de 25 de maio de 2004, de autoria do vereador Wagner Siqueira (PFL), que autoriza a concessão da pista e do entorno dela. "Mesmo que eles não mexam mais no traçado, as áreas de escape e a pista de segurança vão ficar prejudicadas. Eles vão fazer uma curva que termina em uma parede?", questiona Caparelli.

Exatamente por não mexer mais no traçado, Maia acredita que não precisa mais do aval da CBA para a realização das obras, o que é contestado pela Confederação. "O prefeito está confundindo pista com autódromo. Ele acha que se ficar apenas o asfalto no meio das construções a pista está preservada, e não é assim. Qualquer construção dentro de Jacarepaguá vai intervir", comenta Sclaglione. "Quem entrar no autódromo vai ver que não há espaço físico para essas construções, a menos que se mutile parte do circuito", completa Buriti.

Os amantes do automobilismo também contestam a qualidade do terreno de Jacarepaguá. Localizado no aterro do Flamengo, o solo do autódromo, em muitos pontos, tem o lençol freático localizado próximo à superfície, o que elevaria os custos das obras no local. A instabilidade do solo é, inclusive, o motivo pelo qual a Fórmula Truck não conta com uma etapa em Jacarepaguá. "Além disso, para fazer uma construção lá, os engenheiros vão ter que abaixar o lenço freático e isso vai ondular a pista", garante Caparelli.

O kartódromo existente no local também é motivo de polêmica. Reconstruído em outra área do autódromo pelos usuários - que dizem ter investido 250 mil reais (valores de 2001) - após a destruição da primeira pista para a construção do oval, obra do então prefeito Maia, o novo traçado também seria destruído. "Essa área foi cedida pelo Luiz Paulo Conde para compensar a destruição, mas como a concessão era precária, o Maia a retomou por conta do Pan. Todos sabiam que era arriscado, mas não acreditavam nesta hipótese", comenta o piloto da Stock Light.

Segundo o "SOS Autódromo" e a CBA, a prefeitura carioca também estaria deixando a manutenção ruim deliberadamente, para ganhar o apoio da opinião pública e realizar as obras. "Está tudo abandonado. A gente faz a manutenção à medida que tem corrida programada. Na última prova da Stock Car, eles tiveram que cortar a grama. É uma pena, porque o autódromo é muito bonito", afirma Sclaglione. "O mato está alto e os banheiros estão quebrados. A prefeitura está deixando tudo precário", ressalta Caparelli, que alega que o preço cobrado para a utilização do local (R$ 3.800/dia) é alto, mas cobrado exatamente para se evitar o uso da pista. "Com este preço não dá para treinar lá. Só ocorrem algumas corridas mesmo", comenta. No entanto, a reportagem da GE.Net apurou que a diária de Interlagos foi ainda maior durante o ano de 2005: R$ 7.500.

Com o objetivo de reviver os velhos tempos do autódromo carioca, Caparelli fundou uma associação que conta com mais de 40 pilotos cariocas e que pretende pleitear a administração do autódromo junto ao governo do Estado do Rio de Janeiro, dono da área. "Nossa idéia é viabilizar o uso do autódromo, além de usar o centro médico do autódromo para atender a população do entorno e criar escolas profissionalizantes de mecânica para jovens carentes", planeja o piloto.

Segundo ele, o projeto, que está sendo formulado, contaria com o auxílio de uma lei de incentivo fiscal do Rio de Janeiro para atrair a iniciativa privada e garantir a manutenção. "As empresas que teriam interesse de vincular sua marca ao autódromo se uniriam conosco. Já até estamos conversando com duas empresas. A gente não precisa de incentivo público", afirma. "A parte mais difícil é convencer o governo do Estado, mas estamos tentando uma reunião com eles e também com a prefeitura", completa.

A CBA, por sua vez, prefere não se envolver na administração de Jacarepaguá. "O dever da Confederação é supervisionar o automobilismo, assim como, por enquanto, o do Estado é preservar a praça esportiva. É o mesmo que uma fábrica de meias querer fabricar cadernos", comenta Sclaglione. Entre os lugares apontados para a construção do ginásio multiesportivo, do velódromo e do complexo aquático, estão o Maracanãzinho, as piscinas de Copacabana e as instalações de clubes esportivos da cidade. "Em alguns lugares as obras sairiam até mais barato. Não entendo porque eles ainda insistem em mexer em Jacarepaguá", afirma Caparelli.

Apesar de não terem saído da estaca zero nas negociações com a Rio Sport Plaza e de alegarem nunca terem sido recebidos pela prefeitura do Rio de Janeiro, a CBA e os integrantes do "SOS Autódromo" estão otimistas que conseguirão evitar as intervenções em Jacarepaguá. "Não existe lei que ampare a prefeitura nesta obra. Não há a necessidade de mexer no local", comenta Sclaglione. "Não tem como a gente perder esta causa. Se isso acontecer, é melhor que todo mundo saia do país, porque a prefeitura vai estar passando por cima de leis", garante Caparelli.

Outro lado - Enquanto os opositores das obras em Jacarepaguá prometem recorrer à Justiça para impedir as intervenções no circuito, César Maia está tranqüilo quanto a utilização do local na competição. "Se eles entrarem com liminar para impedir as obras, vamos aguardar a decisão da Justiça, democraticamente", comentou o prefeito do Rio de Janeiro, em entrevista por e-mail para a GE.Net. Ele também explicou porque não pediu a opinião da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e dos pilotos a respeito das mudanças no autódromo. "Isso não foi feito porque não vamos mexer no traçado", diz.

Por outro lado, Maia admite que a desistência da Rio Sport Plaza prejudicou o planejamento inicial feito pela prefeitura. Uma nova data para o término das obras já está estipulada. "O consórcio alegou problemas com o patrocínio, mas até abril de 2007 tudo deve estar pronto", acredita. O prefeito ainda não concorda com as críticas feitas ao novo projeto de mudanças em Jacarepaguá, que, segundo os opositores, apesar de não mexer mais no traçado, vai prejudicar as áreas de escape e pista de segurança, entre outros. "Não foi isso que os técnicos me falaram. Pelo contrário", afirma. Segundo ele, também não é verdade que a manutenção do autódromo esteja precária.

Maia também não vê problemas no fato do solo de Jacarepaguá não ser o ideal: "É tudo uma questão de engenharia e custo da obra". O prefeito, que alega nunca ter ouvido falar que a Rio Previdência saiu perdendo com a concessão do terreno do circuito de Jacarepaguá para a prefeitura, também considera que a construção de sete prédios de 12 andares e um hotel em Jacarepaguá não tem relação direta com o circuito. "Há uma lei autorizando a prefeitura a ressarcir os investimentos no Pan, mas isso nada tem a ver com o autódromo", comenta.

O prefeito também alega que só a Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa) tem autorização para a mudança dos locais já pré-estabelecidos para sediar o Pan de 2007, mas afirma que o automobilismo traz boas coisas para o Rio de Janeiro. "Todos os eventos internacionais são lucrativos para a cidade", encerra. Procurado pela reportagem na GE.Net, o secretário especial do Pan, Ruy Cesar Miranda Reis, não foi encontrado.

 
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