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Por Marcelo Cazavia e Carolina
Canossa, especial para a GE.Net
Palco de momentos históricos do esporte nacional,
como a dobradinha de Nelson Piquet e Ayrton Senna no GP Brasil
de 1986, o autódromo de Jacarepaguá está
no centro de uma das maiores polêmicas do Pan-americano
de 2007. De um lado, pilotos, membros de equipes e dirigentes
do automobilismo contrários a qualquer tipo de obra
que não beneficie o ronco dos motores no terreno do
circuito. De outro, a prefeitura do Rio de Janeiro, que pretende
construir uma arena multiesportiva, um complexo aquático
e um velódromo (temporário) no local.
Orçadas em 300 milhões de reais, as obras no
autódromo de Jacarepaguá deveriam ter sido iniciadas
em janeiro de 2005. O atraso se deve à falta de recursos
da Rio Sport Plaza, empresa que ganhou a primeira licitação
para realizar obras no local, mas que acabou desistindo do
consórcio no final deste ano, alegando não possuir
investidores. Além disso, a forte oposição
da comunidade automobilística nacional, que promete
ser uma grande pedra no sapato da prefeitura carioca, também
é um problema a ser resolvido pela organização
do Pan.
| Foto: Divulgação |
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Cláudio Caparelli, piloto da Stock Car
V8 Light
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"Se eles começarem a mexer no autódromo,
a gente pára as obras com uma liminar", garante
Cláudio Caparelli, piloto da Stock Car V8 Light e líder
do "SOS Autódromo", movimento criado em outubro
de 2004 que pretende evitar as intervenções
em Jacarepaguá por conta dos Jogos. Em março
de 2004, ele entrou com uma ação da 4ª
Vara da Fazenda Pública do Rio de Janeiro contestando
a utilização do circuito no Pan. A alegação
utilizada será a de que, na época em que o governo
do Estado cedeu a concessão do autódromo à
prefeitura, o terreno de Jacarepaguá foi retirado do
inventário da Rio Previdência sem que um outro
bem fosse oferecido em troca.
O piloto também fez uma representação
junto ao Ministério Público do Rio de Janeiro,
mesma atitude que tomou a Confederação Brasileira
de Automobilismo (CBA) no último 12 de dezembro. No
mesmo dia, a CBA também deu entrada em uma representação
no Tribunal de Contas, alegando que as obras no circuito vão
gerar dívidas e não um legado para o Rio de
Janeiro.
"É uma falta de respeito com os pilotos e com
a CBA mexer em Jacarepaguá sem que a opinião
da Federação Internacional de Automobilismo
e a Federação Internacional de Motociclismo
sejam ouvidas", afirma Sérgio de Britto, advogado
que defendia tanto a CBA quanto Caparell até janeiro
de 2006 (em fevereiro de 2006 todo o trabalho passou a ser
concentrado em cima do recurso da Confederação,
representada por Felippe Zeraik). "Além disso,
em outubro de 2005, o Ministério Público Estadual
enviou uma recomendação para a Secretaria Especial
do Pan: tanto o município do Rio de Janeiro quanto
o consórcio vencedor deveriam se abster de qualquer
modificação no autódromo", emenda.
A "SOS Autódromo" e a CBA dizem estar trabalhando
juntas para não deixar Jacarepaguá participar
do Pan. "O posicionamento é conjunto porque estamos
defendendo o mesmo interesse, que é a preservação
do autódromo. Não temos nada contra e não
queremos prejudicar o Pan", afirma Paulo Sclaglione,
presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo
(CBA).
"Ninguém entende porque eles querem fazer estas
obras no autódromo", afirma Caparelli que, ao
lado de André Buriti, outro membro do movimento, apresentou
à GE.Net diversos motivos para a preservação
de Jacarepaguá. "A atividade automobilística
no Rio de Janeiro pode ser lucrativa e viável, mas
para isso precisamos do autódromo inteiro, e não
dividido, cedendo parte de seu traçado para construções
que podem ser feitas em qualquer outro local. O potencial
de realizações que pode ser levado a cabo dentro
daquele espaço é capaz de gerar empregos, renda
e diversão permanentemente", garante Buriti.
Ele vê nas atitudes da prefeitura um objetivo fora
da esfera esportiva. "O real interesse da prefeitura
é a especulação imobiliária, não
o automobilismo", diz, atentando para o fato de o terreno
do circuito não estar mais localizado em Jacarepaguá,
mas sim na Barra da Tijuca, um dos bairros mais nobres da
cidade, graças a uma mudança efetuada pelo governo
da cidade para supostamente valorizar o terreno. "Não
dá para entender esta atitude da prefeitura. Acho que
eles não devem gostar de automobilismo", comenta
Sclaglione.
Para compensar os investimentos da Rio Sport Plaza, a prefeitura
do Rio de Janeiro viabilizou a construção de
sete prédios residenciais de 12 andares e um hotel
de 22 andares no terreno do autódromo. Ou seja, após
o Pan de 2007, o antigo autódromo se tornaria um grande
complexo com pista de automobilismo, ginásio esportivo,
parque aquático, residências e hotel. A garantia,
em caso de calote do vencedor da licitação,
seria a própria prefeitura carioca, que, após
a desistência da Rio Sport Plaza, assumiu a responsabilidade
das obras. Um dos motivos para a saída do consórcio,
que teve uma proposta de financiamento para as construções
negada junto ao BNDES, seria a falta de investidores interessados
no local.
Ao lado de Interlagos como as únicas pistas brasileiras
com homologação na Federação Internacional
de Automobilismo (FIA) para receber a Fórmula 1, o
traçado de Jacarepaguá seria encurtado dos atuais
4.933 m para aproximadamente 3 mil metros pelo projeto inicial,
mas o prefeito César Maia, no último mês
de novembro, desistiu de mexer na pista. Mesmo assim, continua
não agradando aos opositores, que utilizam como argumento
o projeto de Lei 3758, de 25 de maio de 2004, de autoria do
vereador Wagner Siqueira (PFL), que autoriza a concessão
da pista e do entorno dela. "Mesmo que eles não
mexam mais no traçado, as áreas de escape e
a pista de segurança vão ficar prejudicadas.
Eles vão fazer uma curva que termina em uma parede?",
questiona Caparelli.
Exatamente por não mexer mais no traçado, Maia
acredita que não precisa mais do aval da CBA para a
realização das obras, o que é contestado
pela Confederação. "O prefeito está
confundindo pista com autódromo. Ele acha que se ficar
apenas o asfalto no meio das construções a pista
está preservada, e não é assim. Qualquer
construção dentro de Jacarepaguá vai
intervir", comenta Sclaglione. "Quem entrar no autódromo
vai ver que não há espaço físico
para essas construções, a menos que se mutile
parte do circuito", completa Buriti.
Os amantes do automobilismo também contestam a qualidade
do terreno de Jacarepaguá. Localizado no aterro do
Flamengo, o solo do autódromo, em muitos pontos, tem
o lençol freático localizado próximo
à superfície, o que elevaria os custos das obras
no local. A instabilidade do solo é, inclusive, o motivo
pelo qual a Fórmula Truck não conta com uma
etapa em Jacarepaguá. "Além disso, para
fazer uma construção lá, os engenheiros
vão ter que abaixar o lenço freático
e isso vai ondular a pista", garante Caparelli.
O kartódromo existente no local também é
motivo de polêmica. Reconstruído em outra área
do autódromo pelos usuários - que dizem ter
investido 250 mil reais (valores de 2001) - após a
destruição da primeira pista para a construção
do oval, obra do então prefeito Maia, o novo traçado
também seria destruído. "Essa área
foi cedida pelo Luiz Paulo Conde para compensar a destruição,
mas como a concessão era precária, o Maia a
retomou por conta do Pan. Todos sabiam que era arriscado,
mas não acreditavam nesta hipótese", comenta
o piloto da Stock Light.
Segundo o "SOS Autódromo" e a CBA, a prefeitura
carioca também estaria deixando a manutenção
ruim deliberadamente, para ganhar o apoio da opinião
pública e realizar as obras. "Está tudo
abandonado. A gente faz a manutenção à
medida que tem corrida programada. Na última prova
da Stock Car, eles tiveram que cortar a grama. É uma
pena, porque o autódromo é muito bonito",
afirma Sclaglione. "O mato está alto e os banheiros
estão quebrados. A prefeitura está deixando
tudo precário", ressalta Caparelli, que alega
que o preço cobrado para a utilização
do local (R$ 3.800/dia) é alto, mas cobrado exatamente
para se evitar o uso da pista. "Com este preço
não dá para treinar lá. Só ocorrem
algumas corridas mesmo", comenta. No entanto, a reportagem
da GE.Net apurou que a diária de Interlagos foi ainda
maior durante o ano de 2005: R$ 7.500.
Com o objetivo de reviver os velhos tempos do autódromo
carioca, Caparelli fundou uma associação que
conta com mais de 40 pilotos cariocas e que pretende pleitear
a administração do autódromo junto ao
governo do Estado do Rio de Janeiro, dono da área.
"Nossa idéia é viabilizar o uso do autódromo,
além de usar o centro médico do autódromo
para atender a população do entorno e criar
escolas profissionalizantes de mecânica para jovens
carentes", planeja o piloto.
Segundo ele, o projeto, que está sendo formulado,
contaria com o auxílio de uma lei de incentivo fiscal
do Rio de Janeiro para atrair a iniciativa privada e garantir
a manutenção. "As empresas que teriam interesse
de vincular sua marca ao autódromo se uniriam conosco.
Já até estamos conversando com duas empresas.
A gente não precisa de incentivo público",
afirma. "A parte mais difícil é convencer
o governo do Estado, mas estamos tentando uma reunião
com eles e também com a prefeitura", completa.
A CBA, por sua vez, prefere não se envolver na administração
de Jacarepaguá. "O dever da Confederação
é supervisionar o automobilismo, assim como, por enquanto,
o do Estado é preservar a praça esportiva. É
o mesmo que uma fábrica de meias querer fabricar cadernos",
comenta Sclaglione. Entre os lugares apontados para a construção
do ginásio multiesportivo, do velódromo e do
complexo aquático, estão o Maracanãzinho,
as piscinas de Copacabana e as instalações de
clubes esportivos da cidade. "Em alguns lugares as obras
sairiam até mais barato. Não entendo porque
eles ainda insistem em mexer em Jacarepaguá",
afirma Caparelli.
Apesar de não terem saído da estaca zero nas
negociações com a Rio Sport Plaza e de alegarem
nunca terem sido recebidos pela prefeitura do Rio de Janeiro,
a CBA e os integrantes do "SOS Autódromo"
estão otimistas que conseguirão evitar as intervenções
em Jacarepaguá. "Não existe lei que ampare
a prefeitura nesta obra. Não há a necessidade
de mexer no local", comenta Sclaglione. "Não
tem como a gente perder esta causa. Se isso acontecer, é
melhor que todo mundo saia do país, porque a prefeitura
vai estar passando por cima de leis", garante Caparelli.
Outro lado - Enquanto os opositores das obras em Jacarepaguá
prometem recorrer à Justiça para impedir as
intervenções no circuito, César Maia
está tranqüilo quanto a utilização
do local na competição. "Se eles entrarem
com liminar para impedir as obras, vamos aguardar a decisão
da Justiça, democraticamente", comentou o prefeito
do Rio de Janeiro, em entrevista por e-mail para a GE.Net.
Ele também explicou porque não pediu a opinião
da Confederação Brasileira de Automobilismo
(CBA) e dos pilotos a respeito das mudanças no autódromo.
"Isso não foi feito porque não vamos mexer
no traçado", diz.
Por outro lado, Maia admite que a desistência da Rio
Sport Plaza prejudicou o planejamento inicial feito pela prefeitura.
Uma nova data para o término das obras já está
estipulada. "O consórcio alegou problemas com
o patrocínio, mas até abril de 2007 tudo deve
estar pronto", acredita. O prefeito ainda não
concorda com as críticas feitas ao novo projeto de
mudanças em Jacarepaguá, que, segundo os opositores,
apesar de não mexer mais no traçado, vai prejudicar
as áreas de escape e pista de segurança, entre
outros. "Não foi isso que os técnicos me
falaram. Pelo contrário", afirma. Segundo ele,
também não é verdade que a manutenção
do autódromo esteja precária.
Maia também não vê problemas no fato
do solo de Jacarepaguá não ser o ideal: "É
tudo uma questão de engenharia e custo da obra".
O prefeito, que alega nunca ter ouvido falar que a Rio Previdência
saiu perdendo com a concessão do terreno do circuito
de Jacarepaguá para a prefeitura, também considera
que a construção de sete prédios de 12
andares e um hotel em Jacarepaguá não tem relação
direta com o circuito. "Há uma lei autorizando
a prefeitura a ressarcir os investimentos no Pan, mas isso
nada tem a ver com o autódromo", comenta.
O prefeito também alega que só a Organização
Desportiva Pan-Americana (Odepa) tem autorização
para a mudança dos locais já pré-estabelecidos
para sediar o Pan de 2007, mas afirma que o automobilismo
traz boas coisas para o Rio de Janeiro. "Todos os eventos
internacionais são lucrativos para a cidade",
encerra. Procurado pela reportagem na GE.Net, o secretário
especial do Pan, Ruy Cesar Miranda Reis, não foi encontrado.
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