Voltar para a home Terça, 02 de Dezembro de 2008 Home Fale conosco. Receba o boletim   Ir para a Gazeta Press
 
16/01/06
Foto: Divulgação
Dobradinha deve ter futuro longo

O feito de Jaqueline só encontra paralelo na trajetória do barreirista Matheus Inocêncio. Em 2002, ele fez sua estréia olímpica na equipe de bobsled de quatro nos Jogos de Inverno de Salt Lake City. Dois anos depois, ele fez as malas e seguiu para Atenas, competindo nos 110m com barreiras.

Buscar novos desafios em outras modalidades nunca foi um problema para Jaqueline, que tem uma longa experiência em outras praias. Praticou natação, ginástica artística e aeróbica, vôlei, basquete, musculação até chegar ao mountain bike, aos 15 anos. “Esse é o esporte que adoro, que sempre procurei”, lembra de ter sentido ao descobrir o MTB.

Treze anos depois, a sensação foi mais ou menos a mesma com o esqui. “O cross country tem tudo a ver com mountain. É muita subida, descida, trilhas. O trabalho cardiovascular é muito parecido. São dois esportes que exigem bastante do corpo e no aspecto mental”.

Mas assim como Inocêncio, Jaqueline também não pensa em trocar de vez o MTB pelo esqui e sonha com o Pan-americano Rio-2007 e com as Olimpíadas de Pequim-2008. “Isso (optar por uma modalidade) depende do que está por vir. Ainda tenho planos para o Pan e para 2008 com o mountain bike e com o cross ainda penso no Mundial de 2007 e em 2010 (Vancouver). A priori não penso em deixar nem um nem outro”.

Nem mesmo a coincidência de realização entre o Pan e o Mundial do próximo ano abalam sua convicção. “O Mundial vai ser em Curaçao, em abril. Vai ser um mês de transição entre um esporte e outro, é o suficiente”.

Por enquanto, conciliar as duas modalidades também não tem sido um problema. Mas exige disciplina. “Uma hora pode ser (complicado), mas o mais importante é respeitar a época de descanso e o calendário que você estabeleceu para não ter overtraining (excesso de treinamento) ou burnout, aquele cansaço que você não consegue nem olhar para a bicicleta ou para o esqui”.

Jaqueline faz história na trilha e na neve

Por Marta Teixeira

Fazer história não é novidade na trajetória da ciclista Jaqueline Mourão. A mineira de 29 anos foi a primeira brasileira a obter classificação olímpica em mountain bike, participando dos Jogos de Atenas-2004. No último domingo, ela repetiu a dose de ineditismo. Depois de descobrir o esqui como alternativa para manter o trabalho físico durante o rigoroso inverno canadense, ela decidiu encarar a modalidade com mais seriedade e, segundo a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), obteve a classificação para a prova de esqui cross country nos Jogos de Inverno de Turim-2006. Com isso, ela será a primeira mulher brasileira a competir nos Jogos de Verão e de Inverno.

Foto: Divulgação

Dos seis anos de ginástica olímpica, Jaqueline trouxe o equilíbrio para o esqui

“Nunca imaginei isso. A ficha está caindo agora. Quando comecei a competir (no esqui) só pensava em fazer o melhor. Mas é mentalmente muito bom disputar outra modalidade. No meu caso, sempre busquei desafios e só tenho um objetivo: representar bem o meu país em um modalidade ou na outra”.

Os Jogos de Turim começam dia 10 de fevereiro e Jaqueline tornou-se a quinta brasileira classificada para o evento. Além dela, têm vaga Nikolai Hentsch (esqui alpino), Mirella Arnhold (esqui alpino), Isabel Clark (snowboard) e Hélio Freitas (cross country).

Jaqueline só viaja para a Itália no dia 4. “Vou participar de algumas provas regionais em Quebec, tenho neve e não preciso procurar outra estrutura”, explica a ciclista/esquiadora, que mora a 50 km da capital canadense há dois anos e faz juras de amor à nova modalidade. “Adorei, tô apaixonada”.

Mas a paixão decididamente não foi à primeira vista. Em 2002, quando estava na Suíça participando do programa de Solidariedade Olímpica do Comitê Olímpico Internacional pelo mountain bike, Jaqueline teve o primeiro contato com o esporte na neve. “Odiei”, confessa, rindo. Em 2004, na Áustria, ela fez uma nova tentativa. Também detestou. “Me sentia instável demais”, confessa. Somente em maio de 2005, ela verdadeiramente conheceu o esporte e tudo de maneira casual.

Normalmente no inverno, ela e o marido Guido Visser (campeão mundial masters de MTB e que competiu nas Olimpíadas de Inverno de Nagano-98) viajavam para aproveitar as férias no calor brasileiro. Mas por causa de um curso de Visser, eles acabaram ficando no Canadá. “Chegamos no final de abril, começo de maio. Fiquei três dias sem poder treinar ciclismo por causa da neve quando o Guido me disse: vamos esquiar”.

A estratégia não é inédita. Muitas atletas de ponta do MTB têm o esqui como segundo esporte. “A campeã olímpica (a norueguesa Gunn-Rita Dahle) e a vice (a canadense Marie-Helene Premont) utilizam o cross esqui na preparação”, garante Jaqueline. “A tcheca campeã olímpica de esqui também pratica o MTB no verão. A relação de transferência de benefícios entre as duas modalidades está comprovada”.

Superado o estranhamento que levou à pergunta inicial do primeiro contato: onde é que freia isso?, e de fechar a temporada de ciclismo, em outubro, ela decidiu investir pesado para chegar à classificação para Turim. “Ainda não tinha neve e comecei a treinar no roller esqui (deslizamento proporcionado por uma rodinha na base do esqui), a esquiar na areia e em campo de golfe. Procurei o máximo de informação. Nestes três meses, assisti a vídeos, trabalhei muito o braço, que é algo que não trabalhamos tanto na mountain. Foram meses intensos, vivi 24 horas para isso”.

Ela aprendeu a dinâmica do novo movimento, aprendeu a olhar onde pisar no percurso e identificar o que era gelo ou não. A recompensa veio após cinco competições internacionais na Europa (duas na Áustria, duas na Itália e uma na Suíça) e com a primeira colocação no ranking brasileiro, que lhe garantiu a classificação olímpica. Agora, sua prioridade é fazer bonito em Turim e lutar por um bom resultado. “Acho que a olimpíada pode ser meu melhor resultado”, garante.

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