| Dobradinha
deve ter futuro longo
O feito de Jaqueline só encontra paralelo
na trajetória do barreirista Matheus Inocêncio.
Em 2002, ele fez sua estréia olímpica
na equipe de bobsled de quatro nos Jogos de Inverno
de Salt Lake City. Dois anos depois, ele fez as
malas e seguiu para Atenas, competindo nos 110m
com barreiras.
Buscar novos desafios em outras modalidades nunca
foi um problema para Jaqueline, que tem uma longa
experiência em outras praias. Praticou natação,
ginástica artística e aeróbica,
vôlei, basquete, musculação
até chegar ao mountain bike, aos 15 anos.
Esse é o esporte que adoro, que sempre
procurei, lembra de ter sentido ao descobrir
o MTB.
Treze anos depois, a sensação foi
mais ou menos a mesma com o esqui. O cross
country tem tudo a ver com mountain. É
muita subida, descida, trilhas. O trabalho cardiovascular
é muito parecido. São dois esportes
que exigem bastante do corpo e no aspecto mental.
Mas assim como Inocêncio, Jaqueline também
não pensa em trocar de vez o MTB pelo esqui
e sonha com o Pan-americano Rio-2007 e com as
Olimpíadas de Pequim-2008. Isso (optar
por uma modalidade) depende do que está
por vir. Ainda tenho planos para o Pan e para
2008 com o mountain bike e com o cross ainda penso
no Mundial de 2007 e em 2010 (Vancouver). A priori
não penso em deixar nem um nem outro.
Nem mesmo a coincidência de realização
entre o Pan e o Mundial do próximo ano
abalam sua convicção. O Mundial
vai ser em Curaçao, em abril. Vai ser um
mês de transição entre um
esporte e outro, é o suficiente.
Por enquanto, conciliar as duas modalidades também
não tem sido um problema. Mas exige disciplina.
Uma hora pode ser (complicado), mas o mais
importante é respeitar a época de
descanso e o calendário que você
estabeleceu para não ter overtraining (excesso
de treinamento) ou burnout, aquele cansaço
que você não consegue nem olhar para
a bicicleta ou para o esqui.
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Jaqueline faz história na trilha
e na neve
Por Marta Teixeira
Fazer história não é novidade na trajetória
da ciclista Jaqueline Mourão. A mineira de 29 anos
foi a primeira brasileira a obter classificação
olímpica em mountain bike, participando dos Jogos de
Atenas-2004. No último domingo, ela repetiu a dose
de ineditismo. Depois de descobrir o esqui como alternativa
para manter o trabalho físico durante o rigoroso inverno
canadense, ela decidiu encarar a modalidade com mais seriedade
e, segundo a Confederação Brasileira de Desportos
na Neve (CBDN), obteve a classificação para
a prova de esqui cross country nos Jogos de Inverno de Turim-2006.
Com isso, ela será a primeira mulher brasileira a competir
nos Jogos de Verão e de Inverno.
| Foto: Divulgação |
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Dos seis anos de ginástica olímpica,
Jaqueline trouxe o equilíbrio para o esqui
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Nunca imaginei isso. A ficha está caindo agora.
Quando comecei a competir (no esqui) só pensava em
fazer o melhor. Mas é mentalmente muito bom disputar
outra modalidade. No meu caso, sempre busquei desafios e só
tenho um objetivo: representar bem o meu país em um
modalidade ou na outra.
Os Jogos de Turim começam dia 10 de fevereiro e Jaqueline
tornou-se a quinta brasileira classificada para o evento.
Além dela, têm vaga Nikolai Hentsch (esqui alpino),
Mirella Arnhold (esqui alpino), Isabel Clark (snowboard) e
Hélio Freitas (cross country).
Jaqueline só viaja para a Itália no dia 4.
Vou participar de algumas provas regionais em Quebec,
tenho neve e não preciso procurar outra estrutura,
explica a ciclista/esquiadora, que mora a 50 km da capital
canadense há dois anos e faz juras de amor à
nova modalidade. Adorei, tô apaixonada.
Mas a paixão decididamente não foi à
primeira vista. Em 2002, quando estava na Suíça
participando do programa de Solidariedade Olímpica
do Comitê Olímpico Internacional pelo mountain
bike, Jaqueline teve o primeiro contato com o esporte na neve.
Odiei, confessa, rindo. Em 2004, na Áustria,
ela fez uma nova tentativa. Também detestou. Me
sentia instável demais, confessa. Somente em
maio de 2005, ela verdadeiramente conheceu o esporte e tudo
de maneira casual.
Normalmente no inverno, ela e o marido Guido Visser (campeão
mundial masters de MTB e que competiu nas Olimpíadas
de Inverno de Nagano-98) viajavam para aproveitar as férias
no calor brasileiro. Mas por causa de um curso de Visser,
eles acabaram ficando no Canadá. Chegamos no
final de abril, começo de maio. Fiquei três dias
sem poder treinar ciclismo por causa da neve quando o Guido
me disse: vamos esquiar.
A estratégia não é inédita. Muitas
atletas de ponta do MTB têm o esqui como segundo esporte.
A campeã olímpica (a norueguesa Gunn-Rita
Dahle) e a vice (a canadense Marie-Helene Premont) utilizam
o cross esqui na preparação, garante Jaqueline.
A tcheca campeã olímpica de esqui também
pratica o MTB no verão. A relação de
transferência de benefícios entre as duas modalidades
está comprovada.
Superado o estranhamento que levou à pergunta inicial
do primeiro contato: onde é que freia isso?, e de fechar
a temporada de ciclismo, em outubro, ela decidiu investir
pesado para chegar à classificação para
Turim. Ainda não tinha neve e comecei a treinar
no roller esqui (deslizamento proporcionado por uma rodinha
na base do esqui), a esquiar na areia e em campo de golfe.
Procurei o máximo de informação. Nestes
três meses, assisti a vídeos, trabalhei muito
o braço, que é algo que não trabalhamos
tanto na mountain. Foram meses intensos, vivi 24 horas para
isso.
Ela aprendeu a dinâmica do novo movimento, aprendeu
a olhar onde pisar no percurso e identificar o que era gelo
ou não. A recompensa veio após cinco competições
internacionais na Europa (duas na Áustria, duas na
Itália e uma na Suíça) e com a primeira
colocação no ranking brasileiro, que lhe garantiu
a classificação olímpica. Agora, sua
prioridade é fazer bonito em Turim e lutar por um bom
resultado. Acho que a olimpíada pode ser meu
melhor resultado, garante.
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