Por Marta Teixeira
“Vamos deixar um legado maior que o evento”,
promete o secretário nacional de segurança
pública do Ministério da Justiça,
Luiz Fernando Corrêa, sobre o projeto de segurança
elaborado para os Jogos Pan-americanos 2007, no Rio
de Janeiro. O Governo Federal, responsável pelo
setor, investirá R$ 385 milhões e a meta
é ambiciosa: “vamos mudar a cara da estrutura
de segurança”, afirma Corrêa.
O desafio, assegura, é transformar a repressão
em prevenção, dando ao sistema de segurança
no Estado feições mais humanas. “Os
Jogos têm a ver com relacionamento entre os povos.
Queremos um policiamento de relacionamento”, garante.
Ou seja, o secretário pretende incorporar o
espírito do evento esportivo à estrutura.
Em outras palavras, fazer da integração
uma palavra de ordem no método de trabalho policial.
“Hoje, só trabalhamos com a repressão,
criminalizamos o endereço e não o indivíduo”,
explica Corrêa, afirmando que a meta governamental
é incluir e não conter as favelas no evento.
Para isso, pretendem envolver cerca de 10 mil pessoas,
principalmente jovens, nos programas de Segurança
Cidadã e Guias Cívicos. “O Brasil
não poderia participar dos Jogos com meio povo”.
As iniciativas tiveram início com a aproximação
das lideranças locais. Em seguida, foi realizada
uma capacitação dos interessados que começou
com a preparação para mediações
pacíficas de conflitos. Nas próximas fases
serão trabalhados os Conselhos Comunitários
de Segurança e a Polícia Comunitária.
| Foto: Reuters |
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| No Pan, integração com favelas é
meta dos responsáveis pela segurança |
Os Jogos são apenas o ponto de partida para
a reformulação da estrutura estadual de
segurança. “O Pan é um momento de
mobilização, mas este é um processo
perene. O que nós queremos é uma mudança
de comportamento. Não vai ser da noite para o
dia, é um processo longo e a velocidade depende
da mobilização. Até hoje, a comunidade
só conhece a polícia com violência
e envolvimento no crime. Isso não combina com
o espírito dos Jogos”, avalia Corrêa.
No Pan, o desejo do Governo é controlar a situação
sem o uso de força. “Não vamos ter
policiais fortemente armados”, diz o secretário,
ao mesmo que garante o preparo policial caso a situação
exija uma ação mais efetiva. “Mas
vamos ter unidades de resposta”, promete.
A proposta de segurança adotada buscou inspiração
em outras iniciativas para controlar a criminalidade.
Uma delas foi a implantada pela Colômbia para
combater a expansão da violência ligada
à rede do narcotráfico. “Trouxemos
o ex-vice-ministro do interior da Colômbia para
nos ajudar”, exemplifica Corrêa. O Serviço
de Inteligência brasileiro também recorreu
a consultores das cidades de Bogotá, Cali, Medellín,
Nova York, além de chilenos e canadenses.
Além da violência urbana, o Ministério
da Justiça se prepara para evitar ou conter uma
eventual ação terrorista. “Não
temos nenhum dado de inteligência que indique
que isso possa acontecer. Mas precisamos estar preparados”,
diz o secretário. Como o Brasil não possui
histórico de ações terroristas
recentes, nem know-how específico sobre
o assunto, as experiências internacionais também
estão servindo de base para o trabalho a ser
desenvolvido.
A Agência de Inteligência mantém
contato com órgãos internacionais para
tentar antecipar situações e buscar informações
sobre possíveis suspeitos.
As delegações estão sendo classificadas
pelo grau de risco e receberão um tipo específico
de comboio para os deslocamentos, conforme seu perfil.
O efetivo incorporou ainda cães treinados para
farejar drogas, explosivos e procurar pessoas.
“O Estado tem de estar preparado para o pior.
Precisamos estar prontos para dar uma resposta às
situações, seja um atentado, um vazamento
de óleo em grande escala, uma ação
da defesa civil”, ressalta Corrêa.
Para atender à necessidade de vigilância
e proteção durante o evento, o Rio de
Janeiro receberá reforço do efetivo de
outros estados. Segundo o secretário, serão
realocados entre cinco e seis mil homens, mas ele promete
que isso não prejudicará outras regiões.
“Não, porque é diluído das
outras 26 unidades da União”.
O projeto de segurança prevê ainda a modernização
da aparelhagem tecnológica. A cidade ganhará
infra-estrutura de tecnologia e comunicação,
carros e até aeronaves para a vigilância.
Se quem banca o gasto é o Governo Federal, como
ficam as outras unidades da União nesta história?
Pagam a conta e abrem um sorriso? “Não”,
afirma o secretário. De acordo com Corrêa,
além de a experiência carioca servir de
referência para projetos em outros locais, nem
todos os equipamentos serão de uso exclusivo
do Rio de Janeiro. Os aviões comprados, por exemplo,
foram cedidos com cláusula de mobilidade. Ou
seja, em caso de necessidade, outra cidade pode solicitar
e fazer uso dos aparelhos.
“O Pan não é um evento do Rio,
mas é o Brasil sediando. Não estamos trabalhando
só para os Jogos, mas para desenvolver uma estrutura
que credencie o país para outros eventos”,
destaca Corrêa, pensando nas candidaturas nacionais
aos Jogos Olímpicos e à Copa do Mundo.
“O Rio, como todas as outras grandes cidades,
tem um problema de violência. Mas também,
uma tradição de grandes eventos (Carnaval,
Réveillon e mais recentemente, o show dos Rollings
Stones) sem incidentes. Somos um povo de índole
pacífica e todos estão motivados para
o Pan”, aposta.
Se o secretário tem confiança absoluta
no sucesso do projeto elaborado para os Jogos, há
quem tenha dúvidas. Ponto de referência
quando se fala em turismo na cidade, nem Copacabana
se sente segura sobre os reflexos positivos neste setor.
Palco de ocorrências recentes de violência
a turistas, o bairro ressente-se da pouca preocupação
dada à região neste quesito. “A
segurança está voltada para o participante
do evento (que ficará centralizado principalmente
na região da Barra da Tijuca) quando deveria
beneficiar a comunidade como um todo. O morador que
não está participando fica alijado”,
avalia o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana
e do Conselho Comunitário de Segurança,
Horácio Magalhães Gomes.
Os reflexos desta priorização também
incomodam o representante. “A gente fica preocupado
de haver um planejamento todo voltado para um ponto
e outros ficarem descobertos”. Gomes reclama ainda
da pouca participação popular na tomada
de decisões sobre os programas implantados. “Mas
isso para a gente é coisa comum. Estamos acostumados
ao poder público nos alijar das decisões”.
Mas nem todas as pessoas ligadas a Organizações
Não Governamentais (ONG) estão insatisfeitas
com a participação no evento. Segundo
o responsável pela entidade Rio Contra o Crime,
Zeca Borges, a ONG foi ouvida na elaboração
do projeto. “Colaboramos na elaboração
de um relatório de prevenção a
riscos para os Jogos”, revela. O material foi
desenvolvido a partir dos registros de denúncias
dos locais de realização do evento.
O resultado foi a identificação de 15
áreas principais e duas especiais, nas quais
foram considerados os crimes mais freqüentes e
que geram maior risco ao turismo e à população
geral - roubos a transeuntes, de veículos e assaltos
em coletivos. Também foram avaliados os riscos
ligados ao tráfico de drogas nas comunidades
próximas aos locais dos jogos.
“Sobre as comunidades que possuem forte influência
do tráfico como a Providência, o Morro
dos Macacos e a Favela da Rocinha foi realizado um estudo
mais aprofundado, devido a sua ligação
com outros crimes, principalmente assaltos e homicídios.
Também foram avaliadas as principais vias de
acesso como as Linhas Amarela e Vermelha e trechos da
Avenida Brasil, locais de circulação de
grupos armados, confrontos freqüentes e roubos
de veículos”, completa. Mas o teste real
mesmo só poderá ser visto em julho de
2007.
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