Por Elói
Silveira
Eles são os principais atletas brasileiros dos saltos
ornamentais, dominam as competições no país e já conseguiram
bons resultados em torneios internacionais. Ainda assim,
lutam para ganhar reconhecimento dentro de um esporte
que engatinha no Brasil e sofre com o velho problema
da falta de apoio.
Entretanto, César Castro e Juliana Veloso alinham
discurso quando falam sobre o futuro. Para eles, apesar
de o Brasil seguir atrás das potências, está no caminho
certo para evoluir e já melhorou em relação ao passado.
A opinião mais forte vem da carioca de 25 anos, que
tem em seu currículo a participação em duas Olimpíadas,
além de uma medalha de prata nos Jogos Pan-americanos
de Santo Domingo-2003.
Ciente de que é exceção no meio, Veloso admite ter
responsabilidade extra de fazer com que a modalidade
ganhe força e passe a formar atletas de ponta no futuro.
“Minha principal intenção é que o esporte se torne popular,
porque estamos cerca de 10 anos atrás de outros países.
Queria que mais pessoas praticassem para que o Brasil
tivesse grupo bom. Mas é preciso ir aos poucos e a gente
está no caminho certo. Sei que não vai ser agora que
o Brasil vai ter campeões”, garante.
Juliana Veloso conversou com a reportagem de GE.Net
no início do mês, após as eliminatórias
do trampolim de 3 metros da Taça Brasil, realizada no
Clube Pinheiros. E apesar de mostrar otimismo, também
alertou para um fato que vem se tornando evidente: a
diferença entre a atual geração para a que vem pela
frente.
“Existe um grande vão entre os atletas de agora e
outros bons que têm 12, até 14 anos. Temos que continuar
para que elas possam se erguer. Mas existem bons talentos
e isso prova que o esporte está ganhando reconhecimento”,
explica a atleta, que garantiu índice para o Pan e Mundial
de Esportes Aquáticos na plataforma de 10 metros, em
prova realizada na quinta-feira.
A opinião é dividida por César Castro, atleta que
tem se mantido entre os dez melhores do mundo no trampolim
de 3 metros nos últimos anos. Sobre o crescimento do
esporte, relata situação que se tornou comum e que ilustra
bem a pouca expressão. “Sempre que falávamos que éramos
dos saltos, perguntavam se era de atletismo e ou se
a gente tinha cavalo”, brinca. “Mas isso agora mudou
um pouco”.
Por outro lado, alimenta o mesmo sonho de Veloso.
“Gostaria que essa realidade mudasse. Temos ótima geração
vindo, com garotos conseguindo bons resultados em torneios
importantes, mas por causa das dificuldades, da falta
de apoio, chega uma hora que todos acabam tendo que
optar. E uns cansam de lutar, pensam nos estudos, na
carreira e desistem”, lamenta.
Veloso faz raio-x ainda mais preciso sobre as fases
consideradas decisivas para um atleta de salto. “Entre
os 13 e 15 anos você começa e chega aos 17 pensando
na faculdade, no que realmente vai fazer, se vai treinar
ou trabalhar. O Brasil perdeu atletas de nível por falta
de estrutura. É só olhar lá fora e ver universidades
bancando tudo, trazendo os melhores para treinar. O
Brasil depende muito do talento individual”.
Ainda segundo eles, a falta de estrutura na base e
na formação acaba por gerar outro fenômeno prejudicial
a um país que sonha em crescer. Como se trata de um
esporte subjetivo, em que juízes dão notas por critérios
que consideram bons ou ruins, conta bastante em competição
internacional o fato de já ser reconhecido entre os
melhores.
“É muito em parte disso que precisamos de tempo para
ter um campeão”, analisa Veloso. “O Brasil precisa ganhar
nome, porque é pior quando você não é conhecido, os
juízes normalmente já olham diferente. E não é sorte,
é trabalho. Podemos melhorar muito, mas pelo menos não
posso reclamar de certas coisas. Temos muito mais do
que há cinco anos, por exemplo”, finaliza.
Castro também vê do mesmo jeito. “O Brasil já foi
pior, mas agora existem algumas leis de apoio, como
o bolsa-atleta, a Lei Piva e a lei de incentivo ao esporte,
que só precisa passar no Senado. Se isso sair realmente,
será uma maravilha”, disse ele, mostrando conhecimento
e otimismo em torno da resolução, que permitirá incentivos
de empresas e pessoas físicas no esporte como forma
de abatimento do imposto de renda.
Foto: Djalma Vassão/Gazeta
Press
 |
Nova geração também sonha - Mesmo diante das
dificuldades em esporte amador, dois atletas jovens
mostram bem as diferenças e as fases de um saltador
que sonha em chegar ao topo. Um deles é Ubirajara Barbosa,
de 22 anos, que vem se firmando como um dos principais
nomes do país e que conseguiu na Taça Brasil índices
para o Pan e Mundial tanto na plataforma como no trampolim
de 3 metros.
Mesmo sem patrocínio fixo, Barbosa admite ter situação
boa graças a apoio do clube Pinheiros, que arca com
os principais custos de sua vida como atleta, e aponta
a dificuldade da prática dos saltos como motivo para
existir grupo quase fixo de competidores em nível desejado.
“Acho que o salto é um esporte de difícil acesso também,
de uma elite”, diz.
“No Brasil a estrutura é complicada. A gente precisava
mais para formar nova geração. Já com o que o clube
dá, felizmente a gente consegue sobreviver. Eu tenho
boa estrutura e tenho treinado forte, quase 7 horas
por dia para chegar bem no Pan e tentar uma medalha.
Sei que é difícil, mas quero vencer”, completa, confiante.
Já Williams Sgurscow, também do Pinheiros, vive exatamente
a fase que César Castro e Juliana Veloso consideraram
decisiva: os 17 anos. “É realmente uma época complicada.
A gente fica com isso na cabeça, se faz faculdade, se
treina. Mas geralmente os atletas dão uma de super-homem
e acabam fazendo de tudo um pouco”, conta ele, que terminou
em terceiro na seletiva da plataforma, atrás apenas
de Ubirajara Barbosa e Hugo Parisi, dois que conseguiram
índice.
Persistente, garante que não pensa em parar tão cedo.
“Sei que tenho talento e que venho conseguindo bons
resultados e quero competir mais, quero chegar ao Pan”.
|