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20/12/2006
Arte com foto Djalma Vassão/Gazeta Press
Otimista, elite dos saltos ornamentais sonha com melhores dias CBDA reclama de estrutura e culpa atletas por falta de seleção
César Castro aposta alto no Pan

Por Elói Silveira

Eles são os principais atletas brasileiros dos saltos ornamentais, dominam as competições no país e já conseguiram bons resultados em torneios internacionais. Ainda assim, lutam para ganhar reconhecimento dentro de um esporte que engatinha no Brasil e sofre com o velho problema da falta de apoio.

Entretanto, César Castro e Juliana Veloso alinham discurso quando falam sobre o futuro. Para eles, apesar de o Brasil seguir atrás das potências, está no caminho certo para evoluir e já melhorou em relação ao passado. A opinião mais forte vem da carioca de 25 anos, que tem em seu currículo a participação em duas Olimpíadas, além de uma medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo-2003.

Ciente de que é exceção no meio, Veloso admite ter responsabilidade extra de fazer com que a modalidade ganhe força e passe a formar atletas de ponta no futuro. “Minha principal intenção é que o esporte se torne popular, porque estamos cerca de 10 anos atrás de outros países. Queria que mais pessoas praticassem para que o Brasil tivesse grupo bom. Mas é preciso ir aos poucos e a gente está no caminho certo. Sei que não vai ser agora que o Brasil vai ter campeões”, garante.

Juliana Veloso conversou com a reportagem de GE.Net no início do mês, após as eliminatórias do trampolim de 3 metros da Taça Brasil, realizada no Clube Pinheiros. E apesar de mostrar otimismo, também alertou para um fato que vem se tornando evidente: a diferença entre a atual geração para a que vem pela frente.

“Existe um grande vão entre os atletas de agora e outros bons que têm 12, até 14 anos. Temos que continuar para que elas possam se erguer. Mas existem bons talentos e isso prova que o esporte está ganhando reconhecimento”, explica a atleta, que garantiu índice para o Pan e Mundial de Esportes Aquáticos na plataforma de 10 metros, em prova realizada na quinta-feira.

A opinião é dividida por César Castro, atleta que tem se mantido entre os dez melhores do mundo no trampolim de 3 metros nos últimos anos. Sobre o crescimento do esporte, relata situação que se tornou comum e que ilustra bem a pouca expressão. “Sempre que falávamos que éramos dos saltos, perguntavam se era de atletismo e ou se a gente tinha cavalo”, brinca. “Mas isso agora mudou um pouco”.

Por outro lado, alimenta o mesmo sonho de Veloso. “Gostaria que essa realidade mudasse. Temos ótima geração vindo, com garotos conseguindo bons resultados em torneios importantes, mas por causa das dificuldades, da falta de apoio, chega uma hora que todos acabam tendo que optar. E uns cansam de lutar, pensam nos estudos, na carreira e desistem”, lamenta.

Veloso faz raio-x ainda mais preciso sobre as fases consideradas decisivas para um atleta de salto. “Entre os 13 e 15 anos você começa e chega aos 17 pensando na faculdade, no que realmente vai fazer, se vai treinar ou trabalhar. O Brasil perdeu atletas de nível por falta de estrutura. É só olhar lá fora e ver universidades bancando tudo, trazendo os melhores para treinar. O Brasil depende muito do talento individual”.

Ainda segundo eles, a falta de estrutura na base e na formação acaba por gerar outro fenômeno prejudicial a um país que sonha em crescer. Como se trata de um esporte subjetivo, em que juízes dão notas por critérios que consideram bons ou ruins, conta bastante em competição internacional o fato de já ser reconhecido entre os melhores.

“É muito em parte disso que precisamos de tempo para ter um campeão”, analisa Veloso. “O Brasil precisa ganhar nome, porque é pior quando você não é conhecido, os juízes normalmente já olham diferente. E não é sorte, é trabalho. Podemos melhorar muito, mas pelo menos não posso reclamar de certas coisas. Temos muito mais do que há cinco anos, por exemplo”, finaliza.

Castro também vê do mesmo jeito. “O Brasil já foi pior, mas agora existem algumas leis de apoio, como o bolsa-atleta, a Lei Piva e a lei de incentivo ao esporte, que só precisa passar no Senado. Se isso sair realmente, será uma maravilha”, disse ele, mostrando conhecimento e otimismo em torno da resolução, que permitirá incentivos de empresas e pessoas físicas no esporte como forma de abatimento do imposto de renda.

 
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Nova geração também sonha - Mesmo diante das dificuldades em esporte amador, dois atletas jovens mostram bem as diferenças e as fases de um saltador que sonha em chegar ao topo. Um deles é Ubirajara Barbosa, de 22 anos, que vem se firmando como um dos principais nomes do país e que conseguiu na Taça Brasil índices para o Pan e Mundial tanto na plataforma como no trampolim de 3 metros.

Mesmo sem patrocínio fixo, Barbosa admite ter situação boa graças a apoio do clube Pinheiros, que arca com os principais custos de sua vida como atleta, e aponta a dificuldade da prática dos saltos como motivo para existir grupo quase fixo de competidores em nível desejado. “Acho que o salto é um esporte de difícil acesso também, de uma elite”, diz.

“No Brasil a estrutura é complicada. A gente precisava mais para formar nova geração. Já com o que o clube dá, felizmente a gente consegue sobreviver. Eu tenho boa estrutura e tenho treinado forte, quase 7 horas por dia para chegar bem no Pan e tentar uma medalha. Sei que é difícil, mas quero vencer”, completa, confiante.

Já Williams Sgurscow, também do Pinheiros, vive exatamente a fase que César Castro e Juliana Veloso consideraram decisiva: os 17 anos. “É realmente uma época complicada. A gente fica com isso na cabeça, se faz faculdade, se treina. Mas geralmente os atletas dão uma de super-homem e acabam fazendo de tudo um pouco”, conta ele, que terminou em terceiro na seletiva da plataforma, atrás apenas de Ubirajara Barbosa e Hugo Parisi, dois que conseguiram índice.

Persistente, garante que não pensa em parar tão cedo. “Sei que tenho talento e que venho conseguindo bons resultados e quero competir mais, quero chegar ao Pan”.

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