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26/12/2006
Arte com fotos Marcelo Ferrelli/Gazeta Press e Fernando Pilatos/Gazeta Press

Por Marta Teixeira, colaborou Carolina Canossa, especial para GE.Net

Entenda o novo código
A mudança mais evidente para os leigos no novo Código de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica (FIG) foi a alteração no esquema de pontos. Antes a nota máxima era 10 e os atletas partiam de uma nota base de conteúdo mínimo 8,8, somando 1,2 ponto pelas ligações e dificuldades dos movimentos que apresentavam. Dessa combinação nascia a ‘nota de partida’.

Pelo novo sistema, os ginastas continuam a ser avaliados pela qualidade de execução e dificuldade dos elementos apresentados, mas na prática não há mais ‘nota de partida’ e a pontuação ultrapassa os dez pontos.

Todos os atletas começam com 10 de execução e vão perdendo pontos à medida que cometem falhas. O restante da nota é composto pelo conteúdo, com os elementos variando em um décimo, de acordo com o grau de dificuldade. Assim, um elemento classificado como A vale 0,10; um B, 0,20 e assim sucessivamente até um G valendo 0,70 (categoria à qual pertence o salto ‘Hypólito’).

As notas são atribuídas por dois grupos de árbitros. O painel A, do qual fazem parte dois árbitros, avaliam o conteúdo (conjunto de elementos da apresentação). O painel B, composto por seis árbitros, é responsável pela nota de execução.

Para os ginastas, a grande mudança ficou nos critérios de avaliação de execução porque as penalizações por falhas estão muito mais rigorosas. Os erros podem custar de 0,1 até 0,8 na nota final do atleta. “Isso dificultou para a arbitragem também porque algumas falhas podem variar de 0,1 até diretamente 0,5 e precisamos estar atentos para aplicar corretamente e marcar bem as diferenças”, explica a árbitra argentina Mônica Calabro.

“Os descontos podem ser tão grandes que é melhor fazer o mais fácil bem feito que arriscar o muito difícil”, acrescenta a brasileira Yumi Yamamoto Sawasato. Com isso, passar dos 16 pontos já é considerado um resultado excelente pela arbitragem. “O conteúdo hoje chega, no máximo, a 17”, destaca a árbitra brasileira.

No solo, por exemplo, chegar ao sete de conteúdo é um desafio no momento. No salto, a pontuação é considerada praticamente impossível. Já nas barras assimétricas e na trave houve quem obtivesse tal desempenho, assim como na argola.

Montreal, 1976. Os Jogos no Canadá entraram para a história olímpica quando a romena Nadia Comaneci, com apenas 14 anos, conseguiu um feito inédito, recebendo nota 10 por sua apresentação nas barras assimétricas. Não satisfeita, ela ainda obteve mais seis vezes a nota máxima e levou para casa cinco medalhas – três ouros, uma prata e um bronze. Quem vivenciou esta experiência que guarde na memória ou recorde em vídeo porque o feito de realizar uma apresentação considerada perfeita pela arbitragem voltou a ser algo virtualmente impossível.

Em dezembro de 2005, a Federação Internacional de Ginástica (FIG) mudou o Código de Pontuação da modalidade, aumentando as exigências nas apresentações e provocando uma revolução no meio. No começo, as caixas de e-mail de árbitros e técnicos foram inundadas com mensagens para que se posicionassem contra as inovações. Algum tempo foi necessário para que as coisas atingissem a estabilidade atual. Durante o Mundial em Aarhus, na Dinamarca, por exemplo, ajustes foram feitos no texto original e, passado o rebuliço inicial, o jeito foi aceitar o inevitável.

“Com esta mudança o que se busca é a perfeição e a precisão”, resume a árbitra internacional Yumi Yamamoto Sawasato. Brasileira, ex-ginasta, Yumi foi eleita pela FIG a melhor árbitra do mundo - premiação recebida dia 31 de outubro, em Genebra -, justificando a reformulação. O fato de tentar nivelar por cima os atletas até é reconhecido no meio, mas alguns narizes permanecem torcidos às inovações.

Auxiliar-técnica da equipe feminina brasileira, a ucraniana Iryna Iloyashenko é uma das que tem ressalvas às novidades. “A ginástica ficou muito pesada para as meninas”, reclama, sem saber se isto trará benefícios em longo prazo. O técnico da equipe feminina da República Tcheca, Stanislav Vyzina, é menos cético. Segundo ele, a dificuldade permanece igual para os competidores, havendo apenas um aumento nas exigências de execução. “O que conta é a rotina mais perfeita, quem fizer a melhor performance vai ganhar e isso é bom para todos”.

Para a árbitra mexicana Naomi Valenzo, o momento ainda é de ajustes e a modalidade segue testando as possibilidades do novo sistema. “Não está definido se tudo isso será um benefício completo. O fato é que o Código dá ao atleta a oportunidade de variação nas rotinas, mas por outro lado sacrifica a parte artística pelo receio de errar”.

Em termos qualitativos, quem era bom continua sendo e os atletas que se destacavam nas competições pelas regras antigas continuam sendo os atuais medalhistas. Foi assim com o ex-campeão mundial de solo e atual vice Diego Hypólito, com a chinesa Fei Cheng, campeã mundial de salto em 2005 e 2006, e com a inglesa Elizabeth Tweedle, terceira colocada nas barras assimétricas no Mundial de Melbourne e que ficou com o título na edição deste ano em Aarhus.

Treinadora de Elizabeth, Amanda Kirby, encara as novidades pelo lado positivo. “Eu gosto da idéia de as meninas poderem mostrar o mais alto nível em suas apresentações. Mas é muito estranho ver pontuações como as atuais”. No Mundial em Aarhus, a chinesa Fei foi campeã no salto com nota 16,075. Em Melbourne-2005, ela havia ficado com o título com nota 9,656.

Pelo novo sistema (leia box ao lado), as avaliações passam a contar separadamente performance e conteúdo. Ao mesmo tempo, as deduções por falhas de apresentação aumentaram significativamente e com receio de sofrer muitos descontos, os atletas evitam se arriscar demais em suas rotinas. “Hoje, os ginastas estão se segurando, buscando fazer o mais perfeito possível”, explica Yumi.

Esta mudança acaba sendo encarada hora como qualidade, hora como defeito do atual regulamento. “A nova regra ajuda a discriminar quem é realmente bom porque premia não apenas quem executa o movimento, mas quem o faz melhor. Antes, o código deixava todos muito próximos”, destaca a árbitra canadense Hélène Laliberté, que chama atenção para outro problema que pode surgir com o novo regulamento. “Temos de prestar atenção porque os elementos estão com alto nível técnico e alguns países podem acabar excluídos”.

Com 23 anos de arbitragem, ex-ginasta, ex-técnica e ex-consultora de atletas, Hélène vê a mudança como algo positivo no geral. “Acho que será uma coisa benéfica. Os países focarão incentivos, energia e esforços para evoluir. E os atletas terão de evoluir também”.

A argentina Mônica Calabro vê vantagem até para o público, que poderá compreender melhor as notas dadas aos ginastas. “Antes, as pontuações ficavam próximas, mesmo com os atletas fazendo coisas muito diferentes. Agora, a questão não é apenas de dificuldade, mas de qualidade na execução”.

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