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Por Marta Teixeira, colaborou Carolina Canossa,
especial para GE.Net
| Entenda
o novo código |
| A
mudança mais evidente para os leigos no novo Código
de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica
(FIG) foi a alteração no esquema de pontos. Antes
a nota máxima era 10 e os atletas partiam de uma
nota base de conteúdo mínimo 8,8, somando 1,2 ponto
pelas ligações e dificuldades dos movimentos que
apresentavam. Dessa combinação nascia a ‘nota de
partida’.
Pelo novo sistema, os ginastas continuam a ser
avaliados pela qualidade de execução e dificuldade
dos elementos apresentados, mas na prática não
há mais ‘nota de partida’ e a pontuação ultrapassa
os dez pontos.
Todos os atletas começam com 10 de execução
e vão perdendo pontos à medida que cometem falhas.
O restante da nota é composto pelo conteúdo, com
os elementos variando em um décimo, de acordo
com o grau de dificuldade. Assim, um elemento
classificado como A vale 0,10; um B, 0,20 e assim
sucessivamente até um G valendo 0,70 (categoria
à qual pertence o salto ‘Hypólito’).
As notas são atribuídas por dois grupos de árbitros.
O painel A, do qual fazem parte dois árbitros,
avaliam o conteúdo (conjunto de elementos da apresentação).
O painel B, composto por seis árbitros, é responsável
pela nota de execução.
Para os ginastas, a grande mudança ficou nos
critérios de avaliação de execução porque as penalizações
por falhas estão muito mais rigorosas. Os erros
podem custar de 0,1 até 0,8 na nota final do atleta.
“Isso dificultou para a arbitragem também porque
algumas falhas podem variar de 0,1 até diretamente
0,5 e precisamos estar atentos para aplicar corretamente
e marcar bem as diferenças”, explica a árbitra
argentina Mônica Calabro.
“Os descontos podem ser tão grandes que é melhor
fazer o mais fácil bem feito que arriscar o muito
difícil”, acrescenta a brasileira Yumi Yamamoto
Sawasato. Com isso, passar dos 16 pontos já é
considerado um resultado excelente pela arbitragem.
“O conteúdo hoje chega, no máximo, a 17”, destaca
a árbitra brasileira.
No solo, por exemplo, chegar ao sete de conteúdo
é um desafio no momento. No salto, a pontuação
é considerada praticamente impossível. Já nas
barras assimétricas e na trave houve quem obtivesse
tal desempenho, assim como na argola.
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Montreal, 1976. Os Jogos no Canadá entraram para a
história olímpica quando a romena Nadia Comaneci, com
apenas 14 anos, conseguiu um feito inédito, recebendo
nota 10 por sua apresentação nas barras assimétricas.
Não satisfeita, ela ainda obteve mais seis vezes a nota
máxima e levou para casa cinco medalhas – três ouros,
uma prata e um bronze. Quem vivenciou esta experiência
que guarde na memória ou recorde em vídeo porque o feito
de realizar uma apresentação considerada perfeita pela
arbitragem voltou a ser algo virtualmente impossível.
Em dezembro de 2005, a Federação Internacional de
Ginástica (FIG) mudou o Código de Pontuação da modalidade,
aumentando as exigências nas apresentações e provocando
uma revolução no meio. No começo, as caixas de e-mail
de árbitros e técnicos foram inundadas com mensagens
para que se posicionassem contra as inovações. Algum
tempo foi necessário para que as coisas atingissem a
estabilidade atual. Durante o Mundial em Aarhus, na
Dinamarca, por exemplo, ajustes foram feitos no texto
original e, passado o rebuliço inicial, o jeito foi
aceitar o inevitável.
“Com esta mudança o que se busca é a perfeição e a
precisão”, resume a árbitra internacional Yumi Yamamoto
Sawasato. Brasileira, ex-ginasta, Yumi foi eleita pela
FIG a melhor árbitra do mundo - premiação recebida dia
31 de outubro, em Genebra -, justificando a reformulação.
O fato de tentar nivelar por cima os atletas até é reconhecido
no meio, mas alguns narizes permanecem torcidos às inovações.
Auxiliar-técnica da equipe feminina brasileira, a
ucraniana Iryna Iloyashenko é uma das que tem ressalvas
às novidades. “A ginástica ficou muito pesada para as
meninas”, reclama, sem saber se isto trará benefícios
em longo prazo. O técnico da equipe feminina da República
Tcheca, Stanislav Vyzina, é menos cético. Segundo ele,
a dificuldade permanece igual para os competidores,
havendo apenas um aumento nas exigências de execução.
“O que conta é a rotina mais perfeita, quem fizer a
melhor performance vai ganhar e isso é bom para todos”.
Para a árbitra mexicana Naomi Valenzo, o momento ainda
é de ajustes e a modalidade segue testando as possibilidades
do novo sistema. “Não está definido se tudo isso será
um benefício completo. O fato é que o Código dá ao atleta
a oportunidade de variação nas rotinas, mas por outro
lado sacrifica a parte artística pelo receio de errar”.
Em termos qualitativos, quem era bom continua sendo
e os atletas que se destacavam nas competições pelas
regras antigas continuam sendo os atuais medalhistas.
Foi assim com o ex-campeão mundial de solo e atual vice
Diego Hypólito, com a chinesa Fei Cheng, campeã mundial
de salto em 2005 e 2006, e com a inglesa Elizabeth Tweedle,
terceira colocada nas barras assimétricas no Mundial
de Melbourne e que ficou com o título na edição deste
ano em Aarhus.
Treinadora de Elizabeth, Amanda Kirby, encara as novidades
pelo lado positivo. “Eu gosto da idéia de as meninas
poderem mostrar o mais alto nível em suas apresentações.
Mas é muito estranho ver pontuações como as atuais”.
No Mundial em Aarhus, a chinesa Fei foi campeã no salto
com nota 16,075. Em Melbourne-2005, ela havia ficado
com o título com nota 9,656.
Pelo novo sistema (leia box ao lado), as avaliações
passam a contar separadamente performance e conteúdo.
Ao mesmo tempo, as deduções por falhas de apresentação
aumentaram significativamente e com receio de sofrer
muitos descontos, os atletas evitam se arriscar demais
em suas rotinas. “Hoje, os ginastas estão se segurando,
buscando fazer o mais perfeito possível”, explica Yumi.
Esta mudança acaba sendo encarada hora como qualidade,
hora como defeito do atual regulamento. “A nova regra
ajuda a discriminar quem é realmente bom porque premia
não apenas quem executa o movimento, mas quem o faz
melhor. Antes, o código deixava todos muito próximos”,
destaca a árbitra canadense Hélène Laliberté, que chama
atenção para outro problema que pode surgir com o novo
regulamento. “Temos de prestar atenção porque os elementos
estão com alto nível técnico e alguns países podem acabar
excluídos”.
Com 23 anos de arbitragem, ex-ginasta, ex-técnica
e ex-consultora de atletas, Hélène vê a mudança como
algo positivo no geral. “Acho que será uma coisa benéfica.
Os países focarão incentivos, energia e esforços para
evoluir. E os atletas terão de evoluir também”.
A argentina Mônica Calabro vê vantagem até para o
público, que poderá compreender melhor as notas dadas
aos ginastas. “Antes, as pontuações ficavam próximas,
mesmo com os atletas fazendo coisas muito diferentes.
Agora, a questão não é apenas de dificuldade, mas de
qualidade na execução”. |