Fábio
Mello, especial para a GE.Net
Desde 2002, quando a Lei Piva passou a reverter 2%
da verba das loterias federais para as federações esportivas,
o discurso é de que o boxe olímpico brasileiro entrou
nos trilhos. Neste período, a Confederação Brasileira
de Boxe (CBboxe) trouxe três treinadores cubanos, formou
uma equipe de profissionais da saúde, disponibilizou
um centro de treinamento e concentração em Santo André,
passou a pagar um salário de até R$ 1.500 para os pugilistas
que formam a seleção e viagens aos exterior se tornaram
freqüentes.
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Pedro Lima é um dos quatro baianos que compõem
a seleção titular do boxe. |
Com a teoria em dia, agora o boxe olímpico espera comprovar
a evolução com pelo menos um ouro nos Jogos Pan-americanos
do Rio de Janeiro. E, quiçá, com uma medalha olímpica
nas Olimpíadas de Pequim. “No Pan-americano, uma de
ouro não é tão difícil. Mas quem sabe não conseguimos
duas ou três. E vamos sonhar com uma medalha olímpica.
É muito difícil, mas não impossível”, avisa o presidente
da CBBoxe, Luiz Cláudio Braga Boselli, que tem como
principal ambição acabar com o jejum que persiste desde
1963, quando Servílio de Oliveira ficou com o ouro no
Pan da Cidade do México.
A preparação para que a meta não seja vista como um
devaneio no futuro está perto da ideal. Só em 2006,
os brasileiros participaram de competições e intercâmbios
em Cuba (duas vezes), República Dominicana, Venezuela,
Porto Rico, Romênia e Argentina. Visando o Pan, as viagens
pela América tornaram-se prioridade, mas o plano é estender
o contato com escolas asiáticas e européias para a Olimpíada.
Para 2007, já estão marcados treinamentos na República
Dominicana, Porto Rico e Itália.
Para um dos três técnicos cubanos, Juan Francisco
Garcia Alvarez, o Paco, a falta de experiência ainda
é o principal problema a ser enfrentado pelo boxe brasileiro.
“Quando chegamos aqui (2002), muitos atletas não tinham
nenhuma experiência internacional. Estamos correndo
para recuperar esse tempo”, diz. “Ainda precisamos viajar
mais para lutar com outras escolas que não sejam as
americanas. Mas para isso dependemos de mais recursos”,
alerta.
Boselli não garante que a Confederação terá condições
de bancar a preparação dos sonhos de qualquer país.
Porém, a implantação da Lei de Incentivo ao Esporte
é festejada pelo presidente, que encara a injeção de
verbas em 2007 como uma possível salvação. A prerrogativa
para a formulação da lei – que deve ser aprovada ainda
em 2006 - era o investimento na base do esporte, o que
Boselli promete não esquecer.
“O nosso principal desafio ainda é fazer com que o
boxe seja praticado cada vez mais cedo. Só assim nos
tornaremos uma potência”, justifica. “Por outro lado,
com mais recursos poderemos ampliar o que já fazemos.
Em algumas competições não temos a seleção completa.
Também é importante levar atletas e árbitros para fora.
Mas, na dúvida, sempre levamos os atletas e nos prejudicamos,
porque na hora da luta os outros países têm árbitros
e nós não”, completa.
Entre os atletas, é justamente a arbitragem o motivo
apontado como principal barreira para os resultados
aparecerem. A remuneração oferecida pela CBBoxe pode
não ser suficiente para enriquecer, mas somada à verba
que recebem de clubes, serve ao menos para que os pugilistas
não precisem de ‘bicos’ para sobreviver. Assim, diferente
de outrora, os atletas podem se dedicar integralmente
ao boxe, com hospedagem, alimentação e treinadores de
ponta oferecidos pela Confederação.
“Não é muito sonho uma medalha olímpica. Estamos treinando
bastante, viajando e temos qualidade para isso. Está
faltando brilhar a estrela e contar com uma arbitragem
mais justa”, aponta o peso médio Glaucélio Abreu, de
28 anos, que esteve nas Olimpíadas de Atenas e foi derrotado
logo na primeira luta. “Nesse ciclo a preparação está
mais adequada. O boxe me dá condições de viver bem e
lutar por resultados”, complementa.
O meio-pesado Washington Silva, que também tem 28
anos e traz a experiência de uma luta disputada em Atenas,
atesta a reclamação com a arbitragem com a sua participação
no Mundial de Boxe Olímpico da China, em 2005. Ele estava
a uma vitória das semifinais e, conseqüentemente, de
ao menos uma medalha de bronze, mas perdeu para o armênio
Artak Malumyan no desempate por apenas um ponto (82
a 81) numa luta que considerou um roubo. “De dez golpes
que eu dava, contavam um. O armênio acertava dez e eles
marcavam 11”, reclama.
| Boselli:
Brasil já está entre melhores da América |
| Na avaliação do presidente da CBBoxe,
Luiz Cláudio Braga Boselli, o Brasil já pode ser
considerado uma das forças da modalidade dentro
da América. Em escala progressiva, ele inicia a
classificação colocando o país em condições de igualdade
com outras potências sul-americanas.
“Antes, a seqüência das forças era Argentina,
Venezuela, Colômbia, Equador e depois vinha Brasil.
Hoje, passamos os equatorianos e os argentinos
e estamos no mesmo nível que colombianos e venezuelanos”,
opina.
Vislumbrando o Pan-americano, ele também mostra
otimismo. “Estamos abaixo de República Dominicana,
Estados Unidos e Cuba. Com Canadá, Porto Rico
e México estamos emparelhando, dando para competir
de igual para igual”, diz.
Já em relação às principais potências mundiais,
a desvantagem é maior. “Rússia, Cazaquistão, Azerbaijão,
China, Itália, Turquia e França estão bem na frente.
Temos que trabalhar muito para nos equiparar a
essas potências”, completa. |
Recorrentes: Além de Washington e Glaucélio,
a seleção permanente conta com o meio-médio-ligeiro
Myke Carvalho, de 23 anos, no segundo ciclo olímpico.
A exemplo de seus compatriotas, ele não passou da primeira
luta em Atenas. “Agora a arbitragem já nos vê com outros
olhos”, alega. Os outros integrantes da delegação de
2004, Edvaldo de Oliveira “Badola”, único a ganhar uma
luta naquela Olimpíada, e Alessandro Matos não competem
mais no boxe olímpico.
Para Boselli, o segundo ciclo olímpico de três de
cinco atletas presentes em Atenas já é um sinal de que
o boxe olímpico está no caminho certo. “É muito satisfatório
para a federação que o atleta participe de duas Olimpíadas.
A experiência fica acumulada e a possibilidade de resultados
aumenta”, analisa o presidente, que ainda elogia o desempenho
de atletas “novos” como Robenílson Vieira, Davi Souza
e Pedro Lima. “É uma geração que o boxe olímpico brasileiro
nunca teve”, afirma.
Convivendo diariamente com os atletas, o técnico Paco
concorda com a avaliação do dirigente. “Os atletas que
estão repetindo o ciclo estão mais maduros, com maior
nível, mas ainda têm que melhorar a técnica”, ressalva.
Dentre eles, Washington fará a sua despedida do boxe
olímpico após Pequim. “Depois, penso em fazer uma seis,
sete lutas no profissional”, diz o pugilista. Glaucélio,
por sua vez, tem a meta de completar um terceiro ciclo.
“Tem atletas com mais de 35 anos conquistando medalhas”,
alega.
Já Myke Carvalho pinta como o pugilista com maior
potencial de emplacar no boxe olímpico. Com apenas 23
anos, ele não pensa em se profissionalizar após as Olimpíadas
de Pequim e teoricamente chegará ao auge em Londres,
em 2012. Prova de seu potencial veio no Mundial da China,
em 2005, quando percorreu um caminho parecido com Washington,
sendo eliminado também nas quartas-de-final, por Emil
Maharramov, do Azerbaijão.
“Os dois quinto lugares no Mundial provam que quanto
mais ciclos olímpicos um pugilista tiver, mais chances
teremos de obter bons resultados”, afirma Paco, que
também considera positivo o desempenho brasileiro nos
Jogos Sul-americanos de Buenos Aires, este ano. A competição
não reuniu a nata do boxe olímpico, mas o Brasil se
despediu com seis medalhas, sendo uma de ouro, quatro
de prata e uma de bronze. A sétima, de ouro, conquistada
por Antônio Rogério Nogueira, o Minotouro, foi desconsiderada
por ter apenas dois competidores em sua categoria.
| Seleção
permanente |
| Categoria |
Titular |
Reserva |
48 kg |
Paulo Carvalho (BA) |
Julião Neto (PA) |
| 51 kg |
Giliard Paulino (SP) |
Robenilson Jesus (BA) |
54 kg |
James Dean Pereira (PA) |
Robson Conceição (BA) |
57 kg |
Davi Souza (PA) |
Didimo Nascimento (BA) |
60 kg |
Everton Lopes (BA) |
Josias Santana (BA) |
64 kg |
Myke Carvalho (PA) |
Jean Pierre Abreu (RJ) |
| 69 kg |
Pedro Lima (BA) |
Yamaguchi Falcão (ES) |
| 75 kg |
Glaucelio Abreu (PA) |
Elber Passos (BA) |
81 kg |
Washington Silva (SP) |
Robson Fonseca (PA) |
| 91 kg |
Rafael Lima (PA) |
Gidelson Oliveira (SP) |
| +91 kg |
Antonio R. Nogueira (BA) |
Cassio Humberto (AM) |
|