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02/01/2007
Arte com foto Djalma Vassão/Gazeta Press
Boxe olímpico usa Pan para transformar teoria em resultados "Geladeira" vira exemplo de desperdício por falta de categorias de base Rivalidade Pará x Bahia rendeu até suspensão para Glaucélio

Fábio Mello, especial para a GE.Net

Desde 2002, quando a Lei Piva passou a reverter 2% da verba das loterias federais para as federações esportivas, o discurso é de que o boxe olímpico brasileiro entrou nos trilhos. Neste período, a Confederação Brasileira de Boxe (CBboxe) trouxe três treinadores cubanos, formou uma equipe de profissionais da saúde, disponibilizou um centro de treinamento e concentração em Santo André, passou a pagar um salário de até R$ 1.500 para os pugilistas que formam a seleção e viagens aos exterior se tornaram freqüentes.

 
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Pedro Lima é um dos quatro baianos que compõem a seleção titular do boxe.

Com a teoria em dia, agora o boxe olímpico espera comprovar a evolução com pelo menos um ouro nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro. E, quiçá, com uma medalha olímpica nas Olimpíadas de Pequim. “No Pan-americano, uma de ouro não é tão difícil. Mas quem sabe não conseguimos duas ou três. E vamos sonhar com uma medalha olímpica. É muito difícil, mas não impossível”, avisa o presidente da CBBoxe, Luiz Cláudio Braga Boselli, que tem como principal ambição acabar com o jejum que persiste desde 1963, quando Servílio de Oliveira ficou com o ouro no Pan da Cidade do México.

A preparação para que a meta não seja vista como um devaneio no futuro está perto da ideal. Só em 2006, os brasileiros participaram de competições e intercâmbios em Cuba (duas vezes), República Dominicana, Venezuela, Porto Rico, Romênia e Argentina. Visando o Pan, as viagens pela América tornaram-se prioridade, mas o plano é estender o contato com escolas asiáticas e européias para a Olimpíada. Para 2007, já estão marcados treinamentos na República Dominicana, Porto Rico e Itália.

Para um dos três técnicos cubanos, Juan Francisco Garcia Alvarez, o Paco, a falta de experiência ainda é o principal problema a ser enfrentado pelo boxe brasileiro. “Quando chegamos aqui (2002), muitos atletas não tinham nenhuma experiência internacional. Estamos correndo para recuperar esse tempo”, diz. “Ainda precisamos viajar mais para lutar com outras escolas que não sejam as americanas. Mas para isso dependemos de mais recursos”, alerta.

Boselli não garante que a Confederação terá condições de bancar a preparação dos sonhos de qualquer país. Porém, a implantação da Lei de Incentivo ao Esporte é festejada pelo presidente, que encara a injeção de verbas em 2007 como uma possível salvação. A prerrogativa para a formulação da lei – que deve ser aprovada ainda em 2006 - era o investimento na base do esporte, o que Boselli promete não esquecer.

“O nosso principal desafio ainda é fazer com que o boxe seja praticado cada vez mais cedo. Só assim nos tornaremos uma potência”, justifica. “Por outro lado, com mais recursos poderemos ampliar o que já fazemos. Em algumas competições não temos a seleção completa. Também é importante levar atletas e árbitros para fora. Mas, na dúvida, sempre levamos os atletas e nos prejudicamos, porque na hora da luta os outros países têm árbitros e nós não”, completa.

Entre os atletas, é justamente a arbitragem o motivo apontado como principal barreira para os resultados aparecerem. A remuneração oferecida pela CBBoxe pode não ser suficiente para enriquecer, mas somada à verba que recebem de clubes, serve ao menos para que os pugilistas não precisem de ‘bicos’ para sobreviver. Assim, diferente de outrora, os atletas podem se dedicar integralmente ao boxe, com hospedagem, alimentação e treinadores de ponta oferecidos pela Confederação.

“Não é muito sonho uma medalha olímpica. Estamos treinando bastante, viajando e temos qualidade para isso. Está faltando brilhar a estrela e contar com uma arbitragem mais justa”, aponta o peso médio Glaucélio Abreu, de 28 anos, que esteve nas Olimpíadas de Atenas e foi derrotado logo na primeira luta. “Nesse ciclo a preparação está mais adequada. O boxe me dá condições de viver bem e lutar por resultados”, complementa.

O meio-pesado Washington Silva, que também tem 28 anos e traz a experiência de uma luta disputada em Atenas, atesta a reclamação com a arbitragem com a sua participação no Mundial de Boxe Olímpico da China, em 2005. Ele estava a uma vitória das semifinais e, conseqüentemente, de ao menos uma medalha de bronze, mas perdeu para o armênio Artak Malumyan no desempate por apenas um ponto (82 a 81) numa luta que considerou um roubo. “De dez golpes que eu dava, contavam um. O armênio acertava dez e eles marcavam 11”, reclama.

Boselli: Brasil já está entre melhores da América
Na avaliação do presidente da CBBoxe, Luiz Cláudio Braga Boselli, o Brasil já pode ser considerado uma das forças da modalidade dentro da América. Em escala progressiva, ele inicia a classificação colocando o país em condições de igualdade com outras potências sul-americanas.

“Antes, a seqüência das forças era Argentina, Venezuela, Colômbia, Equador e depois vinha Brasil. Hoje, passamos os equatorianos e os argentinos e estamos no mesmo nível que colombianos e venezuelanos”, opina.

Vislumbrando o Pan-americano, ele também mostra otimismo. “Estamos abaixo de República Dominicana, Estados Unidos e Cuba. Com Canadá, Porto Rico e México estamos emparelhando, dando para competir de igual para igual”, diz.

Já em relação às principais potências mundiais, a desvantagem é maior. “Rússia, Cazaquistão, Azerbaijão, China, Itália, Turquia e França estão bem na frente. Temos que trabalhar muito para nos equiparar a essas potências”, completa.

Recorrentes: Além de Washington e Glaucélio, a seleção permanente conta com o meio-médio-ligeiro Myke Carvalho, de 23 anos, no segundo ciclo olímpico. A exemplo de seus compatriotas, ele não passou da primeira luta em Atenas. “Agora a arbitragem já nos vê com outros olhos”, alega. Os outros integrantes da delegação de 2004, Edvaldo de Oliveira “Badola”, único a ganhar uma luta naquela Olimpíada, e Alessandro Matos não competem mais no boxe olímpico.

Para Boselli, o segundo ciclo olímpico de três de cinco atletas presentes em Atenas já é um sinal de que o boxe olímpico está no caminho certo. “É muito satisfatório para a federação que o atleta participe de duas Olimpíadas. A experiência fica acumulada e a possibilidade de resultados aumenta”, analisa o presidente, que ainda elogia o desempenho de atletas “novos” como Robenílson Vieira, Davi Souza e Pedro Lima. “É uma geração que o boxe olímpico brasileiro nunca teve”, afirma.

Convivendo diariamente com os atletas, o técnico Paco concorda com a avaliação do dirigente. “Os atletas que estão repetindo o ciclo estão mais maduros, com maior nível, mas ainda têm que melhorar a técnica”, ressalva. Dentre eles, Washington fará a sua despedida do boxe olímpico após Pequim. “Depois, penso em fazer uma seis, sete lutas no profissional”, diz o pugilista. Glaucélio, por sua vez, tem a meta de completar um terceiro ciclo. “Tem atletas com mais de 35 anos conquistando medalhas”, alega.

Já Myke Carvalho pinta como o pugilista com maior potencial de emplacar no boxe olímpico. Com apenas 23 anos, ele não pensa em se profissionalizar após as Olimpíadas de Pequim e teoricamente chegará ao auge em Londres, em 2012. Prova de seu potencial veio no Mundial da China, em 2005, quando percorreu um caminho parecido com Washington, sendo eliminado também nas quartas-de-final, por Emil Maharramov, do Azerbaijão.

“Os dois quinto lugares no Mundial provam que quanto mais ciclos olímpicos um pugilista tiver, mais chances teremos de obter bons resultados”, afirma Paco, que também considera positivo o desempenho brasileiro nos Jogos Sul-americanos de Buenos Aires, este ano. A competição não reuniu a nata do boxe olímpico, mas o Brasil se despediu com seis medalhas, sendo uma de ouro, quatro de prata e uma de bronze. A sétima, de ouro, conquistada por Antônio Rogério Nogueira, o Minotouro, foi desconsiderada por ter apenas dois competidores em sua categoria.

Seleção permanente
Categoria Titular Reserva
48 kg
Paulo Carvalho (BA)
Julião Neto (PA)
51 kg Giliard Paulino (SP) Robenilson Jesus (BA)
54 kg
James Dean Pereira (PA) Robson Conceição (BA)
57 kg
Davi Souza (PA) Didimo Nascimento (BA)
60 kg
Everton Lopes (BA) Josias Santana (BA)
64 kg
Myke Carvalho (PA) Jean Pierre Abreu (RJ)
69 kg Pedro Lima (BA) Yamaguchi Falcão (ES)
75 kg Glaucelio Abreu (PA) Elber Passos (BA)
81 kg
Washington Silva (SP) Robson Fonseca (PA)
91 kg Rafael Lima (PA) Gidelson Oliveira (SP)
+91 kg Antonio R. Nogueira (BA) Cassio Humberto (AM)
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