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Foto: Ricardo
Stuckert/Agência Brasil
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Ex-atletas
e presidente do COB se empenharam em viagens a
Brasília para conseguir aprovação
da Lei de Incentivo
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Por Raul Flávio Drewnick
Com a velocidade de uma cortada de Giba e graças a
manobras políticas de agilidade comparável à do novo
“tsukahara esticado” de Daiane dos Santos, a Lei de
Incentivo ao Esporte foi aprovada dois dias antes do
recesso de fim de ano na Câmara dos Deputados e sancionada,
às pressas, no dia 29 de dezembro, junto com uma medida
provisória sugerida pelo presidente Lula. Se atrasasse
mais dois dias, seus benefícios só entrariam em vigor
em 2008. As adaptações realizadas no texto final acalmaram
os artistas, que não queriam concorrência à Lei Rouanet.
Ainda assim, o tema segue gerando polêmica dentro e
fora do meio esportivo.
A imensa maioria dos dirigentes e atletas aponta a
nova lei como a salvação dos esportes brasileiros, o
carro-chefe da enxurrada de incentivos criados pelo
governo federal nos últimos anos (veja quadro abaixo).
Se em 2005 as loterias renderam mais de R$ 70 milhões
ao esporte, a Lei de Incentivo promete atrair mais R$
300 milhões/ano para o setor. Junto com as incontáveis
vantagens que a cifra recorde vai trazer surge também
o temor quanto à possibilidade de novos desvios de verba
- como aqueles comprovados nos repasses dos Bingos e
outros flagrados em menor escala pelo Tribunal de Contas
da União nos recursos provenientes da Lei Piva (o maior
exemplo ocorreu em 2004 na Confederação Brasileira de
Tênis).
Estas e outras são as preocupações de nomes como os
da ex-jogadora de basquete “Magic” Paula, que alerta
para os defeitos, a brecha para tráfico de influência
e uma suposta tendência elitista do projeto. “Todo mundo
está achando o máximo, mas esta lei deve ser para poucos.
Quem é a favor diz tratar-se de uma vitória após anos
de luta. Na prática, as empresas vão querer investir
em quem aparece na TV... E quem aparece na TV já tem
patrocínios”, aponta Paula, diretora do Centro Olímpico
de Treinamento e Pesquisa (COTP) da Secretaria de Esportes
de São Paulo.
| As
novas leis federais para o esporte: |
Lei Piva
- Sancionada 16 de julho de 2001 (Lei
10.264/2001).
- Direciona 2% dos prêmios das loterias federais
para o COB (85%) e para o Comitê Paraolímpico
(15%).
- Em 2005, ela gerou R$ 70.500.266,51. Deste dinheiro,
o COB é obrigado a investir 15% em projetos estudantis
e universitários.
Lei dos Bingos
- Os bingos foram autorizados a funcionar em 1993
(Lei 8.672/1993).
- Em 1998, foi regularizada pela Lei Pelé, desde
que porcentagem dos lucros fosse repassada para
entidades esportivas.
- 7% arrecadado deveria ser repassado, o que raramente
aconteceu. Os bingos seguem funcionando, apesar
de diversos escândalos.
Timemania
- Sancionada em 16/09/2006 (projeto de Lei 5524/05),
a loteria visa sanear as finanças dos clubes de
futebol.
- Inicialmente o dinheiro vai saldar dívidas dos
clubes com o INSS, a Receita Federal, o FGTS e
outros tributos.
- Previsão de arrecadação inicial é de R$ 500
milhões/ano.
- Desse montante, apenas R$ 110 milhões devem
ir para os clubes – 65% para os times da primeira
divisão, 25% para os da segunda e os 10% restantes
para os da terceira.
- Distribuição da arrecadação: 46% - prêmios,
22% - dívida dos clubes de futebol, 20% - custos
da CEF, 3% - Fundo Nacional Penitenciário, 3%
- Santas Casas de Misericórdia, 2% - Secretarias
de esportes estaduais, 2% - Lei Agnelo/Piva, 1%
- Seguridade Social, 1% - Clubes Sociais.
Lei de Incentivo
ao Esporte
- Sancionada junto com uma MP em 29 de dezembro
de 2006 (Projeto de Lei 6999/2006).
- O teto de investimentos iniciais é de R$ 300
milhões/ano.
- Segundo a MP, o Esporte não vai competir com
o percentual do programa de alimentação dos trabalhadores
e nem com o da cultura. Vai iniciar com 1% de
isenção sobre o lucro real declarado das empresas.
- Os investimentos poderão ser abatidos no Imposto
de Renda no limite de até 4% para empresas e de
6% no caso do cidadão comum que queira apoiar
o esporte.
- Podem se beneficiar dos recursos os esportes
amadores, mesmo que de alto rendimento, programas
de apoio à prática desportiva das minorias, atletas
olímpicos e paraolímpicos e projetos de disseminação
de novas tecnologias de transmissão de conhecimento
desportivo.
- Os ministérios do Esporte e da Fazenda realizarão
perícia para apurar a autenticidade e o valor
das doações.
- As entidades que receberem recursos deverão
prestar contas ao Tribunal de Contas da União
até o dia 31 de janeiro de cada ano.
- O projeto considera crime, punível pelo Código
Penal, a fraude ou simulação do benefício pelo
doador ou pelo receptor. A multa prevista é de
três vezes o valor da doação simulada. |
Após freqüentar as entranhas do poder público em sua
rápida passagem (158 dias) como comandante da Secretaria
Nacional de Alto Rendimento na gestão do ministro Agnelo
Queiroz, a ex-armadora da seleção brasileira voltou
decepcionada de Brasília devido à polêmica na qual ficou
constatado que o Comitê Olímpico Brasileiro pagou a
hospedagem de membros do Ministério, incluindo o próprio
ministro, durante os Jogos Pan-americanos de Santo Domingo,
em 2003.
“A lei (Rouanet) para a cultura já é meio assim. Os
projetos aprovados são sempre para aqueles que fazem
política ou têm um padrinho forte. Eu já trabalhei em
Brasília e sei como funciona. Se um atleta de pequeno
porte conseguisse o apoio da padaria da esquina e isso
fosse aprovado, seria diferente. Vamos esperar. É ver
para crer”, desabafa Paula, que, no Centro Olímpico,
comanda um dos projetos esportivos de inclusão social
mais tradicionais do país.
Georgette Vidor, ex-técnica da seleção brasileira
de ginástica artística, apoiou a aprovação da lei, mas
concordou em parte com as preocupações de Paula. Após
quatro anos de mandato como deputada estadual (PPS-RJ),
ela vê a Lei de Incentivo ao Esporte como o primeiro
passo rumo a um futuro promissor.
“Política é assim mesmo. Infelizmente, a de Brasília
é realmente a de quem indica. A Paula está coberta de
razão nisso. Quem está perto do poder e os famosos terão
mais acesso a esta lei. Eles sabem coisas que nós, mortais,
não sabemos. Se isso realmente acontecer, no entanto,
cabe a nós gritar e avisar que os patrocínios estão
ficando sempre nas mãos dos mesmos”, opina Georgette,
que, em contrapartida, fez vários elogios à nova lei.
“Durante toda minha carreira como treinadora, esperei
por isso”, diz ela. “Acho que só não consegui trazer
melhores resultados para a ginástica brasileira porque
não tínhamos patrocínios ou eles chegavam sempre no
último momento antes das competições”, lembra a técnica,
que viu Daiane dos Santos ganhar três medalhas no Pan-americano
de Winnipeg-1999 com uma humilde ajuda de custo oferecida
por uma pizzaria.
A técnica do Flamengo, que lançou Daniele Hypólito
na época de ‘vacas magras’, prega uma vigilância constante
da comunidade esportiva para que os novos benefícios
governamentais sejam bem aproveitados. “A gente corre
mesmo esses riscos, mas por causa deles não podemos
deixar de avançar. Esperávamos por esta lei desde 1983
e não podíamos perder a chance de aproveitar este lobby
pelo Pan-americano para aprová-la”, opina.
Para o presidente da Confederação Brasileira de Tênis,
Jorge Rosa, a população deve estar sempre atenta ao
trabalho dos políticos, mas sem paranóia. “Na verdade,
ainda não temos nada e já estamos com medo da sacanagem.
A cabeça brasileira é a de sempre estar sendo enganada.
A função da comunidade é fiscalizar e acompanhar. Acredito
muito na mudança de mentalidade dos dirigentes, nem
que seja na marra”, opina o cartola, que assumiu a CBT
depois que a administração anterior foi punida pelo
Tribunal de Contas da União por ter desviado verba proveniente
da Lei Piva.
Presidente da Comissão de Atletas Pan-americanos e
Olímpicos, criada há oito meses pelo COB, Bernard Rajzman,
inventor do inesquecível saque “Jornada nas Estrelas”,
foi uma das principais lideranças ao lado do Ministério
do Esporte e do COB na aprovação da Lei de Incentivo.
O ex-jogador de vôlei começou na carreira política em
1991.
“Acho prematura esta preocupação (de que os recursos
irão sempre para os mesmos). Até porque a lei não permite
que atletas profissionais sejam beneficiados. Isso exclui
o futebol, segundo a lei brasileira. Nossa prioridade
é a formação de atletas e a prática esportiva de base
e nas escolas. O esporte de alto rendimento vai se beneficiar
mais diretamente no futuro, com a chegada desses novos
talentos que serão formados”, aposta Bernard.
O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, é outra
das figuras centrais na força-tarefa que vem conseguindo
aprovar tantas vantagens para o esporte. No dia 20 de
dezembro, ele foi a primeira pessoa a ligar para o presidente
Lula, minutos depois da aprovação da Lei de Incentivo
na Câmara dos Deputados. A troca de elogios serviu como
lembrete sutil para que a sanção fosse apressada e saísse
antes do dia 31. Só assim o esporte nacional poderia
usufruir os incentivos fiscais já em 2007.
“Esse projeto é muito mais do que fomentar o esporte
de competição, é a oportunidade de inclusão social a
partir da prática esportiva”, exalta Nuzman, que promete
descentralizar as novas verbas que serão captadas com
a ajuda do Ministério do Esporte. “Em breve vamos trabalhar
para a nacionalização da lei. Não vamos deixar que estes
incentivos se concentrem apenas em algumas regiões do
país”, garante o ministro Orlando Silva Júnior. |