| Por Marta Teixeira
A 100 dias do início dos Jogos Pan-americanos no Rio,
apenas em oito das 41 modalidades do programa o Brasil
tem sua equipe completamente definida. Sete têm parte
dos classificados conhecidos, 13 optaram pela pré-convocação
e o restante está no escuro. Dos 699 atletas previstos
para representar o país na competição, somente 14,87%
dos nomes estão garantidos.
Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press

Novo presidente da Confederação mudou
seletivas do salto e provocou recusa de Rodrigo
Pessoa em participar do Pan |
Em algumas modalidades, a indefinição é apenas parcial.
Várias confederações optaram por trabalhar com o sistema
de pré-classificação no qual um grupo de atletas treina
com apoio da entidade para posterior definição da equipe
pan-americana. Outras, porém, têm mais dúvidas que certezas.
No ciclismo, por exemplo, um único nome é garantido:
Luciano Pagliarini, na estrada. Para as demais categorias
o mistério permanece até o término das seletivas, elas
próprias definidas apenas no final de janeiro.
Misturando fórmulas como observação de resultados
(estrada), índices técnicos (pista) e seletivas tradicionais
(BMX), a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) aposta
que poderá formar a melhor equipe para o evento, mesmo
que a definição de alguns nomes fique apenas para junho,
o que inviabiliza uma preparação específica para os
Jogos.
No levantamento de peso, a situação
está no meio do caminho. Nomes garantidos no
Pan ainda não há. As comissões
técnicas trabalham com uma pré-lista e
os 15 titulares saem apenas em junho. Mas o calendário
de treinamentos está definido, assegura o técnico
da equipe masculina Edmilson Dantas.
Definido, mas atrasado. Inicialmente, a modalidade
previa treinar o grupo a partir de março. Como a instalação
de um centro de treinamento atrasou, tudo teve de ser
reestruturado. “Evidentemente, gostaria de ter começado
um mês antes. Mas é apenas um mês de diferença”, minimiza
o treinador.
Crítico, Dantas destaca que um bom planejamento pan-americano
tem de ser feito com quatro anos de antecedência. “É
evidente que o tempo (100 dias) é reduzido, mas a situação
já está muito melhor que antes”, compara. “Este Pan
vai ser um aprendizado para todo mundo o que será outro
legado dos Jogos”, assegura com o conhecimento de quem
conquistou três bronzes em Havana/91 e outros dois em
Mar del Plata/95.
O centro de treinamento, fato inédito na modalidade,
é outro motivo de comemoração. “Além de beneficiar o
levantamento de peso também ajuda outras modalidades
como o pólo aquático, o judô e o handebol”, afirma Dantas.
Para os Jogos do Rio, o CT foi instalado no Clube Pinheiros,
em São Paulo, onde atletas destas outras modalidades
também treinam e do qual Dantas é funcionário. “A idéia
é manter esta estrutura em um pólo importante do país
e São Paulo é um ponto de passagem sempre que há uma
competição internacional”, defende.
Assim como as indefinições de programação
e atrasos no calendário, os problemas de bastidores
têm complicado a vida de quem tem o Pan como meta.
No hóquei sobre grama, as equipes seguem em aberto
após a polêmica em torno da greve de jogadoras
na seleção feminina e do pedido de troca
de técnicos. A celeuma levou o presidente da
Confederação Brasileira de Hóquei,
Sydnei Rocha, a reestruturar toda a equipe de trabalho.
Alexandre Caldas assumiu a diretoria técnica
e as seleções masculina e feminina ganharam
cada uma, um chefe de delegação. A
idéia é trabalhar a conciliação,
explica Caldas, que está no cargo desde fevereiro.
Houve problemas pessoais, mas estamos trabalhando
para que se saiba que se não há má-fé
o importante é representar o Brasil dignamente.
Para contornar as tensões, o ex-técnico
do feminino Cláudio Rocha deixou o cargo e agora
trabalha diretamente com o COB na organização
da modalidade no Pan. O nome do novo treinador ainda
não está definido.
No masculino, o ex-jogador Leonardo Lemos assumiu o
comando da equipe. Nenhuma das duas seleções
está fechada e as comissões técnicas
trabalham com uma pré-lista que só deverá
ter os nomes finais anunciados em 14 de junho.
Cerca de 25 jogadoras estão em observação
no feminino em uma relação que, atualmente,
não inclui as pivôs do conflito, as irmãs
Roberta e Alessandra Flores e Mariana Stasi. Neste
primeiro momento elas não estão na lista,
mas também não estão descartadas,
minimiza o chefe da delegação Bruno Patrício
de Oliveira.
Durante este mês, os pré-qualificados
seguem com a preparação individual em
seus clubes. Os primeiros treinos coletivos começam
em maio, provavelmente, no Rio de Janeiro.
Até lá, a Confederação
espera ter definido o nome de uma peça fundamental
no projeto para o Pan: o coordenador-técnico,
que será responsável pelas duas seleções.
Ele vai ser como um head-coach ou o técnico
dos técnicos, explica Caldas.
O que está estabelecido até agora é
que o titular do posto será um argentino, pela
tradição da modalidade no país
vizinho. O contratado chega em maio e fica até
o final de julho.
Depois disso, a Confederação pretende
manter alguém no cargo, que pode ou não
ser o mesmo do Pan, para dar continuidade ao projeto
de expansão da modalidade no Brasil. Vai
depender da disponibilidade dele continuar ou não.
A programação das seleções
além dos treinos de maio é outro elemento
delineado, mas em aberto. Podemos disputar um
evento teste oficial, convidar uma equipe para jogar
no Brasil ou viajar para a Argentina para ganhar ritmo
de jogo, enumera Caldas.
A definição da alternativa aplicada escapa
ao controle da entidade: depende de quando o campo oficial
dos Jogos ficará pronto porque no Brasil não
há campos adequados ao esporte. Tanto que o treinamento
prévio será feito em instalações
alternativas. Em maio vamos treinar em grama sintética
para, pelo menos, pegar estilo de jogo, explica
o diretor-técnico.
Com tantas dificuldades pelo caminho, as expectativas
da modalidade no Pan são modestas. Um quinto
ou sexto lugar seria um resultado satisfatório,
confessa Oliveira. A meta principal nos Jogos está
além dele.
Para o hóquei, o Pan faz parte de um processo.
Vai ser uma oportunidade de as pessoas conhecerem o
esporte, de ele se organizar no país para fazer
um trabalho que dentro de quatro ou oito anos dê
resultados expressivos. Queremos fazer o melhor treinamento
possível com um esporte amador, destaca
Caldas.
Mas 60 dias de treinamento são suficientes para
isso? O ideal é que já tivesse um
conjunto, mas existe a pré-lista e as pessoas
são cobradas. Dois meses é prazo suficiente
para que se tenha uma equipe integrada, conclui.
No hipismo, a polêmica é mais concentrada, mas nem por
isso menos preocupante. Todo problema gira em torno
do salto, categoria que mais medalhes rendeu à modalidade
em Pan-americanos (9 de 15). Insatisfeito com o sistema
das seletivas (reduzido às provas no Brasil sem incluir
nenhum Concurso na Europa para facilitar o acesso dos
cavaleiros que vivem fora do país), o campeão olímpico
Rodrigo Pessoa, que estava pré-selecionado, abriu mão
de sua vaga e disse que não participará do Pan.
A declaração provocou reação não apenas entre atletas
solidários ou não ao companheiro, mas também na alta
cúpula dos Jogos. Ao tomar conhecimento do assunto,
o ministro dos Esportes Orlando Silva disse que pediria
ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que interviesse
na questão e o presidente do COB e do Comitê Organizador
dos Jogos (CO-Rio), Carlos Arthur Nuzman, entrou em
ação.
Segundo o presidente da Confederação Brasileira de
Hipismo, Maurício Manfredi, a opinião do ministro chegou
por terceiros, mas a conversa com Nuzman foi pessoal.
De prático, a reunião não produziu nada, já que a CBH
reafirmou a intenção de manter os critérios seletivos
para o Pan. Ficou apenas a promessa de COB, CBH e Ministério
‘trabalharem no sentido de convencer Rodrigo a mudar
de idéia’. |