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14/05/2007
Fotos Divulgação

Por Marta Teixeira

Pan nas mãos, Olimpíadas na cabeça

O Pan ainda nem começou, mas como programação é fundamental para obter resultados, os clubes já estão de olho na China. Ao mesmo tempo em que acompanham ansiosos a confirmação de seus atletas nas equipes pan-americanas, trabalham para que estes e outros marquem presença também nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008.

Na Sogipa, desde 2005 foi implantado o Projeto Pequim, priorizando um grupo de 13 atletas de cinco modalidades (ginástica ritmica, esgrima, judô, atletismo e ginástica olímpica), que têm potencial olímpico, e os Jogos Pan-americanos do Rio tornaram-se um degrau importante nesta proposta. O objetivo é ter quatro atletas na China e obter, pelo menos, uma medalha. “O Pan não tem todo o carisma de uma Olimpíada, mas agrega a sociedade e, se soubermos aproveitar bem, será possível ocorrer uma mudança de paradigma”, filosofa Álvaro Souza, do clube gaúcho.

Marcos Jerry, dirigente do Minas, concorda. “Mantivemos nossos investimentos para o Pan, não houve um aumento em função específica disso. Mas claro que o Pan é importante, porque sensibiliza toda a sociedade”. Pequim? Também está na mira. “Já estamos planejando as Olimpíadas de 2008 porque, na reta final, só se aparece um fenômeno”.

“Não se formam atletas em um ano”. A frase do presidente do Clube Pinheiros, Antônio de Alcântara Machado Rudge, ex-secretário municipal de Esporte, é o espelho dos Jogos Pan-americanos de 2007.

A pouco mais de dois meses do início do evento no Rio, mais de 170 atletas já têm vaga nominal assegurada. Festejadas e agora com apoio das Confederações e Comitê Olímpico Brasileiro (COB), as estrelas e promessas do Pan são crias de clubes que mesmo fora do período de grandes competições não deixam de apoiar o esporte de formação: celeiro dos heróis competitivos.

Provas disso não faltam. Gustavo Borges é um caso clássico. Durante 11 anos, o nadador foi atleta do próprio Pinheiros. O estouro chegou em 1991 no Pan de Havana, em uma carreira encerrada com quatro medalhas olímpicas, uma mundial e 19 pan-americanas, fora os recordes.

“Este é um trabalho perene”, continua o dirigente. “Você tem de investir pelo menos 10 anos em um atleta antes que ele chegue na ponta. Ele precisa viver para o esporte, 10-12 horas por dia, e não é só dar bola e técnico, porque muitos não têm família aqui”.

O panorama é basicamente o mesmo no Minas Tênis, outro clube ponta de lança quando o assunto é fornecer material humano para seleções nacionais. Responsável pelo salário e manutenção destes atletas durante todo o ano, a agremiação investe cerca de R$ 15 milhões/ano para manter as equipes e atletas de base e profissionais.

No Pinheiros, o valor é parecido. “Cerca de R$ 14 milhões”, garante Rudge. Bancar esta despesa não é fácil. “Não podemos pagar salário de atletas com dinheiro de associado”, destaca o gerente de esportes de base do Minas, Marcos Jerry.

A solução é ir atrás de parceiros e patrocinadores para reforçar o caixa. “Temos um setor de captação de recursos que explica ao parceiro o que pode atingir de objetivo”.

Mas ao contrário da tradição futebolística nacional, no universo do esporte amador a prioridade é manter a passada na largura das pernas. Ou seja, nada de gastos desmesurados, sem projetos de longo prazo.

“Como eu vou participar, depende do investimento. Somos um clube formador, somos um clube vencedor. Queremos fazer a diferença. Que nosso atleta estude e estenda ao máximo sua carreira”, destaca Jerry. Por isso, assim como os resultados competitivos, as comissões técnicas do Minas ficam de olho em boletins de notas e controle de freqüência escolar.

Contar com uma estrela na lista de atletas ajuda não apenas na divulgação do nome do clube. Também pode servir para atrair patrocinadores. Foi assim na Sogipa.

Desde os 7 anos, o clube gaúcho é a ‘casa’ do judoca João Derly. Quando o leve conquistou o título mundial no Cairo, em 2005, deu um impulso não apenas para si e a modalidade, mas também para a agremiação, garante o gerente de esportes Álvaro Souza. “Isso atraiu patrocinadores para o João e outros atletas”.

A exemplo dos pares paulista e mineiro, a Sogipa prioriza o lapidação de talentos. “Temos tradição na formação”, ressalta o dirigente, que também tem nas parcerias o apoio financeiro para manter a competitividade. “Nossos parceiros entram muito com a parte do salário dos atletas. A Sogipa dá a estrutura (de treinamento) e as condições. Os atletas buscam os melhores resultados em cima desta estrutura”.

Mas se são os verdadeiros responsáveis pelas conquistas e medalhas nacionais, nem por isso os clubes recebem ‘tratamento especial’ quando o assunto é dinheiro. Para o dirigente do Pinheiros, “o COB deveria vir um pouco mais para baixo”. Em outras palavras, ajudar mais os clubes.

Entretanto a atribuição da entidade é clara. Seus recursos são destinados às seleções e confederações nacionais. “Muitos cobram da gente uma coisa que não é atribuição do COB: investir na formação. Pode até vir a ser, mas no momento não é”, explica o coordenador técnico da entidade, Marcus Vinicius Freire.

Enquanto os clubes de futebol, alguns (nem todos), perdulários na gestão financeira de seus recursos estão prestes a receber socorro com a Timemania, os clube poliesportivos aguardam os efeitos da Lei de Incentivo ao Esporte, sancionada no final do ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que vai disputar com a Cultura os recursos da iniciativa privada.

“Nosso desafio é continuar fazendo esporte sem retribuição”, confessa Rudge. “Estamos lutando por uma lei de incentivo. Sem isso, nunca seremos uma nação olímpica”.

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