| Por Marta Teixeira
| Pan
nas mãos, Olimpíadas na cabeça |
|
O Pan ainda nem começou, mas como programação
é fundamental para obter resultados, os clubes
já estão de olho na China. Ao mesmo tempo em que
acompanham ansiosos a confirmação de seus atletas
nas equipes pan-americanas, trabalham para que
estes e outros marquem presença também nos Jogos
Olímpicos de Pequim-2008.
Na Sogipa, desde 2005 foi implantado o Projeto
Pequim, priorizando um grupo de 13 atletas de
cinco modalidades (ginástica ritmica, esgrima,
judô, atletismo e ginástica olímpica), que têm
potencial olímpico, e os Jogos Pan-americanos
do Rio tornaram-se um degrau importante nesta
proposta. O objetivo é ter quatro atletas na China
e obter, pelo menos, uma medalha. “O Pan não tem
todo o carisma de uma Olimpíada, mas agrega a
sociedade e, se soubermos aproveitar bem, será
possível ocorrer uma mudança de paradigma”, filosofa
Álvaro Souza, do clube gaúcho.
Marcos Jerry, dirigente do Minas, concorda.
“Mantivemos nossos investimentos para o Pan, não
houve um aumento em função específica disso. Mas
claro que o Pan é importante, porque sensibiliza
toda a sociedade”. Pequim? Também está na mira.
“Já estamos planejando as Olimpíadas de 2008 porque,
na reta final, só se aparece um fenômeno”. |
“Não se formam atletas em um ano”. A frase do presidente
do Clube Pinheiros, Antônio de Alcântara Machado Rudge,
ex-secretário municipal de Esporte, é o espelho dos
Jogos Pan-americanos de 2007.
A pouco mais de dois meses do início do evento no
Rio, mais de 170 atletas já têm vaga nominal assegurada.
Festejadas e agora com apoio das Confederações e Comitê
Olímpico Brasileiro (COB), as estrelas e promessas do
Pan são crias de clubes que mesmo fora do período de
grandes competições não deixam de apoiar o esporte de
formação: celeiro dos heróis competitivos.
Provas disso não faltam. Gustavo Borges é um caso
clássico. Durante 11 anos, o nadador foi atleta do próprio
Pinheiros. O estouro chegou em 1991 no Pan de Havana,
em uma carreira encerrada com quatro medalhas olímpicas,
uma mundial e 19 pan-americanas, fora os recordes.
“Este é um trabalho perene”, continua o dirigente.
“Você tem de investir pelo menos 10 anos em um atleta
antes que ele chegue na ponta. Ele precisa viver para
o esporte, 10-12 horas por dia, e não é só dar bola
e técnico, porque muitos não têm família aqui”.
O panorama é basicamente o mesmo no Minas Tênis, outro
clube ponta de lança quando o assunto é fornecer material
humano para seleções nacionais. Responsável pelo salário
e manutenção destes atletas durante todo o ano, a agremiação
investe cerca de R$ 15 milhões/ano para manter as equipes
e atletas de base e profissionais.
No Pinheiros, o valor é parecido. “Cerca de R$ 14
milhões”, garante Rudge. Bancar esta despesa não é fácil.
“Não podemos pagar salário de atletas com dinheiro de
associado”, destaca o gerente de esportes de base do
Minas, Marcos Jerry.
A solução é ir atrás de parceiros e patrocinadores
para reforçar o caixa. “Temos um setor de captação de
recursos que explica ao parceiro o que pode atingir
de objetivo”.
Mas ao contrário da tradição futebolística nacional,
no universo do esporte amador a prioridade é manter
a passada na largura das pernas. Ou seja, nada de gastos
desmesurados, sem projetos de longo prazo.
“Como eu vou participar, depende do investimento.
Somos um clube formador, somos um clube vencedor. Queremos
fazer a diferença. Que nosso atleta estude e estenda
ao máximo sua carreira”, destaca Jerry. Por isso, assim
como os resultados competitivos, as comissões técnicas
do Minas ficam de olho em boletins de notas e controle
de freqüência escolar.
Contar com uma estrela na lista de atletas ajuda não
apenas na divulgação do nome do clube. Também pode servir
para atrair patrocinadores. Foi assim na Sogipa.
Desde os 7 anos, o clube gaúcho é a ‘casa’ do judoca
João Derly. Quando o leve conquistou o título mundial
no Cairo, em 2005, deu um impulso não apenas para si
e a modalidade, mas também para a agremiação, garante
o gerente de esportes Álvaro Souza. “Isso atraiu patrocinadores
para o João e outros atletas”.
A exemplo dos pares paulista e mineiro, a Sogipa prioriza
o lapidação de talentos. “Temos tradição na formação”,
ressalta o dirigente, que também tem nas parcerias o
apoio financeiro para manter a competitividade. “Nossos
parceiros entram muito com a parte do salário dos atletas.
A Sogipa dá a estrutura (de treinamento) e as condições.
Os atletas buscam os melhores resultados em cima desta
estrutura”.
Mas se são os verdadeiros responsáveis pelas conquistas
e medalhas nacionais, nem por isso os clubes recebem
‘tratamento especial’ quando o assunto é dinheiro. Para
o dirigente do Pinheiros, “o COB deveria vir um pouco
mais para baixo”. Em outras palavras, ajudar mais os
clubes.
Entretanto a atribuição da entidade é clara. Seus
recursos são destinados às seleções e confederações
nacionais. “Muitos cobram da gente uma coisa que não
é atribuição do COB: investir na formação. Pode até
vir a ser, mas no momento não é”, explica o coordenador
técnico da entidade, Marcus Vinicius Freire.
Enquanto os clubes de futebol, alguns (nem todos),
perdulários na gestão financeira de seus recursos estão
prestes a receber socorro com a Timemania, os clube
poliesportivos aguardam os efeitos da Lei de Incentivo
ao Esporte, sancionada no final do ano passado pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que vai disputar
com a Cultura os recursos da iniciativa privada.
“Nosso desafio é continuar fazendo esporte sem retribuição”,
confessa Rudge. “Estamos lutando por uma lei de incentivo.
Sem isso, nunca seremos uma nação olímpica”.
|