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29/07/2007
Fotos Gazeta Press

Em casa, Brasil bate recorde e vê Pan das vaias
Da equipe Gazeta Esportiva.Net
Foto Fernando Pilatos/Gazeta Press
Thiago Pereira faz história no Pan dos recordes para o Brasil no Rio de Janeiro

Em sua primeira competição internacional importante com tempo suficiente para mostrar os benefícios da Lei Agnelo/Piva, o esporte brasileiro fez bonito. Competindo em casa, os atletas nacionais superaram e muito as metas estabelecidas para antes da competição no Rio de Janeiro: ficar à frente do Canadá no quadro de medalhas, ultrapassar os 123 pódios obtidos em Santo Domingo-2003 e superar os 29 ouros conquistados na República Dominicana, números recordes até então.

É bem verdade que em muitas modalidades os estrangeiros não competiram com suas equipes principais, baixando ainda mais o nível técnico do Pan – já abatido pela falta de investimento da maioria dos países latino-americanos no esporte. É verdade também que tradicionalmente países que competem em casa têm uma melhora visível no desempenho em competições como esta. Porém, não dá para negar que, apesar de abalos e inúmeros problemas, o esporte verde-amarelo está em ascensão.

Obviamente isso não significa que o Brasil vai arrebentar e se tornar a grande surpresa dos Jogos Olímpicos de Pequim, no ano que vem. Só para se ter uma idéia, depois da histórica participação de Santo Domingo, os representantes nacionais angariaram apenas dez medalhas nas Olimpíadas da Grécia, sendo somente quatro de ouro. Para 2008, a expectativa é de bons resultados (o que não significa necessariamente título), apenas em algumas poucas (e sempre esperadas) modalidades: vôlei, vela, natação, judô, hipismo, ginástica artística e vôlei de praia. Mas, por outro lado, o simples fato de o Brasil já visualizar Cuba como maior rival do continente deve ser comemorado.

 
Análise das modalidades
Atletismo - Recorde é quebrado, mas precisa de ajustes

Badminton - Primeira medalha premia balanço positivo no Pan

Basquete - Ouro e prata deixam modalidade na liderança dos coletivos

Beisebol - No meio da lama, esporte fica entre desorganização e decepção

Boliche - Medalha e visibilidade são destaques do boliche brasileiro

Boxe - País dá salto de qualidade e festeja primeiro ouro desde 1963

Canoagem - Recordes, um ouro e fim de jejum na canoa brasileira

Caratê - Tri de Lucélia impulsiona sonho de virar esporte olímpico

Ciclismo - Felicidade com recorde de pódios, mas podia ser melhor

Esgrima - Brasileiros derrubam jejum e conquistam medalha feminina

Esqui aquático - Ouro de Marreco no wakebord salva participação apagada

Futebol - Sucesso das mulheres ameniza fracasso dos garotos

Futsal - Título inédito quebra jejum, mas pode ser o único da história

Ginástica artística - Fim do tabu e superioridade inédita masculina

Ginástica rítmica - Brasil repete 2003 e ganha três ouros no conjunto

Handebol - Seleções cumprem objetivo e conquistam ouros no Pan

Hipismo/Adestramento - Bronze coroa trabalho da equipe brasileira

Hipismo/CCE - Vaga olímpica vira a maior conquista da modalidade

Hipismo/Saltos - Apesar da polêmica, Brasil retoma domínio na equipe

Hóquei sobre grama - Saldo negativo de 109 gols e muito vexame

Judô - Judocas igualam recorde, mas ficam abaixo de meta

Levantamento de peso - Medalha de bronze supera expectativas

Lutas - Melhor participação, mas sem o brilho esperado

Maratonas aquáticas - Bronze no masculino e prata no feminino

Nado sincronizado - Desempenho consolida Brasil como terceira força

Natação - Thiago Pereira comanda show de recordes no Maria Lenk

Patinação - Atuação da artística salva participação da patinação no Pan

Pentalo moderno - Ouro feminino, vaga olímpica e alegria de sobra

Pólo aquático - Surpresa positiva e negativa no Rio

Remo - Com metade das medalhas, remo amarga queda no Rio

Saltos ornamentais - Dois pódios e performance abaixo de 2003

Softbol - Uma vitória salva Pan das "meninas do calendário"

Squash - Bronze por equipes é único consolo para brasileiros

Taekwondo - Desempenho histórico não diminui insatisfações

Tênis - Sem concorrência, tênis volta a subir ao pódio do Pan

Tênis de mesa - Ouro por equipes garante Pan histórico

Tiro com arco - Brasileiros mantêm jejum de medalhas no Rio

Tiro esportivo - Torcida pesa e "explica" desempenho ruim

Trampolim acrobático - Giovanna leva bronze, mas outros decepcionam

Triatlo - Mulheres decepcionam e Juraci salva esporte de vexame

Vela - Falta de ventos e arbitragem prejudica representantes do Brasil

Vôlei - Vôlei alterna sensação de alívio e decepção

Vôlei de praia - No Pan, enfim, país celebra seus "reis da praia"

Ao término do Rio-2007, os brasileiros somaram apenas cinco ouros a menos que os cubanos e nada menos que 15 a mais que o Canadá. Na soma total de pódios, o Brasil ficou com a segunda colocação, com 161 medalhas, 26 a mais do que os cubanos, algo que jamais havia obtido na história do Pan. Por algumas horas, os representantes verde-amarelos chegaram até mesmo a ocupar a segunda colocação do quadro de medalhas – fato que, admite o chefe de delegação do Brasil, Marcus Vinícius Freire, foi ajudado pela composição do calendário no Rio de Janeiro.

“Nós realmente esperávamos uma avalanche de medalhas de Cuba depois das finais dos boxes, das lutas e da canoagem, que foram algumas das últimas a serem disputadas. Em Winnipeg, por exemplo, as provas de canoagem foram antes da cerimônia de abertura, então eles já começaram bem à frente, não tivemos nem chance”, explica o dirigente, bastante contente com o desempenho verde-amarelo. “Fizemos o esperado: superamos 29 medalhas de ouro, 123 no total e ficamos em terceiro na classificação geral. Também não podemos nos esquecer que terminamos em segundo no número total de medalhas e que das 44 modalidades em disputa, medalhamos em 38”, destaca.

Apesar de inesperadas conquistas no badminton, pentatlo moderno, boliche, luta greco-romana e trampolim acrobático, Freire prefere não apontar nenhuma medalha surpreendente. “Acredito que nós não tivemos muitas surpresas. O que aconteceu é que as modalidades que consideramos carros-chefe fizeram seus trabalhos bem-feitos, caso do judô, da ginástica e da natação”, explicou.

Os números dão razão a Marcus Vinícius. Juntos, atletismo, ginástica, judô, natação e vela conquistaram 83 das 161 medalhas verde-amarelas, ou seja, 51,55% do total. Todas do quinteto, exceto a vela, contam com apoio forte de empresas estatais. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, apóia a ginástica e o atletismo. O judô conta com o apoio da Infraero e a natação dos Correios. Nos esportes coletivos em que o Brasil também levou medalha, a mão do governo também está presente: a Petrobras ajuda o handebol; a Eletrobras, o basquete; os Correios, o futsal; e o Banco do Brasil ajuda a impulsionar o vôlei e o vôlei de praia.

Patrocínios privados, caso da Oi, Scania, Samsung, Bombril, Pão de Açúcar e BM&F, ainda estão bem abaixo do desejado. E é justamente este panorama que Marcus Vinícius espera mudar. “Quero que o Pan seja um divisor de águas. Espero que os empresários acreditem que há modalidades que não precisam de muito dinheiro para evoluir”, comenta o dirigente, que agora volta os olhos para as Olimpíadas.

“Na verdade, a preparação para Pequim já começou. E, assim como no Pan, vamos ter a nossa melhor preparação da história, já que em Atenas a Lei Agnelo/Piva tinha pouco tempo. E eu espero que os resultados apareçam”, sonha o dirigente, que tem a dura missão de evitar que os brasileiros repitam a queda brusca vista, por exemplo, na Argentina, que em Mar del Plata-1995 conseguiu 40 ouros e no Rio-2007 apenas 11.

Antes mesmo da disputa direta no quadro de medalhas, a rivalidade com os cubanos dava sinais de acirramento justamente onde ela é mais tradicional: o vôlei feminino. Depois da derrota para Cuba na decisão da modalidade, a torcida reforçou ainda mais as vaias para os cubanos, que já estavam entalados na garganta desde horas antes, quando a arbitragem deu vitória a Oscar Brayson em polêmica luta contra o judoca brasileiro João Gabriel Schlitter.

A “rixa” chegou à pancadaria com outra decisão polêmica da arbitragem no judô, onde Érika Miranda perdeu o ouro para a cubana Sheila Espinosa. Revoltada, a torcida no Complexo Riocentro começou a jogar copos e papéis na arena, enquanto as atletas deixavam o local. A briga se estendeu para a área destinada à delegação cubana, gerando agressões físicas e verbais de ambas as partes. Na hora do pódio, mesmo com os atletas entrando de mãos dadas e pedindo paz, a torcida do Brasil ficou de costas durante a execução do hino de Cuba, em sinal de protesto.

As vaias, aliás, foram uma constante neste Pan, começando logo na cerimônia de abertura, quando o presidente Lula e as delegações de Estados Unidos, Bolívia e Venezuela foram hostilizadas. Depois, o mesmo aconteceu em disputas dos esportes coletivos, ginástica, taekwondo, atletismo e saltos ornamentais, culminando em críticas oriundas até mesmo de atletas do Brasil. "Fiquei muito mal com isso, tive que justificar o tempo todo com os atletas estrangeiros. Assim, o Brasil não vai trazer mais competições desse nível. Tem que mudar a cultura do povo", desabafou Ivan Silva, sétimo colocado no decatlo.

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