|
Por Daniel Marques, especial para GE.Net
|
Fotos: Djalma Vassão/Gazeta
Press
|
 |
| No Parque da Juventude, taekwondo, bicicletas
e boxe foram algumas das modalidades praticadas |
24 horas de esporte, mais de 200 pontos para a prática esportiva e a participação estimada pela organização de aproximadamente 300 mil pessoas. Assim foi a Virada Esportiva, promovida pela Prefeitura de São Paulo e encerrada na tarde deste domingo com um show no Parque da Independência. Além de anônimos de todas as idades, estiveram no evento personalidades como Pelé, a ex-jogadora de basquete Paula, a ex-jogadora de vôlei Ana Moser e o judoca Tiago Camilo.
Apesar de atingir a expectativa traçada pela organização, a Virada Esportiva demorou a atrair os paulistanos. As primeiras horas do evento, na tarde de sábado, foram marcadas por vários locais vazios e pouca gente disposta a aproveitar as clínicas disponibilizadas. Nem a campanha do “Dia Mundial Sem Carro” ajudou, já que São Paulo sofreu com o trânsito e índices elevados de poluição do ar durante boa parte do dia.
Na madrugada, opções de entretenimento levadas à população
na Virada (como jogos de baralho, dominó, futebol de
botão e até cata-varetas) chamaram a atenção,
assim como os espaços concedidos aos esportes radicais.
No domingo, a adesão aumentou e muitos aproveitaram
os últimos momentos nos diversos pontos para a prática
esportiva.
 |
| Remadores usam máscaras contra poluição
do Tietê, uma situação bem diferente
da vivida por... |
 |
| ...Joaquim Neves e Elisa de Paula, que remavam
nas mesmas águas, então limpas, na
década de 1940 |
Uma das atrações mais excêntricas do evento foi justamente a sua abertura. Poucos foram os que se arriscaram a entrar no Rio Tietê e embarcaram na difícil tarefa de percorrer pouco mais de 100m na escura mistura de esgoto e poluição. A iniciativa, conduzida pelos clubes Tietê e Espéria, antigos concorrentes nas competições de regata disputadas no rio, permitiu que ex-atletas participassem do evento.
Na margem do rio, a aposentada Elisa de Paula contava
histórias sobre o Tietê que os mais jovens custavam
a acreditar. Defendendo o Clube Espéria na década de
40, a senhora de 84 anos cansou de participar de provas
de remo no local. Na época, não eram bolhas de óleo
que pulavam à superfície e sim pequenos peixes curiosos.
Ela se assustava ao passar o remo sobre a água límpida
do rio.
“Quando nós remávamos, caiam peixes pequenininhos dentro do barco. Eu gostava de fazer piquenique nas margens do Tietê junto com as minhas amigas do clube”, recorda a ex-remadora, apelidada de Jambolinha pelas colegas, e que se orgulha de ser uma das sócias mais antigas do Espéria. “Praticamente nasci na pista de atletismo”, brinca.
Assim que terminou de contar, Elisa foi rapidamente
advertida: “Eu tenho mais tempo de clube que você”,
declarou Joaquim Neves, que se auto-afirma o remador
mais antigo do Clube Tietê. Os dois não discutiram,
apenas se abraçaram para firmar uma amizade construída
pela rivalidade saudável.
Ao mesmo tempo, um dos poucos “corajosos” a entrar
na água saía ofegante do remo. Carlos Barbieri vestiu
a máscara para proteger do forte odor que exala das
águas turvas do Tietê, colocou luvas de borracha
e participou da regata comemorativa. Após sair da água,
ele lamentou a situação que presenciou. “Isso não é
mais água. Você puxa um óleo grosso e cansa muito mais.
Imagina se isso fosse limpo. A sensação seria gostosa,
mas hoje tem um cheiro muito ruim e é difícil ficar
próximo do rio.”
Acima dos remadores, na Ponte das Bandeiras, Mário Roberto dos Santos enfileirava suas varas de pescar ao lado de uma pasta com recortes de jornal. Vestindo um colete e um boné com a bandeira do Brasil na estampada, o pescador tentava fisgar lixos no rio Tietê, uma prática de mais de 17 anos. Galinha morta, pneus, sacos de lixo e até um corpo humano já foram vistos flutuando no rio poluído pelos olhos de Mário Roberto.
 |
| Maior alvo da Virada, as crianças se esbaldaram
no Anhangabaú |
O exagerado homem de bigode conta até história de pescador.
“Uma vez vi uma coisa boiando e liguei logo para a polícia”,
relembra. “Antes eu via algumas capivaras e jacarés.
Isso aqui tinha fauna e flora”, afirma o paulistano,
que realiza o ato como um protesto para chamar a atenção
das autoridades. “Comecei vindo todos os dias para tentar
fazer alguma coisa por esse rio”, finaliza.
As lamentações sobre a falta de locais para a prática esportiva também acompanharam o evento. Ciclistas pediam mais vias para o fluxo de bicicletas na cidade, fumantes se queixavam da falta de segurança no parque usado para a caminhada “Eu quero parar” e praticantes de skate pediam mais atenção do governo com a modalidade. No Parque do Anhangabaú, crianças interessadas na Virada dividiam o espaço com adultos embriagados e menores infratores.
Apesar dos problemas, a Virada teve a sua maior adesão
no público que mais interessava à organização. Seja
na Marginal Tietê, no Parque da Juventude, no Vale do
Anhangabaú ou no Centro Olímpico do Ibirapuera, as crianças
foram maioria na prática dos esportes. “Neste aspecto,
foi um sucesso total. Tivemos alguns acidentes, algumas
pessoas machucadas. Mas foi um momento muito importante
para toda cidade”, explicou o secretário municipal dos
Esportes, Walter Feldman, durante o encerramento do
evento. Segundo ele, a Virada veio para ficar. "Vamos
trabalhar para corrigir algumas coisas e dar continuidade".
|