| Por Paulo Amaral
Campeões da Corrida
Internacional de São
Silvestre e nomes de ponta
do cenário do atletismo
atual, o brasileiro Franck
Caldeira e o queniano Robert
Cheruiyot poderiam ter muito
mais em comum do que as inúmeras
vitórias conquistadas
nas pistas e o rótulo
de favoritos para a edição
2007 da competição.
Mas não têm.
Desde as primeiras horas deste
domingo até o início
da coletiva oficial que antecede
a 83ª edição
da mais tradicional prova de
rua do país, a reportagem
da Gazeta Esportiva.Net acompanhou
de perto os movimentos da dupla
e constatou que, para ter sucesso
no atletismo, não existe
fórmula exata.
Com comportamentos completamente
opostos, Caldeira e Cheruiyot
divergem desde a alimentação
até a estratégia
de treinamentos e as atividades
de lazer.
Medalha de ouro nos Jogos
Pan-americanos do Rio de Janeiro,
vencedor da Meia-Maratona do
Rio, tricampeão da Volta
da Pampulha e atual vencedor
da São Silvestre, Franck
Caldeira segue à risca
o cardápio elaborado
para os praticantes do atletismo.
Frutas, pães e massas,
com uma pequena porção
de arroz e um pedaço
de carne assada povoaram as
refeições do
campeão. Saladas, nem
pensar!
“A salada não
me traz ganho energético
nenhum. É o famoso enfeite
de prato, o mesmo que viajar
com quatro pneus de estepe
no porta-malas. Não
tem serventia”, brincou. “Também
procuro evitar ao máximo
comer coisas gordurosas ou
que possam causar qualquer
tipo de reação
negativa”, completou.
Cheruyot também não
mudou seus hábitos alimentares
na véspera da São
Silvestre, mas, ao contrário
do brasileiro, usou e abusou
do bufê de saladas. “Não
vejo razão para mudar
minha alimentação
ou qualquer coisa em minha
preparação”,
sintetizou o queniano.
Ainda no restaurante do hotel
Trianon Paulista, que recebeu
pela quarta vez seguida os
atletas do pelotão de
elite da São Silvestre,
outro ponto divergente ficou
claro na dupla: enquanto Franck
Caldeira era interrompido a
cada cinco minutos para posar
para fotos ou dar autógrafos,
Cheruyot, acompanhado do também
atleta queniano Patrick Ivuti,
posava para poucas fotos, a
maioria a pedido de outros
corredores menos famosos.
A popularidade de Franck Caldeira
também se confirmou
em alta durante o treino, realizado
por volta das 10 horas da manhã no
Parque do Ibirapuera. Desde
que chegou ao local, foi cercado
por corredores anônimos
e freqüentadores do Parque,
esbanjando simpatia e posando
para incontáveis fotos.
“Essa cobrança
do público é algo
que encaro como um incentivo.
Poucos atletas têm essa
paciência com as pessoas
ou para dar entrevistas, mas
eu gosto, pois faz parte da
profissão que escolhi”,
explicou o mineiro.
Tranqüilidade, Caldeira
encontrou apenas nos 34 minutos
que gastou para dar uma volta
completa no local, acompanhado
do treinador, Henrique Viana,
e de outros integrantes da
equipe de seu técnico,
a Pé de Vento, de Petrópolis.
Robert Cheruiyot, no entanto,
optou por não seguir
alguns de seus compatriotas
que também foram ao
Ibirapuera e, ao lado do inseparável
colega Ivuti, permaneceu no
lobby do hotel, deixando a
derradeira preparação
para o período da tarde,
quando o clima estará mais
parecido com o que será encontrado
no horário em que a
prova será disputada
nesta segunda-feira. Em um raro
momento de lazer, deixou o
hotel caminhando até a Avenida
Paulista, de onde pôde avistar
o Masp, um dos principais pontos
do percurso da São Silvestre.
Até quando o assunto
foi a expectativa em relação
ao desempenho na corrida as
opiniões foram opostas.
Bicampeão da prova (2002
e 2004), Cheruiyot não
tem dúvidas de que está bem
preparado para desempenhar
um bom papel. “Não
participei no ano passado,
mas fiz uma boa temporada,
estou bem e acredito que poderei
render o meu melhor”,
afirmou o atleta, que neste
ano venceu a Maratona de Boston.
O brasileiro, apesar de ressaltar
que também está bem
preparado, não quis
aumentar o peso sobre suas
costas. “Este ano tenho
a responsabilidade de defender
o título, mas não
sou Deus e não estou
preocupado se vai dar para
ser bicampeão ou não,
até porque já faz
um bom tempo que não
há um bicampeão
seguido (o último foi
Paulo Tergat, de 1998 a 2000).
Tive um ano incrível
e não será a
falta de um tijolo que irá derrubar
o bonito muro que construí durante
toda a temporada”, finalizou
Caldeira. |