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12/08/2008
Montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli / Gazeta Press

Carolina Canossa*

Foto Fernando Pilatos / Gazeta Press

Robert Scheidt, em regata da classe Laser dos Jogos Pan-americanos de 2007.

Quando se fala em vela no Brasil, o primeiro nome que vem à cabeça das pessoas é Robert Scheidt. Aqueles que costumam acompanhar esportes olímpicos com certa freqüência também se lembrarão de Torben Grael. Peça mais um nome e a coisa começará a ficar complicada...

Também pudera: juntos, os dois somam nada menos que 15 títulos mundiais e oito medalhas olímpicas, a metade de ouro - ao todo, ambos tiveram participação em 57% das campanhas que culminaram em uma medalha para o Brasil na vela, o esporte olímpico mais vitorioso do país.

Em Pequim-2008, mais uma vez Scheidt, agora ao lado de Bruno Prada na classe Star, é a grande esperança da torcida verde-amarela – Torben, que disputaria a vaga olímpica com Robert, abdicou da competição por conta de um convite para participar da Volvo Ocean Race, prestigiada regata de volta ao mundo que começa pouco depois dos Jogos, em 04 de outubro.

Porém, entre os outros dez atletas que compõem a equipe nacional de vela em Pequim há gente disposta a usar a oportunidade chinesa para aparecer com a conquista de uma surpreendente medalha. "A vela pode manter a tradição de sempre trazer medalha para o Brasil mesmo com uma equipe bastante renovada", atesta Torben.

Entre os brasileiros que vão enfrentar as condições instáveis e a ameaça das algas na Marina de Qingdao, encontram-se atletas que querem usar a competição chinesa apenas para ganhar experiência para competições futuras, como Eduardo Couto, a dupla Fábio Pillar/Samuel Albrecht e Patrícia Freitas. Outros, porém, possuem resultados bastante representativos no currículo, caso de Ricardo Winick, o Bimba, campeão mundial de RS:X em 2007. Outros, como de Fernanda Oliveira/Isabel Swan, André Fonseca/Rodrigo Duarte e Bruno Fontes já beslicaram marcas importantes, mas ainda aguardam a consagração que pode vir na China.

"Depois de Atenas, topei fazer mais quatro anos de campanha olímpica desde que eu tivesse condições de ganhar uma medalha. Pódio é um sonho, mas eu só iria se pudesse chegar nas Olimpíadas realmente em condições de brigar por uma medalha", avisa Fernanda Oliveira, que já tem a experiência de duas Olimpíadas no currículo (Sidney-2000 e Atenas-2004).

Ao lado de Isabel Swan, ela conquistou o melhor resultado de uma mulher brasileira na história da vela olímpica: a quarta colocação no Mundial de 2005, disputado na cidade chinesa de Rizhao, menos de 200km ao sul da sede olímpica. Agora, o sonho das duas é entrar para a história como a primeira brasileira do sexo feminino a estar entre as melhores do mundo em uma Olimpíada. "A vela feminina no Brasil tem um espaço a ganhar e espero que seja com a gente", comenta Fernanda.

Ao mesmo tempo em que admite já ter sofrido um certo preconceito em um ambiente tão masculinizado ("Tem homens que encaram a gente de modo diferente"), a velejadora relata outras dificuldades de sua condição. "Muitas vezes a gente precisa aumentar a musculação para ficar mais forte e não bonita. Tem que ter um namorado bem compreensivo", brinca.

E é justamente o lado pessoal que pode fazer com que Pequim seja a última oportunidade de Fernanda conquistar a medalha olímpica. Mesmo com apenas 27 anos, ela coloca uma possível participação em Londres-2012 em dúvida. "Só sei que vou casar no final do ano. Um novo ciclo olímpico vai depender de muitos fatores. Por enquanto, procuro me concentrar só no que vai acontecer em agosto", admite.

Quem também espera surpreender é a dupla André Fonseca e Rodrigo Duarte, que disputam a classe 49er. Quatro anos atrás, os dois chegaram a figurar entre os três primeiros colocados em Atenas, mas acabaram não conseguindo um lugar no pódio. "Naquela época éramos bons em vento fraco e não no vento forte. No único dia de regata que não deu vento fraco, escorregamos do terceiro para o sexto lugar", lembra Fonseca, conhecido no mundo da vela como Bochecha. "Claro que não ficamos contentes, mas não foi uma lição triste. Vimos que para ganhar uma medalha é preciso ser completo. O atleta tem que ser bom em todas as condições", destaca.

Lição aprendida, a meta é não deixar a chance escapar de novo, desta vez na China. "Temos condições reais de brigar por medalhas. Um dos exemplos disso foi a nossa sexta colocação no Pré-Olímpico do ano passado, que contou com os mesmos adversários que iremos enfrentar em Pequim", analisa Bochecha. Ele se anima com a previsão de ventos fracos na raia chinesa. "Gostamos dessa condição. Preferimos até que seja assim", assegura. Isso não significa, porém, que a dupla se sinta completamente à vontade. "O local é um pouco imprevisível...de qualquer forma, esperamos um resultado melhor do que o obtido em Atenas", afirma.

Bruno Fontes, por sua vez, tem a missão de suceder ninguém menos que Robert Scheidt na classe Laser – uma oportunidade, aliás, que ele, velejador desde os oito anos e sétimo colocado no Mundial 2006, esperava há muito tempo. "Não sou nenhum moleque, tenho 20 anos de vela, mas o Scheidt me ofuscava", admite o o atleta, que não quer decepcionar. "Estou muito confiante depois de anos de espera por esta oportunidade", comemora.

Mas, apesar do discurso, Bruno faz questão de mandar um recado bem claro à torcida brasileira. "Nunca vou ser um Scheidt, que é um fenômeno como poucos. Sou um cara que trabalha duro e tenho um caminho a trilhar. A vela é um esporte de longevidade. Se não aparecer medalha nesta Olimpíada, com certeza terei mais uma chance depois", avisa. Formado em engenharia ambiental, Fontes reconhece ainda que as condições da raia de Qingdao não são as ideais para o seu estilo. "Prefiro competir em situações com vento médio e forte porque me sobressaio, mas estou treinando muito e a Laser é uma classe nivelada, começando pelo material que é sorteado. Quem sabe eu não consiga uma medalha?", sonha.

Uma medalha que escapou de Ricardo Winick, o Bimba, em 2004. E que o campeão mundial em 2007 quer conquistar em Pequim. Quatro anos atrás, em Atenas, Bimba chamou a atenção da torcida brasileira ao ficar muito próximo de uma medalha surpreendente na classe Mistral. O sonho, entretanto, virou decepção e um vento traiçoeiro o fez terminar a última regata na 17ª colocação, apenas uma posição atrás daquela que poderia chegar para conquistar pelo menos o bronze.

Quatro anos depois e na classe RS:X (a grosso modo, uma evolução da Mistral), Bimba quer finalmente deixar a frustração grega passar. "Como ganhei o Mundial de 2007, chances eu tenho. Só que acredito que pelo menos dez velejadores tem tantas chances de medalha", comentou. Porém, as lições gregas estão bem assimiladas para desta vez o pódio não escapar. "Vou procurar fazer regata após regata e encarar cada uma como se fosse a primeira. Também evitarei qualquer tipo de comemorações, pois tudo pode mudar de repente. Pior do que eu passei, não vai se repetir mais", assegura Bimba.

*Colaborou Marta Teixeira

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