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10/03/2004

Tenistas disputam queda-de-braço com a CBT

Por Fernando Narazaki
colaborou Claudia Andrade

Foto Luz Bittar/Gazeta Press
Março de 1993. O gaúcho Walmor Elias enfrenta inúmeras acusações de desvios de verba, apropriação indébita e enriquecimento. O dirigente vê os tenistas Luiz Mattar e Jaime Oncins (foto), na época os dois melhores do país, pedirem a sua saída da presidência da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). Os tenistas vencem e Elias deixa o cargo, que seria assumido por Gercino Schmitt. No ano seguinte, um promissor dirigente paulista, Nelson Nastás, assume o comando da entidade.

Onze anos se passam e o mês de março volta a ser um marco no tênis. Os principais nomes da modalidade voltaram a se unir com um objetivo: pedir a saída de Nastás da presidência da CBT, assim como de toda a equipe que o cerca no comando da entidade. Os jogadores criticam a falta de atitude da entidade nos últimos anos para implantar um projeto de desenvolvimento da modalidade, enquanto outros dirigentes questionam a entidade por má administração financeira e falsificação de documentos contábeis.

O movimento para mudança no tênis começou no ano passado, com os questionamentos da Federação Catarinense de Tênis (FCT) contra a administração da CBT. Em 21 de fevereiro de 2004, a entidade nacional ganhou de vez a ira dos tenistas com o anúncio da troca de Ricardo Acioly por Jaime Oncins como capitão da Copa Davis. Os jogadores alegaram que não foram consultados pela CBT, sentiram-se traídos e pediram que Oncins deixasse o cargo. Passaram-se dez dias de muita boataria e conversa de bastidores, questionando a administração da entidade presidida por Nastás.

O movimento teve seu ápice nesta quarta-feira. Na parte da manhã, Flávio Saretta seguiu a decisão de Gustavo Kuerten, anunciada na terça, e confirmou que não defende mais o Brasil na Copa Davis sob a gestão de Nastás. Dezenas de tenistas também manifestaram apoio ao movimento e, à tarde, o capitão da Davis, Jaime Oncins, entregou o cargo à CBT.

Ao mesmo tempo, a polícia foi à sede da entidade para cumprir um mandado de busca e apreensão dos documentos contábeis e das atas das assembléias de 2000, 2001 e 2002. A medida foi tomada em cumprimento à queixa-crime solicitada pelo grupo liderado pela Federação Catarinense de Tênis (FCT), oposição à presidência da entidade.

“É hora dos tenistas fazerem alguma coisa. É uma decisão difícil, já joguei Copa Davis com cãimbra, mas senti que era o momento de tomar alguma atitude, mesmo que o resultado seja a longo prazo”, comentou Guga, que teve o respaldo de Saretta, André Sá, Francisco Costa, Bruno Soares, Ronaldo Carvalho, Franco Ferreiro e até dos juvenis Bruno Rosa e Leonardo Kirche.

Hoje, o Brasil está sem capitão e com nove dos dez melhores do país fora do confronto contra o Paraguai, em Costa do Sauípe, entre 9 e 11 de abril. Por enquanto, o único que ainda não se manifestou publicamente, mas deve apoiar a decisão do grupo é o gaúcho Marcos Daniel, atual 192º do mundo e quarto melhor do Brasil. “Mas acho que ninguém vai ser louco de aceitar (a convocação). Vai ficar contra todos os jogadores, é a hora de fazermos algo” , comentou o paranaense Alexandre Bonatto, 644º do mundo e 21º melhor do país.

Do outro lado, Nastás garante que fica no cargo e não cederá às pressões de jogadores, técnicos e dirigentes. “Vou cumprir meu mandato até o final. Não vou ceder à pressão dos jogadores e quem perde com tudo isso é o tênis brasileiro”, explicou o dirigente. Nastás tem até 30 de março para anunciar a equipe que enfrenta o Paraguai pela última rodada da Zona Americana da Copa Davis. Até lá, os jogadores apostam que a história de 1993 se repetirá. “Ele não vai resistir e vai cair até lá. É hora do tênis mudar”, confidencia um jogador da equipe brasileira, que pede anonimato.

Se Nastás permanecer, Oncins acredita que o Brasil amargará um vexame histórico. “Não sei o que pode acontecer agora. O que vai acontecer é um problema da CBT. O certo é que não haverá acordo e os tenistas não vão mudar de idéia sem a saída do Nastás”, disse o ex-tenista, que durou apenas 18 dias no posto de capitão da equipe brasileira.

Fora de tudo, o Paraguai apenas aguarda o desfecho da crise do rival, após ter enfrentado a mesma situação em 2004. No início do ano, Ramon Delgado anunciou o boicote à Copa Davis, por divergências com a entidade. Em fevereiro, os atletas chegaram a um acordo e o país derrotou a Venezuela, creditando-se assim para o confronto contra o Brasil. Se perder, o Brasil enfrenta os venezuelanos, sob o risco de cair para a segunda divisão da Zona Americana, o que equivale à terceira divisão mundial, resultado nunca visto na competição.

Cronologia

2/julho/2003 – Federação Catarinense (FCT) lidera movimento e entra na Justiça para reinvidicar atas das assembléias de 2000, 2001 e 2002, documentos contábeis dos mesmos anos e pagamento de taxas da Copa Davis do duelo entre Brasil e França, em 2000
7/setembro/2003 – FCT ganha apoio de outras oito federações e entra com pedido para cancelar assembléia da CBT.
21/setembro/2003 – Brasil perde do Canadá por 3 a 2, e cai para a Zona Americana da Copa Davis. Reunião entre jogadores, Nastás e o capitão da Davis, Ricardo Acioly no hotel pede mudança no comando da entidade. Nastás se revolta com atitude de Acioly.
9/dezembro/2003 – Assembléia ordinária (referente a 2003) e extraordinária (referente a 2001 e 2002) da CBT é suspensa pela Justiça, com liminar obtida pelo grupo liderado pela FCT. A CBT cassa liminar e realiza a assembléia extraordinária, à revelia das federações.
21/fevereiro/2004 – A dois dias do Torneio de Costa do Sauípe, Nastás anuncia a saída de Acioly do comando da Davis. Oncins assume o lugar, Nastás passa Carnaval em Bruxelas e jogadores são comunicados às pressas pelo novo capitão. Reunião em hotel na Bahia termina com jogadores criticando postura de Oncins, que é pressionado a deixar o cargo.
22/fevereiro/2004 – Guga e o técnico Larri Passos criticam publicamente a postura da CBT na troca do capitão, e reclamam sobre a falta de consulta aos atletas. Guga expõe a sua insatisfação com a gestão Nastás e diz que tênis precisa mudar. Saretta acompanha a opinião do catarinense.
23/fevereiro/2004 – Começa torneio em Sauípe. Polêmica em torno da troca de capitão gera discussões e atletas começam a firmar possível movimento de boicote à Davis.
29/fevereiro/2004 – Guga é campeão em Sauípe e volta a criticar Nastás. “Fui número um do mundo, estou no torneio mais importante do Brasil, sou campeão e o presidente da CBT não está”. Começam ligações entre Saretta, Sá, Guga e Oncins.
9/março/2004 – Guga anuncia que não joga a Davis em virtude das divergências com a atual administração da CBT.
10/março/2004 – Saretta acompanha Guga e movimento ganha respaldo de dezenas de tenistas. Oncins renuncia ao posto de capitão da Davis. Sede da CBT é tomada por policiais, que cumprem mandado de busca e apreensão de documentos contábeis e atas de assembléias.

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