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Tenistas disputam queda-de-braço
com a CBT
Por Fernando Narazaki
colaborou Claudia Andrade
| Foto Luz Bittar/Gazeta Press |
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Março de 1993. O gaúcho Walmor
Elias enfrenta inúmeras acusações de desvios de verba, apropriação
indébita e enriquecimento. O dirigente vê os tenistas Luiz Mattar
e Jaime Oncins (foto), na época os dois melhores do país,
pedirem a sua saída da presidência da Confederação Brasileira
de Tênis (CBT). Os tenistas vencem e Elias deixa o cargo, que
seria assumido por Gercino Schmitt. No ano seguinte, um promissor
dirigente paulista, Nelson Nastás, assume o comando da entidade.
Onze anos se passam e o mês de março volta a ser um marco
no tênis. Os principais nomes da modalidade voltaram a se
unir com um objetivo: pedir a saída de Nastás da presidência
da CBT, assim como de toda a equipe que o cerca no comando
da entidade. Os jogadores criticam a falta de atitude da entidade
nos últimos anos para implantar um projeto de desenvolvimento
da modalidade, enquanto outros dirigentes questionam a entidade
por má administração financeira e falsificação de documentos
contábeis.
O movimento para mudança no tênis começou no ano passado,
com os questionamentos da Federação Catarinense de Tênis (FCT)
contra a administração da CBT. Em 21 de fevereiro de 2004,
a entidade nacional ganhou de vez a ira dos tenistas com o
anúncio da troca de Ricardo Acioly por Jaime Oncins como capitão
da Copa Davis. Os jogadores alegaram que não foram consultados
pela CBT, sentiram-se traídos e pediram que Oncins deixasse
o cargo. Passaram-se dez dias de muita boataria e conversa
de bastidores, questionando a administração da entidade presidida
por Nastás.
O movimento teve seu ápice nesta quarta-feira. Na parte
da manhã, Flávio Saretta seguiu a decisão de Gustavo Kuerten,
anunciada na terça, e confirmou que não defende mais o Brasil
na Copa Davis sob a gestão de Nastás. Dezenas de tenistas
também manifestaram apoio ao movimento e, à tarde, o capitão
da Davis, Jaime Oncins, entregou o cargo à CBT.
Ao mesmo tempo, a polícia foi à sede da entidade para cumprir
um mandado de busca e apreensão dos documentos contábeis e
das atas das assembléias de 2000, 2001 e 2002. A medida foi
tomada em cumprimento à queixa-crime solicitada pelo grupo
liderado pela Federação Catarinense de Tênis (FCT), oposição
à presidência da entidade.
“É hora dos tenistas fazerem alguma coisa. É uma decisão
difícil, já joguei Copa Davis com cãimbra, mas senti que era
o momento de tomar alguma atitude, mesmo que o resultado seja
a longo prazo”, comentou Guga, que teve o respaldo de Saretta,
André Sá, Francisco Costa, Bruno Soares, Ronaldo Carvalho,
Franco Ferreiro e até dos juvenis Bruno Rosa e Leonardo Kirche.
Hoje, o Brasil está sem capitão e com nove dos dez melhores
do país fora do confronto contra o Paraguai, em Costa do Sauípe,
entre 9 e 11 de abril. Por enquanto, o único que ainda não
se manifestou publicamente, mas deve apoiar a decisão do grupo
é o gaúcho Marcos Daniel, atual 192º do mundo e quarto melhor
do Brasil. “Mas acho que ninguém vai ser louco de aceitar
(a convocação). Vai ficar contra todos os jogadores, é a hora
de fazermos algo” , comentou o paranaense Alexandre Bonatto,
644º do mundo e 21º melhor do país.
Do outro lado, Nastás garante que fica no cargo e não cederá
às pressões de jogadores, técnicos e dirigentes. “Vou cumprir
meu mandato até o final. Não vou ceder à pressão dos jogadores
e quem perde com tudo isso é o tênis brasileiro”, explicou
o dirigente. Nastás tem até 30 de março para anunciar a equipe
que enfrenta o Paraguai pela última rodada da Zona Americana
da Copa Davis. Até lá, os jogadores apostam que a história
de 1993 se repetirá. “Ele não vai resistir e vai cair até
lá. É hora do tênis mudar”, confidencia um jogador da equipe
brasileira, que pede anonimato.
Se Nastás permanecer, Oncins acredita que o Brasil amargará
um vexame histórico. “Não sei o que pode acontecer agora.
O que vai acontecer é um problema da CBT. O certo é que não
haverá acordo e os tenistas não vão mudar de idéia sem a saída
do Nastás”, disse o ex-tenista, que durou apenas 18 dias no
posto de capitão da equipe brasileira.
Fora de tudo, o Paraguai apenas aguarda o desfecho da crise
do rival, após ter enfrentado a mesma situação em 2004. No
início do ano, Ramon Delgado anunciou o boicote à Copa Davis,
por divergências com a entidade. Em fevereiro, os atletas
chegaram a um acordo e o país derrotou a Venezuela, creditando-se
assim para o confronto contra o Brasil. Se perder, o Brasil
enfrenta os venezuelanos, sob o risco de cair para a segunda
divisão da Zona Americana, o que equivale à terceira divisão
mundial, resultado nunca visto na competição.
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Cronologia
2/julho/2003
– Federação Catarinense (FCT) lidera movimento e entra
na Justiça para reinvidicar atas das assembléias de
2000, 2001 e 2002, documentos contábeis dos mesmos anos
e pagamento de taxas da Copa Davis do duelo entre Brasil
e França, em 2000
7/setembro/2003
– FCT ganha apoio de outras oito federações e entra
com pedido para cancelar assembléia da CBT.
21/setembro/2003
– Brasil perde do Canadá por 3 a 2, e cai para a Zona
Americana da Copa Davis. Reunião entre jogadores, Nastás
e o capitão da Davis, Ricardo Acioly no hotel pede mudança
no comando da entidade. Nastás se revolta com atitude
de Acioly.
9/dezembro/2003
– Assembléia ordinária (referente a 2003) e extraordinária
(referente a 2001 e 2002) da CBT é suspensa pela Justiça,
com liminar obtida pelo grupo liderado pela FCT. A CBT
cassa liminar e realiza a assembléia extraordinária,
à revelia das federações.
21/fevereiro/2004
– A dois dias do Torneio de Costa do Sauípe, Nastás
anuncia a saída de Acioly do comando da Davis. Oncins
assume o lugar, Nastás passa Carnaval em Bruxelas e
jogadores são comunicados às pressas pelo novo capitão.
Reunião em hotel na Bahia termina com jogadores criticando
postura de Oncins, que é pressionado a deixar o cargo.
22/fevereiro/2004 –
Guga e o técnico Larri Passos criticam publicamente
a postura da CBT na troca do capitão, e reclamam sobre
a falta de consulta aos atletas. Guga expõe a sua insatisfação
com a gestão Nastás e diz que tênis precisa mudar. Saretta
acompanha a opinião do catarinense.
23/fevereiro/2004
– Começa torneio em Sauípe. Polêmica em torno da troca
de capitão gera discussões e atletas começam a firmar
possível movimento de boicote à Davis.
29/fevereiro/2004 –
Guga é campeão em Sauípe e volta a criticar Nastás.
“Fui número um do mundo, estou no torneio mais importante
do Brasil, sou campeão e o presidente da CBT não está”.
Começam ligações entre Saretta, Sá, Guga e Oncins.
9/março/2004 –
Guga anuncia que não joga a Davis em virtude das divergências
com a atual administração da CBT.
10/março/2004 –
Saretta acompanha Guga e movimento ganha respaldo de
dezenas de tenistas. Oncins renuncia ao posto de capitão
da Davis. Sede da CBT é tomada por policiais, que cumprem
mandado de busca e apreensão de documentos contábeis
e atas de assembléias.
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