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18/03/2004
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Uma tenda improvisada foi instalada no clube Pinheiros

Por Fernando Narazaki

Ele é um dos nove torneios de Primeiro Mundo do tênis infanto- juvenil, mas os próprios organizadores tratam de compará-lo com eventos do "Segundo" e “Terceiro” Mundo da categoria. Assim está sendo a 34ª edição do Banana Bowl, o único evento sul-americano de nível A, o mais importante do tênis juvenil e com mesmo nível de pontuação dos Grand Slams.

O torneio paulistano teve início na terça-feira no Clube Pinheiros e mostrou uma imagem bem diferente aos tradicionais freqüentadores de uma das competições mais interessantes realizadas no país, que já trouxe nomes como John McEnroe, Ivan Lendl, Gabriela Sabatini, Gustavo Kuerten e, mais recentemente em 2000, Andy Roddick.

Neste ano, como vem acontecendo desde 2002, o evento não conta com o primeiro do mundo e o destaque é a russa Alisa Kleybanova, sexta colocada na lista da Federação Internacional de Tênis (ITF). Apenas três entre as top 20 do mundo estão no evento, bem diferente de 2002, quando seis das 20 melhores estavam em terras nacionais.

No masculino, o quadro é ainda pior. O melhor jogador é o argentino Eduardo Schwank, sétimo do mundo, inferior a 2003, quando o primeiro cabeça-de-chave era Chris Kwon, então quarto do mundo. Schwank é o único entre os top 10 na competição.

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Lukas Lacko diz que o Banana Bowl não está merecendo o rótulo de nível A

Se não bastasse a queda na parte técnica, os atletas também enfrentam condições mais precárias do que as apresentadas até 2003. Em vez de placas de sinalização, sala para atendimento médico, sala de jogadores, sala de árbitros e sala de imprensa, o que se vê são apenas duas tendas e um pequeno cubículo, onde médicos, coordenadores, árbitros e jornalistas se espremem para conseguir cumprir o seu trabalho.

Os placares, outrora terceirizados, são substituídos pelos utilizados no próprio clube. A única linha disponível faz apenas ligações locais e não há computadores disponíveis para a própria assessoria de imprensa do evento. Nada que lembre o evento de 2003, em que os jogadores tinham salas para ver seus e-mails, descansar e conversar. As bolas não são trocadas e os jogos de terça-feira não tiveram árbitros de cadeira. Os patrocínios também sumiram junto com a crise deflagrada entre os tenistas profissionais e o comando da CBT na última semana.

Para os atletas, ainda há outra série de inconvenientes extra- quadra. “O maior deles é o trânsito. O transporte é um fator complicado neste torneio”, diz o eslovaco Lukas Lacko, segundo melhor ranqueado no Banana Bowl e 11º do mundo. O mesmo defeito é apontado pela russa Irina Kotkina. “A gente demora muito para chegar aqui. Algumas preferem até ficar no clube e esperar pelo jogo, mesmo que demore horas”, explica.

Já a russa Alisa Kleybanova, maior estrela do evento, se queixa das condições que teve no hotel. “A organização do ano passado estava bem melhor. Há muitas pessoas em cada quarto”, reclama a russa. Nos quartos, os tenistas dividem o dormitório com outras duas pessoas, seguindo uma praxe em eventos juvenis. “Ela já jogou WTA e talvez em Indian Wells teve um quarto para ela, mas para torneio juvenil isso não tem cabimento”, explica Ricardo Reis, árbitro-geral do evento.

Reis ainda alega que os outros problemas apontados pela reportagem são vistos em outros torneios juvenis. “Há problemas, lógico que as condições são inferiores a do último ano e isso eu não preciso falar, mas estamos fazendo o nosso papel. Em todos os eventos do circuito Cosat (dez etapas realizadas em nove países da América do Sul no primeiro trimestre), a situação é a mesma e até piores do que aqui”, comenta.

Os jogadores concordam e afirmam não ver grandes diferenças em relação aos torneios sul-americanos. “Não tivemos maiores problemas aqui, está tudo igual aos outros eventos da Cosat. Temos uma boa ajuda, pessoas dispostas a ajudar e não vejo coisas diferentes”, diz o argentino Eduardo Schwank, primeiro cabeça-de-chave do evento.

Terceiro Mundo - Apesar da comparação positiva, ela oculta a diferença entre os torneios citados. O Banana Bowl é um dos nove eventos do mundo que recebe nível A da Federação Internacional de Tênis (ITF). Além dos quatro Grand Slam (Aberto da Austrália, da França, dos EUA e Wimbledon), apenas mais cinco competições têm o mesmo status, incluindo o evento paulistano.

Já o circuito Cosat tem somente torneios que estão na segunda ou na terceira escala de importância no tênis juvenil. “Realmente não há como comparar com os eventos de Grand Slam, mas com o Cosat estamos melhor que muitos torneios. Em relação a isso, não há dúvidas. O torneio não é uma tragédia como estão falando”, rebate Reis.

Mas a visão dos jogadores é diferente. Entre os nove eventos de ponta da ITF, segundo o relato de jogadores e técnicos, o Banana Bowl foi o que mais deixou a desejar. “Realmente há muitas diferenças entre um Grand Slam e aqui. Não há salas para os jogadores, nem nada. Parece mais um evento normal, não um torneio de nível A”, explica o eslovaco Lukas Lacko, que conquistou o título no Paraguai, na última semana.

Maior esperança do Brasil, o catarinense Bruno Rosa vê com decepção o cenário montado no Pinheiros. “Isso nem parece evento A da ITF, cara. Não há equipamento médico para os atletas, os fisioterapeutas trabalham a céu aberto. O evento caiu muito nesse ano e não adianta atribuir a crise entre CBT e os tenistas por isso. Há uma participação pequena, mas a estrutura tinha de ter sido feita há muito tempo”, desabafa o tenista.

O técnico Ricardo Pimentel, que trabalha com juvenis em Santa Catarina, vai mais longe em suas críticas. “Isso daqui está sendo pior do que o Credicard e Unimed (circuitos juvenis organizados no Brasil). Está muito bagunçado e o fato de não ter árbitros de cadeira no primeiro dia pegou mal”, diz.

Segundo Reis, a ausência de árbitros de cadeira foi provocada pelo acúmulo de partidas (64) e a organização do evento optou por não sobrecarregar os 12 árbitros escalados. “Fizemos isso que é um procedimento normal em qualquer torneio. Há um remanejamento, em virtude das necessidades, e não houve maiores reclamações dos jogadores sobre isso. Os árbitros ficaram se revezando nas quadras, mas não ficaram na cadeira. Eles marcaram pelo espaço. Isso é uma praxe, mas não deve se repetir mais”, avalia.

Sobre as outras críticas, Reis volta a usar a comparação com o Cosat. “Acompanho uma série de eventos juvenis e eles são assim. Aqui tem muito mais do que muito evento por aí. Temos esquemas de emergência médica e há um médico em tempo integral. É melhor do que a maioria do Cosat. Com o Grand Slam, não tem como fazer comparação”, diz.

Ausente nos dois primeiros dias, o presidente da CBT, Nelson Nastás, alegava na sexta-feira, quatro dias antes do início do torneio, que já havia montado toda a estrutura para o evento e não via motivos para críticas. “Toda a estrutura do Banana já está montada e vamos seguir à risca o que pede a ITF. O evento continuará sendo um sucesso de organização”, prometia na época. Jogadores e técnicos não pensam da mesma forma.

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