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31/03/2004

Racha leva disputa eleitoral da CBT a novos rumos

Por Erick Castelhero e Fernando Narazaki

Nem boicote, nem antecipação de eleições, nem terceira via. Nada parece resolver os problemas internos dos dirigentes responsáveis pela administração do tênis. A 45 dias da eleição para a presidência da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), a modalidade segue afundada em uma das maiores crises de sua história.

Com a saída de Nelson Nastás do comando da entidade em 15 de maio, após a votação em Recife, um verdadeiro racha se expôs por grupos de duas regiões, que ficou conhecido como a batalha entre Sul e Norte, e agora uma terceira opção surge pelo poder da entidade.

Em uma reunião na madrugada desta quarta-feira, o diretor-presidente da promotora de eventos Octagon Koch Tavares, Luís Felipe Tavares, teve o seu nome cogitado para assumir a presidência da CBT. No encontro, além de Luís Felipe, estavam presentes o diretor da Koch, Fernando Von Oertzen, o dono da PlayTennis, Eduardo Azevedo, e o dono da Academia Meyer, Marcelo Meyer, e a intenção seria lançar um nome de consenso entre empresários, ex-tenistas, técnicos e presidentes de federações para o comando da entidade.

"Até o momento, nós que vivemos do tênis, estamos vendo que não há nome com uma certa unanimidade. Tem um grupo de Santa Catarina (chamado de ala do Sul), Centro-Oeste e Nordeste (chamado grupo do Norte), e parece que a confusão ficou pior. Entre as conversas que tivemos, o nome indicado pelos especialistas apontaram para Luís Felipe Tavares", explica Marcelo Meyer, que esteve na comissão técnica do Brasil na Copa Davis em 1994 e foi técnico de Fernando Meligeni até metade dos anos 90.

Foto Luz Bittar/Gazeta Press
Equipe da Davis posa para fotos, após acertar ida com diálogos entre grupos de empresários do tênis

A divisão de dois grupos é a maior preocupação do grupo de empresários, que esteve diretamente envolvido nas negociações para montagem da equipe brasileira para a Davis. Partiu da comissão montada por Meyer, Azevedo, Von Oertzen e Tavares, a iniciativa de chamar Carlos Chabalgoity e convocar os tenistas Alexandre Simoni e Marcos Daniel para o confronto contra o Paraguai, pela Zona Americana da Copa Davis.

Para o grupo, a falta de opções levou ao nome de Luís Felipe. "Chegou a um ponto de tomarmos essa decisão, não tinha jeito. O prejuízo de todos envolvidos no tênis já é grande, não queremos que a coisa aumente. E essa guerra pelo poder só vai aumentar este buraco", afirma Meyer.

Racha? - A tensão na disputa pela eleição aumentou após a última sexta-feira, quando 11 federações (Amapá, Ceará, Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rondônia, Sergipe e Tocantins) reuniram-se e os presidentes de três federações (Piauí, Ceará e Minas Gerais) acenaram com a possibilidade de se candidatar pelo grupo. A idéia foi rechaçada e a aliança ficou de marcar nova reunião para os próximos dez dias. "O grupo parecia estar fechado, mas de repente, tudo rachou de novo. Por isso, estamos lançando esta opção", diz Meyer.

O lado do Sul (que é liderado pela Federação Catarinense) também não definiu seu candidato e acredita que haverá uma decisão oficial apenas em 15 de abril. O nome de Jorge Lacerda Rosa, presidente da Federação Catarinense, é apontado como certo pelo grupo, que diz ter o apoio de 15 federações. A indefinição em relação à formação das chapas levou o bloco de empresários a buscar uma terceira opção. Entretanto, a própria aliança dos 'especialistas' pode ver a idéia naufragar, mesmo antes de a candidatura se tornar oficial.

"Existem dois problemas. O Luís, nem nós, nunca fomos políticos do tênis, mas nessa hora, cansamos de ver o tênis sendo mal administrado. Ele (Luís Felipe) tem tráfego internacional, não precisa de dinheiro, e ninguém tem o perfil mais adequado. O nome da maioria dos especialistas é muito forte, mas não vamos perder um minuto falando com presidentes. Ninguém vai fazer barganha ou coisa do gênero. Ele só se candidata se tiver apoio unânime dos presidentes. Não queremos racha", explica Meyer.

O próprio Luís Felipe Tavares admite as pendências em sua candidatura. "Um grupo de empresários, tenistas, ex-tenistas e federações achou que meu nome seria de consenso à frente da CBT. Mas ainda é uma situação a ser analisada”, afirma o dirigente, que foi tenista profissional nos anos 60 e 70, defendendo o Brasil por sete anos na Copa Davis, com cinco vitórias e sete derrotas.

Depois disso, o jogador deixou as quadras e fundou a empresa Koch Tavares em 1972, que participa de organização de eventos. Nos anos 80, a promotora foi responsável por vários torneios no Brasil, voltando a ter envolvimento direto em 2001, quando trouxe um torneio da ATP após dez anos para o país.

Em um primeiro momento, Luís Felipe conta com o respaldo dos presidentes. "Ele é um bom nome, pessoalmente não tenho nada contra ele. E o Luís também tem bom trâmite internacional", afirma Rosa. O presidente da Federação Pernambucana, Frederico Muniz, respalda a opinião do catarinense. 'É um nome de peso, é um ex-jogador, que conhece profundamente o tênis. Eu só não sei se ele aceitaria o cargo".

Monopólio - Entretanto, o maior inconveniente para os dirigentes é justamente o fato de Luís Felipe Tavares ser responsável direto pela Octagon Koch Tavares, que detém a organização do Torneio de Costa do Sauípe, único evento da ATP Series realizado no Brasil, e do confronto entre Brasil e Paraguai, na Copa Davis. "Luís Felipe é um promotor e não é muito produtivo associar um empresário a uma entidade, embora a gente não possa desprezar o conhecimento que uma pessoa como o Luís Felipe tem na área", comenta o presidente da Federação Piauiense, José das Graças Lopes.

Para Miguel Bechara, presidente da Federação Mineira, as dificuldades são históricas. "Tive um problema em 1987 em Minas Gerais. Um grupo de empresários assumiu aqui e acabou em intervenção na entidade. Foi um escândalo", recorda o dirigente.

Caso a candidatura de Tavares não vingue, o mais provável é que um presidente de federação seja indicado para assumir a presidência da entidade. "É bem provável que o novo presidente seja dirigente de alguma federação", afirma Rosa, em um discurso semelhante à sua 'oposição', o lado do Norte-Nordeste. "Não acredito em nomes de fora. O novo presidente deve ser um dirigente, é o mais indicado", explica o presidente da Federação Paraibana, Antônio Esteves.

Para chegar a um consenso, os dirigentes aguardam com ansiedade a realização da Copa Davis, em que provavelmente será definido o futuro da presidência da CBT. "Boa parte das pendências vão ser resolvidas em Sauípe, durante a Davis. Vamos ter várias reuniões com nosso grupo e chegar a um nome", aponta o catarinense Rosa. Aos empresários, o torneio será a melhor chance de conhecer as reais intenções dos dirigentes. "Lá podemos olhar nos olhos de cada um e ver realmente quem quer o bem do tênis", explica Meyer.

Cronologia

2/julho/2003 - Federação Catarinense (FCT) lidera movimento e entra na Justiça para reinvidicar atas das assembléias de 2000, 2001 e 2002, documentos contábeis dos mesmos anos e pagamento de taxas da Copa Davis do duelo entre Brasil e França, em 2000
7/setembro/2003 - FCT ganha apoio de outras oito federações e entra com pedido para cancelar assembléia da CBT.
21/setembro/2003 - Brasil perde do Canadá por 3 a 2, e cai para a Zona Americana da Copa Davis. Reunião entre jogadores, Nastás e o capitão da Davis, Ricardo Acioly no hotel pede mudança no comando da entidade. Nastás se revolta com atitude de Acioly.
9/dezembro/2003 - Assembléia ordinária (referente a 2003) e extraordinária (referente a 2001 e 2002) da CBT é suspensa pela Justiça, com liminar obtida pelo grupo liderado pela FCT. A CBT cassa liminar e realiza a assembléia extraordinária, à revelia das federações.
21/fevereiro/2004 - A dois dias do Torneio de Costa do Sauípe, Nastás anuncia a saída de Acioly do comando da Davis. Oncins assume o lugar, Nastás passa Carnaval em Bruxelas e jogadores são comunicados às pressas pelo novo capitão. Reunião em hotel na Bahia termina com jogadores criticando postura de Oncins, que é pressionado a deixar o cargo.
22/fevereiro/2004 - Guga e o técnico Larri Passos criticam publicamente a postura da CBT na troca do capitão, e reclamam sobre a falta de consulta aos atletas. Guga expõe a sua insatisfação com a gestão Nastás e diz que tênis precisa mudar. Saretta acompanha a opinião do catarinense.
23/fevereiro/2004 - Começa torneio em Sauípe. Polêmica em torno da troca de capitão gera discussões e atletas começam a firmar possível movimento de boicote à Davis.
29/fevereiro/2004 - Guga é campeão em Sauípe e volta a criticar Nastás. “Fui número um do mundo, estou no torneio mais importante do Brasil, sou campeão e o presidente da CBT não está”. Começam ligações entre Saretta, Sá, Guga e Oncins.
10/março/2004 - Saretta acompanha Guga e movimento ganha respaldo de dezenas de tenistas. Oncins renuncia ao posto de capitão da Davis. Sede da CBT é tomada por policiais, que cumprem mandado de busca e apreensão de documentos contábeis e atas de assembléias.
12/março/2004 - Rio de Janeiro deixa grupo da situação e coloca oposição em vantagem na disputa eleitoral da CBT.
15/março/2004 - Reunião de 12 federações, do grupo que apoiava Nastás, pede a saída do dirigente, que atende à solicitação.
17/março/2004 - Nastás antecipa eleições para 15 de maio, compromete-se a renunciar ao cargo e dá autonomia aos jogadores para escolher o capitão da Copa Davis. No dia seguinte, Guga diz que mantém boicote.
23/março/2004 - Nastás dá ultimato aos jogadores para anunciarem participação na Davis. Horas depois, Guga, Sá, Saretta e Mello anunciam publicamente a manutenção do boicote, alegando que só voltam com a saída imediata de Nastás.
24/março/2004 - Acordo entre empresários forma time para Davis. Carlos Chabalgoity é efetivado como capitão, formando equipe com Marcos Daniel, Alexandre Simoni, Júlio Silva e Josh Goffi.
31/março/2004 - Reunião leva grupo de empresários a indicar nome de Luís Felipe Tavares para presidência da CBT, sob condição de unanimidade dos presidentes.

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