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15/12/2005
O RETROCESSO DEPOIS DE DEZ ANOS

Por Marcelo Cazavia

A derrota de Ricardo Mello para o russo Nikolay Davydenko no último dia 3 de outubro não determinou apenas sua eliminação na primeira rodada do Torneio de Metz. O resultado também fez o brasileiro cair cinco posições no ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), do 99° para o 104° lugar, e pela primeira vez em nove anos deixou o Brasil sem nenhum representante entre os 100 primeiros do mundo - em outubro de 1996, os tenistas mais bem colocados do país eram Fernando Meligeni (122°) e Gustavo Kuerten (102°), mas ambos entraram no grupo dos top 100 ainda naquele ano.

O vexame só não foi completo porque Marcos Daniel, com um 94° lugar, evitou que o Brasil terminasse uma temporada sem nenhum top 100 após 28 anos. De qualquer forma, o fato de apenas um brasileiro figurar entre os primeiros da lista remete a dez anos atrás, quando Meligeni encerrou o ano de 1995 em 66°. De quebra, Daniel tornou-se o número 1 do Brasil mais mal classificado no ranking mundial desde 1985, quando Júlio Góes era o 96°.

O mau momento atual do tênis brasileiro marca justamente o fim do melhor período do país na história do tênis profissional, iniciado em 1997 com o primeiro dos três títulos de Roland Garros conquistado por Guga. Naquele ano, o catarinense fechou o ano na 20ª posição do ranking. Em 1999, foi a vez de Meligeni fazer bonito no saibro francês e chegar à semifinal, resultado que o ajudou a terminar a temporada em 25°. No ano seguinte, Guga conquistou o bi em Roland Garros e se tornou o número 1 do mundo ao vencer a Masters Cup, competição que reúne os oito melhores da temporada, batendo entre outros Pete Sampas e Andre Agassi. O tri na França em 2001 fez Guga igualar os feitos de Mats Wilander e Ivan Lendl, ficando atrás apenas do hexacampeão Bjorn Borg.

A realidade atual, porém, é bem diferente. Sem Meligeni, que pendurou a raquete em 2003 após levar a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, e Guga, que passou por duas cirurgias no quadril em 2002 e 2004 e hoje está bem longe de sua melhor forma física e técnica (é atualmente o 294° do mundo), o Brasil voltou a apresentar resultados modestos internacionalmente. Além de não ter nenhum campeão de um torneio da ATP, o Brasil ainda figurou na terceira divisão da Copa Davis, competição por nações da qual o país já foi semifinalista em 1966, 1971, 1992 e 2000.

Para Thomaz Koch, ex-número 24 do mundo (1974), o panorama atual do tênis brasileiro não é tão preocupante. “O que está havendo é que estamos em uma entressafra. Acho que temos condições de voltar a produzir tenistas tops”, diz o ex-jogador de 60 anos, que atualmente dá clínicas para professores e disputa torneios de exibição. “O que me preocupa mais é o tênis feminino, pois desde a Maria Esther Bueno teve muito poucas mulheres que se destacaram. No masculino, temos fases melhores e piores. Temos excelentes tenistas no momento, mas lá fora também tem. A competição está muito acirrada atualmente”, opina.

Essa visão otimista, no entanto, não é compartilhada por outros ex-tenistas brasileiros. Carlos Alberto Kirmayr, 45 anos, ex-número 31 do mundo (1981) e ex-treinador de estrelas como a argentina Gabriela Sabatini, o francês Cedric Pioline e as espanholas Conchita Martinez e Arantxa Sanchez, diz que “o tênis brasileiro sempre foi a mesma coisa”. “Só que apareceu o Guga e ele foi uma coisa diferente por um período. Como foi a Suécia quando tinha o (Bjorn) Borg, como foi a Itália quando tinha o (Adriano) Panatta, como foi a França quando tinha o (Yannick) Noah. Então, o normal é isso aí. E nós temos que levantar a mão pro céu por ter três jogadores entre os 120 do mundo”, diz Kirmayr, referindo-se a Marcos Daniel (94°), Flávio Saretta (109°) e Ricardo Mello (111°).

“Em relação ao trabalho que é feito para colocar um jogador em algum lugar, está muito bom. O Brasil não tem trabalho organizado, nós nunca tivemos nada nesse sentido nas confederações. Por motivos óbvios de que o país tem problemas muito mais básicos do que investir em tênis, o dinheiro que é colocado no tênis é dinheiro de iniciativa privada para campeonatos. Não há verba para treinamentos. Vê se o treinamento que esses meninos recebem é compatível para ter um outro Guga, se os técnicos que treinam esses jogadores têm formação e experiência para levá-los até o alto nível”, critica o ex-jogador, que hoje mantém um centro de treinamento particular em Serra Negra (SP), participa da capacitação de professores na Federação Paulista de Tênis, faz parte da comissão de atletas em Brasília presidida pelo atual secretário de Esportes de São Paulo, Lars Grael, e há oito anos integra uma comissão de técnicos da ITF (Federação Internacional de Tênis).

O presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), Jorge Lacerda da Rosa, acredita que a situação atual é pior ainda que a de dez anos atrás. E dispara contra a administração anterior de Nelson Nastás, que durou 11 anos. “O panorama atual demonstra a realidade que foi deixada pelo grupo anterior da confederação. Poucos tenistas com condições de entrar entre os 100, falta de estrutura e de eventos no Brasil. Tivemos no mesmo período o Guga e o Meligeni, dois dos melhores da nossa história, e não foi aproveitado nada”, diz o dirigente, que tomou posse no dia 18 de dezembro de 2004.

“Estamos em estado de alerta total”, afirma Meligeni, atual capitão da equipe brasileira na Copa Davis. “Há muito tempo o tênis brasileiro vem esperando aparecer um jogador do nada, só que um dia essa fonte seca, e secou. Temos jogadores bons, mas não na proporção que a gente esperava, que era ter sempre quatro ou cinco caras entre os 100 do mundo, sete ou oito entre os 200”, continua Fininho.

O argentino naturalizado brasileiro também não isenta os atletas de responsabilidade.
“Os jogadores têm sua responsabilidade porque não podem apenas colocar a culpa na falta de estrutura, pois na minha época era pior ainda e eu fui lá e venci, assim como Guga, o (Jaime) Oncins e o (Luiz) Mattar. Estamos começando a nos complicar porque estamos apenas dependendo dos jogadores. Se eles começarem a jogar bem, teremos mais gente entre os 100 do mundo amanhã”, diz Meligeni, citando Ricardo Mello, Flávio Saretta, Thiago Alves e o próprio Guga.

Jaime Oncis, que foi 34° do mundo em 1993 e hoje trabalha com seus dois irmãos na formação de jogadores profissionais, também se mostra resignado. “A nossa realidade é essa, infelizmente”.

Djalma Vassão/Gazeta Press
GUSTAVO KUERTEN
Nascimento: 10 de setembro de 1976, em Florianópolis (SC).
Melhor posição no ranking mundial: 1° (2000 e 2001).
Títulos: Roland Garros em 1997, 2000 e 2001; Masters Cup de Lisboa-2000; Masters Series de Monte Carlo em 1999 e 2001; Masters Series de Roma-1999; Masters Series de Hamburgo-2000; Masters Series de Cincinnati-2001; Torneio de Stuttgart em 1998 e 2001; Torneio de Mallorca-1998; Torneio de Santiago-2000; Torneio de Indianápolis-2000; Torneio de Buenos Aires-2001; Torneio de Acapulco-2001; Torneio da Costa do Sauípe em 2002 e 2004; Torneio de Auckland-2003; e Torneio de São Petersburgo-2003.
Outros resultados: Vice-campeão do Masters Series de Montreal-1997, do Masters Series de Miami-2000, do Masters Series de Roma em 2000 e 2001 e do Masters de Indian Wells-2003.
Copa Davis: Semifinal em 2000.
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