| O fenômeno
que (quase) dividiu o país do futebol
Por Felipe Held, especial para a GE.Net
“O primeiro título do Guga serviu para o Brasil aprender que
tênis se joga com raquete”. É assim que Jorge Lacerda, atual
presidente da Confederação Brasileira da categoria (CBT),
define a primeira conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros.
Um esporte praticado ao redor do mundo, mas não tão popular
na "pátria de chuteiras", o tênis dividiu os torcedores
brasileiros entre os anos de 1997 e 2001, auge do Manezinho
no circuito profissional.
Foto: AFP
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O bom desempenho do jovem de 20 anos no saibro parisiense
há uma década atrás despertou o interesse de emissoras
de televisão, que passaram a transmitir ao vivo os principais
torneios profissionais de tênis. Muitos se surpreenderam com
o feito obtido pelo magricela de cabelo desgrenhado, então
66º do ranking de entradas da ATP, que eliminou favoritos
à coroa, como os dois últimos campeões do Aberto da França
– o russo Yevgeny Kafelnikov (terceiro do mundo e vencedor
em 96) e o austríaco Thomas Muster (quinto e campeão de 95)
– e colocou o Brasil pela primeira vez na final de um Grand
Slam desde o título do Aberto dos Estados Unidos de Maria
Esther Bueno, em 1966.
A decisão de Roland Garros, em 8 de junho de 97, aliás,
foi transmitida em rede nacional na manhã do domingo, e o
país pôde ver a sua mais nova surpresa do esporte superar
ninguém menos do que o espanhol Sergi Bruguera, ex-bicampeão
vencedor nos anos de 93 e 94.
A partir de então, não era raro ver pessoas pelas ruas comentando
partidas de campeonatos estaduais de futebol e, em seguida,
discutindo uma partida de tênis. As expressões ace,
set, match point, Masters Series, Grand Slam, entre
outras, passaram a fazer parte das conversas dos brasileiros.
Vendo o crescente interesse da população nacional no novo
esporte, a publicidade não ficou atrás e também retratou o
tênis frente a frente com o futebol. Na ocasião, Kuerten e
a revelação são-paulina Denílson – tido como uma das maiores
promessas do país na época – duelavam, cada um jogando seu
esporte.
A divisão entre os dois esportes também ficou clara entre
os praticantes, em especial crianças. Empolgadas pela popularização
do esporte, elas passaram a comprar raquetes e batiam bola
em quadras de cimento quaisquer, palco das famosas ‘peladas’
entre os amigos. Um claro exemplo é relatado por Luiz Felipe
de Oliveira Castro, com oito anos em 1997.
“Naquela época boa do Guga, eu até faltava no colégio para
ver um jogo de tênis”, conta o adolescente, hoje com 18 anos.
“Foi quando eu descobri que o meu tio tinha uma rede de vôlei
guardada na casa dele. Peguei emprestada, adaptei à quadra
do meu condomínio e, no meu aniversário, pedi uma raquete
e algumas bolinhas para o meu pai. Comecei a jogar com o meu
irmão mais novo e, depois, vários amigos começaram a se interressar.
Muitos gostaram bastante e a gente revezava na hora de jogar.
Depois de algumas partidas, a gente desmontava a rede e começava
a jogar futebol”.
Alguns jovens foram além das "informais" trocas
de bola com colegas e passaram a praticar em academias especializadas,
como é o caso de Marcelo Korber, também com 18 anos. “Comecei
a acompanhar tênis depois do título do Guga e lembro que acordava
cedo para ver os jogos dele pela televisão. Acabei me interessando
e fiz aulas durante quatro anos, mas depois a academia onde
eu treinava fechou e um prédio começou a ser construído no
lugar. Não continuei e comecei a treinar outros esportes”.
Contudo, não foi apenas Korber que parou de praticar depois
de um tempo. Grande parte dos jovens que começaram a dar suas
raquetadas após 97 pôs fim ao sonho de entrar para o circuito
profissional mais tarde. Coincidentemente ou não, a diminuição
do número de tenistas iniciantes aconteceu depois da queda
de Guga no ranking da ATP.
“Deu uma diminuída mesmo”, explica Jaime Oncins, ex-jogador
profissional e atualmente treinador de juvenis. “Mas isso
é explicável, já que, quando o ídolo está em alta, o aumento
de praticantes acontece. O tênis é bem assim, um esporte muito
cíclico na prática. Só que ainda há bastante gente que pratica”.
A safra de novos tenistas no final dos anos 90 e começo
dos 2000 despertou também o interesse de universidades norte-americanas,
e muitos juvenis passaram a migrar para os Estados Unidos
para disputar torneios universitários em troca de uma bolsa
de estudos. A conseqüência foi a troca de um futuro no circuito
profissional por uma carreira no mercado de trabalho.
Um desses exemplos é Pedro Bruno, de 21 anos, que há três
estuda administração em Nova Jersey. “Eu me tornei federado
em 1997 e disputei alguns campeonatos paulistas e brasileiros.
Depois disso, uma agência me procurou e me convidou para treinar
nos Estados Unidos, com direito a bolsa de estudos em uma
faculdade. Fiz os exames necessários, me preparei e fui para
lá em 2004. Estou até hoje, e só volto para o Brasil nas férias”,
conta.
Apesar de ganhar experiência em uma das áreas mais competitivas
do tênis amador, Bruno não tem vontade de se profissionalizar,
apesar de "sentir na pele" a vida de um tenista
do circuito. “O esporte universitário dos Estados Unidos é
apenas um degrau abaixo do profissional; o nível de qualidade
é muito alto. Eu treino durante três horas todos os dias e,
nos finais de semana, disputo os campeonatos. Quando comecei
a faculdade, cheguei até a pensar em me tornar profissional,
mas estou gostando muito do curso de administração e pretendo
seguir carreira na área”.
Mesmo que o fenômeno Gustavo Kuerten não tenha conseguido
colocar o Brasil entre uma potência do tênis mundial, e sequer
tenha feito com que o país tivesse um outro representante
entre os top 50 depois da queda e Guga, serviu para que o
esporte se tornasse popular mesmo sem a disputa de um brasileiro
nos principais torneios profissionais.
“O esporte foi popularizado, as pessoas passaram a entender
muito mais da modalidade”, avalia o ex-tenista profissional
Fernando Meligeni. “Muitas pessoas ainda jogam, e o tênis,
que é um esporte sensacional, continuará a ser conhecido.
Isso vai continuar, a não ser que não tenhamos um representante
entre os 500 do mundo nos próximos anos”.
Até hoje, os principais canais de televisão paga realizam
a transmissão da série do Grand Slam, dos nove Masters Series,
da Masters Cup e da Copa Davis. Os fãs de tênis raramente
vêm um brasileiro em quadra, mas não deixam de lado o debate
sobre a hegemonia do suíço Roger Federer, ameaçada pelo inquestionável
talento do espanhol Rafael Nadal, o atual Rei do Saibro, e
também pela ascensão da revelação sérvia Novak Djokovic.
Ou então a discussão sobre a regularidade da belga Justine
Henin, ofuscada pela beleza e também pelo talento da russa
Maria Sharapova, pelo retorno da norte-americana Venus Williams
e pelo surgimento de nomes como a tcheca Nicole Vaidisova
e as sérvias Jelena Jankovic e Ana Ivanovic. |