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07/06/2007
Foto: AFP

O fenômeno que (quase) dividiu o país do futebol

Por Felipe Held, especial para a GE.Net


“O primeiro título do Guga serviu para o Brasil aprender que tênis se joga com raquete”. É assim que Jorge Lacerda, atual presidente da Confederação Brasileira da categoria (CBT), define a primeira conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros. Um esporte praticado ao redor do mundo, mas não tão popular na "pátria de chuteiras", o tênis dividiu os torcedores brasileiros entre os anos de 1997 e 2001, auge do Manezinho no circuito profissional.

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O bom desempenho do jovem de 20 anos no saibro parisiense há uma década atrás despertou o interesse de emissoras de televisão, que passaram a transmitir ao vivo os principais torneios profissionais de tênis. Muitos se surpreenderam com o feito obtido pelo magricela de cabelo desgrenhado, então 66º do ranking de entradas da ATP, que eliminou favoritos à coroa, como os dois últimos campeões do Aberto da França – o russo Yevgeny Kafelnikov (terceiro do mundo e vencedor em 96) e o austríaco Thomas Muster (quinto e campeão de 95) – e colocou o Brasil pela primeira vez na final de um Grand Slam desde o título do Aberto dos Estados Unidos de Maria Esther Bueno, em 1966.

A decisão de Roland Garros, em 8 de junho de 97, aliás, foi transmitida em rede nacional na manhã do domingo, e o país pôde ver a sua mais nova surpresa do esporte superar ninguém menos do que o espanhol Sergi Bruguera, ex-bicampeão vencedor nos anos de 93 e 94.

A partir de então, não era raro ver pessoas pelas ruas comentando partidas de campeonatos estaduais de futebol e, em seguida, discutindo uma partida de tênis. As expressões ace, set, match point, Masters Series, Grand Slam, entre outras, passaram a fazer parte das conversas dos brasileiros.

Vendo o crescente interesse da população nacional no novo esporte, a publicidade não ficou atrás e também retratou o tênis frente a frente com o futebol. Na ocasião, Kuerten e a revelação são-paulina Denílson – tido como uma das maiores promessas do país na época – duelavam, cada um jogando seu esporte.

A divisão entre os dois esportes também ficou clara entre os praticantes, em especial crianças. Empolgadas pela popularização do esporte, elas passaram a comprar raquetes e batiam bola em quadras de cimento quaisquer, palco das famosas ‘peladas’ entre os amigos. Um claro exemplo é relatado por Luiz Felipe de Oliveira Castro, com oito anos em 1997.

“Naquela época boa do Guga, eu até faltava no colégio para ver um jogo de tênis”, conta o adolescente, hoje com 18 anos. “Foi quando eu descobri que o meu tio tinha uma rede de vôlei guardada na casa dele. Peguei emprestada, adaptei à quadra do meu condomínio e, no meu aniversário, pedi uma raquete e algumas bolinhas para o meu pai. Comecei a jogar com o meu irmão mais novo e, depois, vários amigos começaram a se interressar. Muitos gostaram bastante e a gente revezava na hora de jogar. Depois de algumas partidas, a gente desmontava a rede e começava a jogar futebol”.

Alguns jovens foram além das "informais" trocas de bola com colegas e passaram a praticar em academias especializadas, como é o caso de Marcelo Korber, também com 18 anos. “Comecei a acompanhar tênis depois do título do Guga e lembro que acordava cedo para ver os jogos dele pela televisão. Acabei me interessando e fiz aulas durante quatro anos, mas depois a academia onde eu treinava fechou e um prédio começou a ser construído no lugar. Não continuei e comecei a treinar outros esportes”.

Contudo, não foi apenas Korber que parou de praticar depois de um tempo. Grande parte dos jovens que começaram a dar suas raquetadas após 97 pôs fim ao sonho de entrar para o circuito profissional mais tarde. Coincidentemente ou não, a diminuição do número de tenistas iniciantes aconteceu depois da queda de Guga no ranking da ATP.

“Deu uma diminuída mesmo”, explica Jaime Oncins, ex-jogador profissional e atualmente treinador de juvenis. “Mas isso é explicável, já que, quando o ídolo está em alta, o aumento de praticantes acontece. O tênis é bem assim, um esporte muito cíclico na prática. Só que ainda há bastante gente que pratica”.

A safra de novos tenistas no final dos anos 90 e começo dos 2000 despertou também o interesse de universidades norte-americanas, e muitos juvenis passaram a migrar para os Estados Unidos para disputar torneios universitários em troca de uma bolsa de estudos. A conseqüência foi a troca de um futuro no circuito profissional por uma carreira no mercado de trabalho.

Um desses exemplos é Pedro Bruno, de 21 anos, que há três estuda administração em Nova Jersey. “Eu me tornei federado em 1997 e disputei alguns campeonatos paulistas e brasileiros. Depois disso, uma agência me procurou e me convidou para treinar nos Estados Unidos, com direito a bolsa de estudos em uma faculdade. Fiz os exames necessários, me preparei e fui para lá em 2004. Estou até hoje, e só volto para o Brasil nas férias”, conta.

Apesar de ganhar experiência em uma das áreas mais competitivas do tênis amador, Bruno não tem vontade de se profissionalizar, apesar de "sentir na pele" a vida de um tenista do circuito. “O esporte universitário dos Estados Unidos é apenas um degrau abaixo do profissional; o nível de qualidade é muito alto. Eu treino durante três horas todos os dias e, nos finais de semana, disputo os campeonatos. Quando comecei a faculdade, cheguei até a pensar em me tornar profissional, mas estou gostando muito do curso de administração e pretendo seguir carreira na área”.

Mesmo que o fenômeno Gustavo Kuerten não tenha conseguido colocar o Brasil entre uma potência do tênis mundial, e sequer tenha feito com que o país tivesse um outro representante entre os top 50 depois da queda e Guga, serviu para que o esporte se tornasse popular mesmo sem a disputa de um brasileiro nos principais torneios profissionais.

“O esporte foi popularizado, as pessoas passaram a entender muito mais da modalidade”, avalia o ex-tenista profissional Fernando Meligeni. “Muitas pessoas ainda jogam, e o tênis, que é um esporte sensacional, continuará a ser conhecido. Isso vai continuar, a não ser que não tenhamos um representante entre os 500 do mundo nos próximos anos”.

Até hoje, os principais canais de televisão paga realizam a transmissão da série do Grand Slam, dos nove Masters Series, da Masters Cup e da Copa Davis. Os fãs de tênis raramente vêm um brasileiro em quadra, mas não deixam de lado o debate sobre a hegemonia do suíço Roger Federer, ameaçada pelo inquestionável talento do espanhol Rafael Nadal, o atual Rei do Saibro, e também pela ascensão da revelação sérvia Novak Djokovic.

Ou então a discussão sobre a regularidade da belga Justine Henin, ofuscada pela beleza e também pelo talento da russa Maria Sharapova, pelo retorno da norte-americana Venus Williams e pelo surgimento de nomes como a tcheca Nicole Vaidisova e as sérvias Jelena Jankovic e Ana Ivanovic.

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