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07/06/2007
Foto: AFP

Manezinho aparece para o mundo

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Ninguém, nem ele mesmo, poderia imaginar a cena. No dia 8 de junho de 1997, um magricela catarinense de 20 anos, mais com jeito de surfistas do que de tenista, com dois títulos challenger na carreira, cabelos cacheados e usando uma chamativa camisa azul e amarela, adentrou a quadra principal de complexo de Roland Garros para disputar a final do segundo Grand Slam do ano. Do outro lado, o espanhol Sergi Bruguera, 26 anos, cabelos pretos, que ostentava no currículo o título de bicampeão do torneio, além de outros 12 títulos do circuito masculino.

Se o fato de disputar a final, por si só, já era um sonho para Gustavo Kuerten, a realidade prometia bem mais alegrias. Com uma atuação de gala, repleta de saques potentes e uma poderosa paralela de esquerda, Guga definiu o jogo em apenas 1h50min, a final mais rápida dos 17 anos anteriores.

Naquele ano, o torneio Roland Garros foi mesmo estranho. Antes da competição, a expectativa estava toda voltada para a batalha entre os campeões anteriores da disputa e Pete Sampras, então líder do ranking mundial, em busca do único título de Grand Slam que ainda lhe faltava – e que jamais iria ganhar, diga-se de passagem. O máximo de “zebra” esperada era uma vitória dos espanhóis, sempre eficientes do saibro, ou êxitos dos vencedores do Masters Series disputados em terra batida naquele ano, o chileno Marcelo Rios (campeão em Monte Carlo), o ucraniano Andrei Medvedev (Hamburgo) e o espanhol Alex Corretja (Roma).

Entretanto, como se houvesse uma bruxaria nos ares de Paris, os favoritismos foram caindo pouco a pouco na disputa. Boa parte disso era culpa de três tenistas que formaram a chamada “Revolução Francesa” na competição: Guga, o australiano Patrick Rafter, então 24º colocado no ranking da ATP e dono de apenas um título profissional (sendo este na grama), além do belga Filip Dewulf, um jogador vindo do quali que nem entre os top 100 do mundo estava. Para defender a “honra” dos favoritos, sobrou apenas Bruguera, campeão da competição em 1993 e 1994.

Na semifinal, quando o espanhol eliminou Rafter por 3 sets a 1 (parciais de 6/7 (6-8), 6/1, 7/5 e 7/6 (7-1)) tudo levava a crer que as surpresas tinham parado por aí. “Eu gosto muito do Guga, mas o Bruguera é favorito”, previu John McEnroe, campeão de Roland Garros em 1984, o 67º dos 77 troféus que conquistou como profissional. Nem todos, porém, tinham opinião. “Depois de ter visto os dois jogarem naqueles dias, eu achava que o Guga iria amassar o Bruguera. O espanhol tinha muita regularidade e uma certa variedade de golpes, mas a velocidade da bola do Guga estava ultrapassando todos os limites. Era o mesmo que colocar um Fórmula 1 para disputar com um Stock Car”, opina o jornalista Odir Cunha, especialista em tênis e que já tinha boas referências de Kuerten desde que o catarinense era juvenil.

O jornalista estava certo na sua aposta. Guga conseguiu a primeira quebra de saque da partida no quinto game, quando fez 3/2, e repetiu a dose na nona disputa, fechando a parcial em 6/3. Bruguera não se entregou, mas Kuerten estava impossível e conseguiu quebrar o serviço do rival pela primeira vez no quarto game: 3 a 1. Experiente, o espanhol recuperou-se logo em seguida e diminuiu o placar: 3 a 2, na única vez em que o catarinense não confirmou seu serviço em toda a partida. Cada um seguiu confirmando seu saque até que no décimo game, o brasileiro aprontou de novo e fechou em 6/4.

O sonho estava próximo de se tornar realidade. Totalmente à vontade em quadra, o catarinense foi logo aplicando uma nova quebra ao espanhol no primeiro game do terceiro set. Depois, Bruguera colaborou e, em sua única dupla falta durante todo o duelo, cedeu o sexto game para Guga, que voltou a quebrar o saque rival oitavo game, fechando o set em 6/2 e a partida em 3 sets a 0. Ele era o campeão.

“Tem estilos de jogo que não se encaixam e este foi o caso do Bruguera e do Guga. O brasileiro tinha duas bolas que tiravam o espanhol, que cada vez ia mais para trás na quadra”, relembra Carlos Kirmayr, ex-tenista com vasta experiência em Copa Davis que chegou a ser o número 37 do mundo no início dos anos 80. Em meio as 16 mil pessoas que lotaram as dependências da quadra central, o “manezinho” não titubeou na hora de comemorar o título: subiu as escadarias e foi abraçar o treinador Larri Passos, o irmão Rafael e a mãe Alice. “Ele mereceu”, reconheceu o espanhol.

Outro momento de glória ainda estava reservado a Guga alguns minutos depois: ninguém menos que o sueco Bjorn Borg, hexacampeão de Roland Garros lhe entregou a taça de campeão. Ao lado do ex-número um do mundo, o argentino Guillermo Vilas, que disputou quatro finais no saibro francês (com uma vitória). “Foi uma emoção muito grande receber o troféu da mão dele. Acho que só naquela hora percebi que o troféu era meu”, declarou na época o brasileiro, revelando sua tática para vencer a decisão de forma tão contundente. “Nunca pensei: ‘Hoje é a final e tenho que ganhar’. Joguei como um treino e por isso estava relaxado e curtindo todos os momentos”, garantiu.

Zebra na França, mas não muito

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Larri Passos, mais que um treinador para Guga

Obviamente a conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros há dez anos não era esperada, mas, para quem conhece tênis, a conquista do jovem catarinense não foi tão surpreendente assim. Poucos sabem, mas Guga já ostentava um título em Roland Garros na ocasião: ao lado do equatoriano Nicolas Lapentti, ele havia conquistado em 1994 o torneio de duplas juvenil do Grand Slam. “Eu via o Guga como um cara muito empenhado, focado. Ele tinha muita vontade e disciplina”, destaca o ex-tenista Carlos Kirmayr, que treinou nomes como Gabriela Sabatini, Arantxa Sanchez e Conchita Martinez.

Terceiro jogador não cabeça-de-chave a conquistar o torneio, o brasileiro ainda era um desconhecido, mas já havia conquistado resultados expressivos e acumulava uma boa experiência em Copa Davis, onde enfrentou nomes como Jim Courier, ex-número um do mundo. Em fevereiro de 1997, cerca de três meses antes da conquista, por exemplo, bateu ninguém menos que Andre Agassi no Torneio de Memphis. Depois, no Masters Series de Indian Wells, eliminou o sul-africano Wayne Ferreira, então 10º colocado no ranking mundial.

A vitória em Roland Garros veio e foi o primeiro dos 20 títulos que Kuerten arrematou em toda a sua carreira profissional. Créditos ao técnico Larri Passos, que o acompanhava desde os 13 anos. “Larri era um Deus para o Guga e só essa confiança absoluta fez com que ele tivesse tanta coragem. Na verdade, a coragem dele foi semeada pelo Larri, que acreditou que era possível vencer Andre Agassi, vencer Wayne Ferreira e em seguida ir para Paris e ser campeão de Roland Garros. Ele foi, durante anos, o pai, o amigo e o técnico do Guga. É uma história linda, emocionante até, e tudo isso influiu no resultado que ambos conseguiram”, explica Cunha.

Em termos de premiação, a conquista do Grand Slam francês em 1997 rendeu a Guga nada menos que 644 mil dólares, quantia que deixou o brasileiro surpreso. “Estou feliz com o que tenho e não quero comprar nada”, declarou assim que ganhou o título. Modesto, ele não imaginava que a premiação total de sua carreira chegaria 14.743.338 dólares, sem contar o que obteve com diversos patrocínios como Banco Real, Pepsi, Diadora, Banco do Brasil, Coca-Cola (Guaraná Kuat), Olympikus, Motorola, Head e Grendene (os dois últimos contratos se mantêm até hoje).

Para Kirmayr, o brasileiro não desperdiçou nada em termos de marketing na carreira, especialmente depois de sua primeira grande conquista. “Ele estava totalmente preparado para isso e os empresários dele também, assim como as empresas que patrocinam resultados já prontos”, destaca. Ao todo, Guga acumula 358 vitórias e 191 derrotas na carreira e é um dos poucos tenistas no mundo que tem vantagem no histórico contra Roger Federer, atual papa-títulos do esporte: são duas vitórias em três confrontos diante do suíço.

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