| Manezinho aparece
para o mundo
Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net
Ninguém, nem ele mesmo, poderia imaginar a cena. No
dia 8 de junho de 1997, um magricela catarinense de 20 anos,
mais com jeito de surfistas do que de tenista, com dois títulos
challenger na carreira, cabelos cacheados e usando uma chamativa
camisa azul e amarela, adentrou a quadra principal de complexo
de Roland Garros para disputar a final do segundo Grand Slam
do ano. Do outro lado, o espanhol Sergi Bruguera, 26 anos,
cabelos pretos, que ostentava no currículo o título
de bicampeão do torneio, além de outros 12 títulos
do circuito masculino.
Se o fato de disputar a final, por si só, já
era um sonho para Gustavo Kuerten, a realidade prometia bem
mais alegrias. Com uma atuação de gala, repleta
de saques potentes e uma poderosa paralela de esquerda, Guga
definiu o jogo em apenas 1h50min, a final mais rápida
dos 17 anos anteriores.
Naquele ano, o torneio Roland Garros foi mesmo estranho.
Antes da competição, a expectativa estava toda
voltada para a batalha entre os campeões anteriores
da disputa e Pete Sampras, então líder do ranking
mundial, em busca do único título de Grand Slam
que ainda lhe faltava – e que jamais iria ganhar, diga-se
de passagem. O máximo de “zebra” esperada
era uma vitória dos espanhóis, sempre eficientes
do saibro, ou êxitos dos vencedores do Masters Series
disputados em terra batida naquele ano, o chileno Marcelo
Rios (campeão em Monte Carlo), o ucraniano Andrei Medvedev
(Hamburgo) e o espanhol Alex Corretja (Roma).
Entretanto, como se houvesse uma bruxaria nos ares de Paris,
os favoritismos foram caindo pouco a pouco na disputa. Boa
parte disso era culpa de três tenistas que formaram
a chamada “Revolução Francesa” na
competição: Guga, o australiano Patrick Rafter,
então 24º colocado no ranking da ATP e dono de
apenas um título profissional (sendo este na grama),
além do belga Filip Dewulf, um jogador vindo do quali
que nem entre os top 100 do mundo estava. Para defender a
“honra” dos favoritos, sobrou apenas Bruguera,
campeão da competição em 1993 e 1994.
Na semifinal, quando o espanhol eliminou Rafter por 3 sets
a 1 (parciais de 6/7 (6-8), 6/1, 7/5 e 7/6 (7-1)) tudo levava
a crer que as surpresas tinham parado por aí. “Eu
gosto muito do Guga, mas o Bruguera é favorito”,
previu John McEnroe, campeão de Roland Garros em 1984,
o 67º dos 77 troféus que conquistou como profissional.
Nem todos, porém, tinham opinião. “Depois
de ter visto os dois jogarem naqueles dias, eu achava que
o Guga iria amassar o Bruguera. O espanhol tinha muita regularidade
e uma certa variedade de golpes, mas a velocidade da bola
do Guga estava ultrapassando todos os limites. Era o mesmo
que colocar um Fórmula 1 para disputar com um Stock
Car”, opina o jornalista Odir Cunha, especialista em
tênis e que já tinha boas referências de
Kuerten desde que o catarinense era juvenil.
O jornalista estava certo na sua aposta. Guga conseguiu a
primeira quebra de saque da partida no quinto game, quando
fez 3/2, e repetiu a dose na nona disputa, fechando a parcial
em 6/3. Bruguera não se entregou, mas Kuerten estava
impossível e conseguiu quebrar o serviço do
rival pela primeira vez no quarto game: 3 a 1. Experiente,
o espanhol recuperou-se logo em seguida e diminuiu o placar:
3 a 2, na única vez em que o catarinense não
confirmou seu serviço em toda a partida. Cada um seguiu
confirmando seu saque até que no décimo game,
o brasileiro aprontou de novo e fechou em 6/4.
O sonho estava próximo de se tornar realidade. Totalmente
à vontade em quadra, o catarinense foi logo aplicando
uma nova quebra ao espanhol no primeiro game do terceiro set.
Depois, Bruguera colaborou e, em sua única dupla falta
durante todo o duelo, cedeu o sexto game para Guga, que voltou
a quebrar o saque rival oitavo game, fechando o set em 6/2
e a partida em 3 sets a 0. Ele era o campeão.
“Tem estilos de jogo que não se encaixam e este
foi o caso do Bruguera e do Guga. O brasileiro tinha duas
bolas que tiravam o espanhol, que cada vez ia mais para trás
na quadra”, relembra Carlos Kirmayr, ex-tenista com
vasta experiência em Copa Davis que chegou a ser o número
37 do mundo no início dos anos 80. Em meio as 16 mil
pessoas que lotaram as dependências da quadra central,
o “manezinho” não titubeou na hora de comemorar
o título: subiu as escadarias e foi abraçar
o treinador Larri Passos, o irmão Rafael e a mãe
Alice. “Ele mereceu”, reconheceu o espanhol.
Outro momento de glória ainda estava reservado a Guga
alguns minutos depois: ninguém menos que o sueco Bjorn
Borg, hexacampeão de Roland Garros lhe entregou a taça
de campeão. Ao lado do ex-número um do mundo,
o argentino Guillermo Vilas, que disputou quatro finais no
saibro francês (com uma vitória). “Foi
uma emoção muito grande receber o troféu
da mão dele. Acho que só naquela hora percebi
que o troféu era meu”, declarou na época
o brasileiro, revelando sua tática para vencer a decisão
de forma tão contundente. “Nunca pensei: ‘Hoje
é a final e tenho que ganhar’. Joguei como um
treino e por isso estava relaxado e curtindo todos os momentos”,
garantiu.
Zebra na França, mas não
muito
Foto: Djalma Vassão/Gazeta
Press

Larri Passos, mais que um treinador para Guga |
Obviamente a conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros
há dez anos não era esperada, mas, para quem
conhece tênis, a conquista do jovem catarinense não
foi tão surpreendente assim. Poucos sabem, mas Guga
já ostentava um título em Roland Garros na ocasião:
ao lado do equatoriano Nicolas Lapentti, ele havia conquistado
em 1994 o torneio de duplas juvenil do Grand Slam. “Eu
via o Guga como um cara muito empenhado, focado. Ele tinha
muita vontade e disciplina”, destaca o ex-tenista Carlos
Kirmayr, que treinou nomes como Gabriela Sabatini, Arantxa
Sanchez e Conchita Martinez.
Terceiro jogador não cabeça-de-chave a conquistar
o torneio, o brasileiro ainda era um desconhecido, mas já
havia conquistado resultados expressivos e acumulava uma boa
experiência em Copa Davis, onde enfrentou nomes como
Jim Courier, ex-número um do mundo. Em fevereiro de
1997, cerca de três meses antes da conquista, por exemplo,
bateu ninguém menos que Andre Agassi no Torneio de
Memphis. Depois, no Masters Series de Indian Wells, eliminou
o sul-africano Wayne Ferreira, então 10º colocado
no ranking mundial.
A vitória em Roland Garros veio e foi o primeiro dos
20 títulos que Kuerten arrematou em toda a sua carreira
profissional. Créditos ao técnico Larri Passos,
que o acompanhava desde os 13 anos. “Larri era um Deus
para o Guga e só essa confiança absoluta fez
com que ele tivesse tanta coragem. Na verdade, a coragem dele
foi semeada pelo Larri, que acreditou que era possível
vencer Andre Agassi, vencer Wayne Ferreira e em seguida ir
para Paris e ser campeão de Roland Garros. Ele foi,
durante anos, o pai, o amigo e o técnico do Guga. É
uma história linda, emocionante até, e tudo
isso influiu no resultado que ambos conseguiram”, explica
Cunha.
Em termos de premiação, a conquista do Grand
Slam francês em 1997 rendeu a Guga nada menos que 644
mil dólares, quantia que deixou o brasileiro surpreso.
“Estou feliz com o que tenho e não quero comprar
nada”, declarou assim que ganhou o título. Modesto,
ele não imaginava que a premiação total
de sua carreira chegaria 14.743.338 dólares, sem contar
o que obteve com diversos patrocínios como Banco Real,
Pepsi, Diadora, Banco do Brasil, Coca-Cola (Guaraná
Kuat), Olympikus, Motorola, Head e Grendene (os dois últimos
contratos se mantêm até hoje).
Para Kirmayr, o brasileiro não desperdiçou
nada em termos de marketing na carreira, especialmente depois
de sua primeira grande conquista. “Ele estava totalmente
preparado para isso e os empresários dele também,
assim como as empresas que patrocinam resultados já
prontos”, destaca. Ao todo, Guga acumula 358 vitórias
e 191 derrotas na carreira e é um dos poucos tenistas
no mundo que tem vantagem no histórico contra Roger
Federer, atual papa-títulos do esporte: são
duas vitórias em três confrontos diante do suíço.
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