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A campanha de 97
Fotos: AFP




Muster, Medvedev, Kafelnikov e Bruguera: as vítimas |
O primeiro adversário de Guga em Roland Garros era
o tcheco Slava Dosedel para quem o catarinense havia perdido
em maio daquele ano, no Masters Series de Monte Carlo. Sem
se importar com o histórico recente, de cara o brasileiro
aplicou um pneu: 6/0. O rival reagiu e quase dificultou as
coisas no segundo set, mas Kuerten venceu por 7/5 e depois
aplicou um 6/1 no adversário, encerrando o jogo com
1h35min de duração.
Na fase seguinte, o oponente era o sueco Jonas Bjorkman,
número 23 do ranking mundial. Só que nem o estilo
agressivo do nórdico foi o suficiente para parar Guga,
que venceu por 3 sets a 1, parciais de 6/4, 6/2, 4/6 e 7/5.
O resultado poderia até ser melhor, se o brasileiro
não tivesse bobeado no terceiro set, quando liderava
por 4 a 1 e permitiu a virada.
A terceira partida de Guga no Grand Slam foi uma das mais
dramáticas de toda a competição. Do outro
lado da quadra estava ninguém menos que o austríaco
Thomas Muster, ex-melhor do mundo e então número
5 do ranking mundial, além de campeão de Roland
Garros em 1995. Depois de perder o primeiro set, Kuerten conseguiu
a virada e teve 3 games a 1 no quarto set. Porém, o
ex-Rei do Saibro se recuperou e chegou a ter 3 a 0 no quinto
set. Tudo parecia perdido. Mas Guga reagiu e garantiu a vitória,
com parciais de 6/7 (3-7), 6/1, 6/3, 3/6 e 6/4.
O austríaco ficou perplexo após o duelo. “Estava
jogando o meu melhor e ainda assim perdia os pontos. Cheguei
a ficar irritado, pois dava o ponto como ganho e a bola voltava
mais forte e mais bem colocada”, declarou Muster.
Nas oitavas-de-final, outra batalha esperava o brasileiro
e novamente com um jogador do Leste Europeu: o ucraniano Andrei
Medvedev. No primeiro set, o estrangeiro saiu em vantagem,
fazendo 7/5. Depois, os dois jogadores iniciaram uma gangorra,
alternando momentos muito bons com outros ruins. Guga, por
exemplo, fez 6/1 e 6/2 nas duas etapas seguintes, mas tomou
um 6/1 no quarto set. Quando o tie-break estava em 2 games
a 2 a partida teve que ser interrompida por falta de luz natural.
Na volta, o catarinense fez 4 a 2, mas permitiu o empate e
esteve prestes a ter o saque quebrado. Porém, mais
uma vez reagiu e marcou 7/5, avançando às quartas-de-final
e igualando Thomaz Koch, brasileiro com melhor desempenho
em Roland Garros até então.
O rival era o russo Yevgeny Kafelnikov, então número
3 na lista da ATP e campeão da competição
no ano anterior. Era a primeira vez que o brasileiro pisava
na quadra central do complexo francês. “Quando
o Guga começou a treinar comigo, a gente batia bola
em uma quadra de saibro esburacada e as reclamações
eram muitas. Mas eu sempre dizia que ele iria jogar na melhor
do mundo. Quando ele enfrentou o Kafelnikov na central, fiquei
emocionado”, comentou o técnico Larri Passos,
ao ver seu pupilo brilhar.
Sem se intimidar, Kuerten abriu 6/2 no primeiro set, mas
perdeu o seguinte por 7/5, dando força para o russo,
que fez 6/2 na terceira etapa. “Quando eu ganhei o terceiro
set achei que seria mais fácil”, admitiu Kafelnikov.
Mas logo em seguida o catarinense venceu seis games consecutivos,
lhe aplicando um pneu: 6/0. Ainda atormentado, o russo não
conseguiu reagir e caiu por 6/4 no tie-break.
Guga já estava entre os quatro melhores da competição.
“É incrível como ele coloca bolas ofensivas,
batendo de todos os lados da quadra”, resignou-se o
campeão eliminado. A vitória sobre Kafelnikov
foi a chave para que a mãe de Kuerten, Alice e a avó,
Olga, que entendia muito do esporte, embarcaram para Paris.
Mesmo na semifinal, o brasileiro mantinha o jeito simples
e andava descalço pelo hotel. Também não
havia ainda deixado o vestiário da quadra “A”,
usado por juvenis naquela semana. “É mais divertido,
pois tenho meus amigos e posso jogar videogame”, justificou
o atleta. Em busca de uma vaga na decisão, Guga teve
que lidar pela primeira vez com o fato de ser favorito e de
ter a torcida quase que toda contra: seu rival era o belga
Filip Dewulf, número 122 do ranking e primeiro tenista
vindo do quali a chegar naquela fase.
| Todos os títulos de simples de Guga |
| 1997 |
Roland Garros |
| 1998 |
Mallorca
Stuttgart Outdoor |
| 1999 |
Masters Series de Monte Carlo
Masters Series de Roma |
| 2000 |
Masters Series de Hamburgo
Indianápolis
Roland Garros
Santiago
Masters Cup |
| 2001 |
Acapulco
Buenos Aires
Masters Series de Cincinnati
Masters Series de Monte Carlo
Roland Garros
Stuttgart |
| 2002 |
Brasil Open |
| 2003 |
Auckland
St. Petersburg |
| 2004 |
Brasil Open |
|
| Todos
os títulos de duplas de Guga |
|
1996 |
Santiago |
1997 |
Bologna
Estoril
Stuttgart Outdoor |
| 1998 |
Gstaad |
| 1999 |
Adelaide |
2000 |
Santiago |
2001 |
Acapulco |
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A torcida incentivava o europeu, que havia eliminado Fernando
Meligeni, com gritos de “Allez Filip”. Mesmo assim,
o brasileiro começou aplicando um 6/1, em 25 minutos.
Mas começou a demonstrar nervosismo, perdeu cinco games
seguidos e o segundo set por 3/6. A derrota serviu para acordar
Kuerten, que fez 6/1 no terceiro set e se usou uma vitória
no Challenger de Curitiba para ter força e vencer o
quarto set por 7/6 (7-4). “Lembrei que ganhei do Betão
(Roberto Jábali) na semifinal depois de ter perdido
oito tie-breaks consecutivos e isso me deu confiança”,
declarou o brasileiro, que depois do jogo deu entrevista para
uma TV francesa com lágrimas nos olhos.
A fácil vitória na decisão, com 3 sets
a 0 (6/3, 6/4 e 6/2) sobre o espanhol Sergi Bruguera foi o
oitavo título individual do Brasil em Grand Slams –
os outros sete vieram com Maria Esther Bueno, que na década
de 60 comemorou conquistou nada menos que três títulos
de Wimbledon e quatro do Aberto da Austrália. Ganhar
a taça na Inglaterra, aliás, era o sonho inicial
de Guga, que substituiu a conquista por Roland Garros, sob
a alegação de que “é muito difícil
jogar na grama”. A vitória na decisão
o alçou para a 14ª colocação no
ranking mundial, até então o melhor que um brasileiro
havia chegado na história. Rendeu-lhe ainda mais de
300 faxes de felicitações pela conquista, vindos
de nomes como Fernando Sherer, Fernando Meligeni e Pelé,
além de cumprimentos do então presidente da
República, Fernando Henrique Cardoso.
“O maior diferencial neste nível era o fato
de o Guga ser zebra, pois ninguém sabia quais eram
as armas deles. Tudo era uma surpresa, pois ele não
tinha ranking para entrar nos principais torneios. Mas tecnicamente
falando, dá para destacar a esquerda paralela dele”,
analisa Kirmayr, que prefere não definir qual foi o
rival mais complicado. “A rodada em que se está
é a mais importante, não interessa que é
o adversário. A campanha começou muito antes.
Além dos duelos contra a Áustria na Davis, Guga
enfrentou em seguida os Estados Unidos pela competição
e isso o colocou de igual para igual com os melhores do mundo.
Depois, ganhou do Agassi. Era uma questão de tempo
e oportunidade que ele soube aproveitar”, define.
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