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07/06/2007
Foto: AFP

A campanha de 97

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Muster, Medvedev, Kafelnikov e Bruguera: as vítimas

O primeiro adversário de Guga em Roland Garros era o tcheco Slava Dosedel para quem o catarinense havia perdido em maio daquele ano, no Masters Series de Monte Carlo. Sem se importar com o histórico recente, de cara o brasileiro aplicou um pneu: 6/0. O rival reagiu e quase dificultou as coisas no segundo set, mas Kuerten venceu por 7/5 e depois aplicou um 6/1 no adversário, encerrando o jogo com 1h35min de duração.

Na fase seguinte, o oponente era o sueco Jonas Bjorkman, número 23 do ranking mundial. Só que nem o estilo agressivo do nórdico foi o suficiente para parar Guga, que venceu por 3 sets a 1, parciais de 6/4, 6/2, 4/6 e 7/5. O resultado poderia até ser melhor, se o brasileiro não tivesse bobeado no terceiro set, quando liderava por 4 a 1 e permitiu a virada.

A terceira partida de Guga no Grand Slam foi uma das mais dramáticas de toda a competição. Do outro lado da quadra estava ninguém menos que o austríaco Thomas Muster, ex-melhor do mundo e então número 5 do ranking mundial, além de campeão de Roland Garros em 1995. Depois de perder o primeiro set, Kuerten conseguiu a virada e teve 3 games a 1 no quarto set. Porém, o ex-Rei do Saibro se recuperou e chegou a ter 3 a 0 no quinto set. Tudo parecia perdido. Mas Guga reagiu e garantiu a vitória, com parciais de 6/7 (3-7), 6/1, 6/3, 3/6 e 6/4.

O austríaco ficou perplexo após o duelo. “Estava jogando o meu melhor e ainda assim perdia os pontos. Cheguei a ficar irritado, pois dava o ponto como ganho e a bola voltava mais forte e mais bem colocada”, declarou Muster.

Nas oitavas-de-final, outra batalha esperava o brasileiro e novamente com um jogador do Leste Europeu: o ucraniano Andrei Medvedev. No primeiro set, o estrangeiro saiu em vantagem, fazendo 7/5. Depois, os dois jogadores iniciaram uma gangorra, alternando momentos muito bons com outros ruins. Guga, por exemplo, fez 6/1 e 6/2 nas duas etapas seguintes, mas tomou um 6/1 no quarto set. Quando o tie-break estava em 2 games a 2 a partida teve que ser interrompida por falta de luz natural. Na volta, o catarinense fez 4 a 2, mas permitiu o empate e esteve prestes a ter o saque quebrado. Porém, mais uma vez reagiu e marcou 7/5, avançando às quartas-de-final e igualando Thomaz Koch, brasileiro com melhor desempenho em Roland Garros até então.

O rival era o russo Yevgeny Kafelnikov, então número 3 na lista da ATP e campeão da competição no ano anterior. Era a primeira vez que o brasileiro pisava na quadra central do complexo francês. “Quando o Guga começou a treinar comigo, a gente batia bola em uma quadra de saibro esburacada e as reclamações eram muitas. Mas eu sempre dizia que ele iria jogar na melhor do mundo. Quando ele enfrentou o Kafelnikov na central, fiquei emocionado”, comentou o técnico Larri Passos, ao ver seu pupilo brilhar.

Sem se intimidar, Kuerten abriu 6/2 no primeiro set, mas perdeu o seguinte por 7/5, dando força para o russo, que fez 6/2 na terceira etapa. “Quando eu ganhei o terceiro set achei que seria mais fácil”, admitiu Kafelnikov. Mas logo em seguida o catarinense venceu seis games consecutivos, lhe aplicando um pneu: 6/0. Ainda atormentado, o russo não conseguiu reagir e caiu por 6/4 no tie-break.

Guga já estava entre os quatro melhores da competição. “É incrível como ele coloca bolas ofensivas, batendo de todos os lados da quadra”, resignou-se o campeão eliminado. A vitória sobre Kafelnikov foi a chave para que a mãe de Kuerten, Alice e a avó, Olga, que entendia muito do esporte, embarcaram para Paris.

Mesmo na semifinal, o brasileiro mantinha o jeito simples e andava descalço pelo hotel. Também não havia ainda deixado o vestiário da quadra “A”, usado por juvenis naquela semana. “É mais divertido, pois tenho meus amigos e posso jogar videogame”, justificou o atleta. Em busca de uma vaga na decisão, Guga teve que lidar pela primeira vez com o fato de ser favorito e de ter a torcida quase que toda contra: seu rival era o belga Filip Dewulf, número 122 do ranking e primeiro tenista vindo do quali a chegar naquela fase.

Todos os títulos de simples de Guga
1997 Roland Garros

1998

Mallorca
Stuttgart Outdoor

1999

Masters Series de Monte Carlo
Masters Series de Roma

2000

Masters Series de Hamburgo
Indianápolis
Roland Garros
Santiago
Masters Cup

2001

Acapulco
Buenos Aires
Masters Series de Cincinnati
Masters Series de Monte Carlo
Roland Garros
Stuttgart

2002

Brasil Open

2003

Auckland
St. Petersburg

2004

Brasil Open
Todos os títulos de duplas de Guga

1996

Santiago

1997

Bologna
Estoril
Stuttgart Outdoor

1998 Gstaad
1999 Adelaide

2000

Santiago

2001

Acapulco

A torcida incentivava o europeu, que havia eliminado Fernando Meligeni, com gritos de “Allez Filip”. Mesmo assim, o brasileiro começou aplicando um 6/1, em 25 minutos. Mas começou a demonstrar nervosismo, perdeu cinco games seguidos e o segundo set por 3/6. A derrota serviu para acordar Kuerten, que fez 6/1 no terceiro set e se usou uma vitória no Challenger de Curitiba para ter força e vencer o quarto set por 7/6 (7-4). “Lembrei que ganhei do Betão (Roberto Jábali) na semifinal depois de ter perdido oito tie-breaks consecutivos e isso me deu confiança”, declarou o brasileiro, que depois do jogo deu entrevista para uma TV francesa com lágrimas nos olhos.

A fácil vitória na decisão, com 3 sets a 0 (6/3, 6/4 e 6/2) sobre o espanhol Sergi Bruguera foi o oitavo título individual do Brasil em Grand Slams – os outros sete vieram com Maria Esther Bueno, que na década de 60 comemorou conquistou nada menos que três títulos de Wimbledon e quatro do Aberto da Austrália. Ganhar a taça na Inglaterra, aliás, era o sonho inicial de Guga, que substituiu a conquista por Roland Garros, sob a alegação de que “é muito difícil jogar na grama”. A vitória na decisão o alçou para a 14ª colocação no ranking mundial, até então o melhor que um brasileiro havia chegado na história. Rendeu-lhe ainda mais de 300 faxes de felicitações pela conquista, vindos de nomes como Fernando Sherer, Fernando Meligeni e Pelé, além de cumprimentos do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

“O maior diferencial neste nível era o fato de o Guga ser zebra, pois ninguém sabia quais eram as armas deles. Tudo era uma surpresa, pois ele não tinha ranking para entrar nos principais torneios. Mas tecnicamente falando, dá para destacar a esquerda paralela dele”, analisa Kirmayr, que prefere não definir qual foi o rival mais complicado. “A rodada em que se está é a mais importante, não interessa que é o adversário. A campanha começou muito antes. Além dos duelos contra a Áustria na Davis, Guga enfrentou em seguida os Estados Unidos pela competição e isso o colocou de igual para igual com os melhores do mundo. Depois, ganhou do Agassi. Era uma questão de tempo e oportunidade que ele soube aproveitar”, define.

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