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Foram 23 anos de dedicação nas quadras de vôlei. O fim da Superliga feminina 2001/2002 tem um gosto de despedida para a atacante Denise Ferreira de Souza. Atuando no Rexona, ela decidiu dizer adeus às competições. Já não participava dos campeonatos desde a segunda metade de 2001, por conta de uma contusão no joelho direito.
Entre os vários títulos que conquistou, ela foi cinco vezes campeã brasileira, campeã mundial interclubes, tricampeã sul-americana de clubes, campeã mundial juvenil, vice-campeã da Copa do Mundo, vice-campeã no Grand Prix e tricampeã paulista. A saudade, Denise terá de aprender a controlar. A lembrança, porém, ficará para sempre em sua memória e no coração de seus fãs. Abaixo, o texto de despedida que Denise fez questão de escrever, para registrar, com suas próprias palavras, a emoção de mais este momento em sua carreira.


O último hino

Uau! Tudo emociona. Todo e qualquer movimento do universo é motivo para mexer comigo lá no fundo e buscar no baú de recordações algum sentimento perdido, alguma história boa ou ruim, uma cena, um jogo, um ponto. Tudo faz lembrar estes 23 anos de vôlei.

Bola, bola, bola, essa sempre foi a minha vida. Ela e tudo que a cercou: tênis, joelheiras, uniformes, vestiários, companheiras de equipe, suor, aquecimento... Convivi com isso durante tanto tempo que não sei quando liguei o piloto automático e já não percebia mais os detalhes de cada coisa. Os momentos iam e vinham sem produzir em mim nada aparentemente diferente. E por estas casas da vida que alguns chamam destino, ou para ser mais atual do que nunca "maktub", aqui estou eu a reparar cada movimento meu antes da última partida, como se não quisesse perder nada, para poder perpetuar aquele instante, de olhos fechados (às vezes bem abertos) para que todos os sentidos ficassem à flor da pele e registrassem toda aquela magia que não sentiria mais.

O último semestre foi bem difícil. Com a contusão do joelho não pude jogar a Superliga, só o jogo contra Brusque que ironicamente, eu acostumada a jogos decisivos, ginásios lotados, adversários arrasadores, valorizei, vivi e agradeci aos céus a possibilidade de jogar contra o último colocado no campeonato. Outra pegadinha da vida? Tive que ler nas entrelinhas deste mal fadado fim de linha o que a vida queria me dizer: aproveite intensamente o hoje, viva o hoje, cada momento, repare em todas as pequenas coisas e guarde consigo estas sensações pois são únicas, suas e muitas não se repetirão mais.

Nós, atletas, temos um cotidiano muito repetitivo, a rotina do treinamento na maioria das vezes é bem monótona e assim fica difícil perceber e absorver todos os detalhes da nossa vida, até mesmo para não desistirmos. Mas eu, quase como uma catarse, me permiti no final da minha carreira ouvir o hino nacional da minha última partida, derramar uma lágrima no canto do olho e passar um filme com tantos episódios vividos em todo esse tempo e, de cabeça erguida, muito orgulhosa de mim, enfim dizer em silêncio: parabéns, você conseguiu, tenho orgulho de você.

Estou levando na bagagem tanta coisa boa que a nossa eliminação para as finais da Superliga e eu não ter tido oportunidade de jogar os jogos das semifinais não foram capazes de afogar uma história tão boa e vencedora como a minha de atleta. Espero que eu tenha deixado uma imagem bonita e alegre de mim para torcedores, atletas e treinadores com quem trabalhei e que eu seja sempre lembrada principalmente pelo meu caráter, minha lealdade, ética e determinação. E que o futuro me guarde boas surpresas e que um dia a gente se cruze. Quem sabe?

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