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Por Fernando Damasceno e Fernando Narazaki
Faltam apenas três meses para o Mundial e a seleção
brasileira feminina de vôlei ainda não tem um
elenco entrosado para a disputa da competição
entre 30 de agosto e 15 de setembro, na Alemanha. Tudo por
causa de uma disputa sem fim entre o técnico Marco
Aurélio Motta e as jogadoras.
Nesta quarta-feira, o treinador comentou a possibilidade
de um "trabalho premeditado e sistemático de algumas
pessoas" contra o seu trabalho na seleção.
Motta mostrou desapontamento com a decisão das jogadoras
Érika, Walewska, Raquel, Fofão, Elisângela
e Virna, que pediram dispensa da seleção há
duas semanas.
Já as atletas preferem permanecer em silêncio
sobre os reais motivos que as afastaram da seleção,
dizendo que apenas o tempo provará quem está
certo. De qualquer forma, elas descartam uma volta à
seleção, enquanto Marco Aurélio Motta
seguir no comando da equipe.
No meio de todo o turbilhão, o Brasil só vem
colecionando fracassos. Após a saída das rebeladas,
o time sofreu derrotas em amistosos diante da República
Dominicana e da Alemanha, países com pouca expressão
na modalidade. Com a saída da espinha dorsal do elenco,
o técnico foi "obrigado" a fazer uma renovação
precipitada e utilizará o Grand Prix, último
torneio antes do Mundial, para tentar entrosar a equipe.
No comando de um elenco com média de 22,6 anos de
idade e com pouca experiência internacional, Motta já
descarta o pódio em 2002 e fala apenas em trabalho
a longo prazo, visando as Olimpíadas de Atenas/2004.
Entre as pessoas ligadas ao vôlei, as opiniões
são divergentes. O técnico Antônio Rizzola
Neto, do MRV/Minas, apoiou a decisão da Confederação
Brasileira de Vôlei (CBV), que prestigou Motta no comando
do time. Já a levantadora Fernanda Venturini estranhou
a reclamação das atletas rebeladas
e isentou-se de qualquer culpa sobre a atual situação
da seleção.
A única coincidência entre todos os lados é
que a única e maior prejudicada com toda esta "guerra"
é a seleção brasileira, dona de duas
medalhas olímpicas de bronze em Atlanta/1996 e Sydney/2000,
vice mundial em 1994 e campeã do Grand Prix em 1994,
96 e 98.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista que o técnico
Marco Aurélio Motta concedeu para Gazeta Esportiva.Net
nesta quarta-feira sobre a delicada situação
da seleção brasileira.
Gazeta Esportiva Net: Como está sendo trabalhar
com um elenco jovem, depois de tudo que aconteceu na seleção?
Marco Aurélio Motta: É um momento difícil.
Tive de fazer uma renovação que não fui
eu quem provocou. Fui induzido a adiantar este processo pela
dispensa das jogadoras. Temos de compensar estas perdas com
o material que nos resta e tive de começar um novo
trabalho há apenas três semanas. Não podemos
sonhar com pódio em 2002 e elas (as jogadoras) sabem
que não adianta ficar se abalando pela cobrança
de resultados.
GE Net: O Brasil perdeu da República Dominicana
(duas derrotas em três amistosos), um país de
quem jamais havia perdido antes. É um sinal de que
o trabalho não está sendo bom?
Motta: Não acredito. A República Dominicana
não é uma equipe fácil. O time chegou
a estar vencendo Cuba por 2 sets a 0 e 18/10 no terceiro set,
antes de perder por 3 sets a 2, no ano passado. Pior foi perder
da Alemanha, mas não teve jeito, o elenco já
estava todo desunido (jogos que aconteceram antes do pedido
de dispensa de Érika, Fofão, Walewska e Raquel).
Agora, a equipe está unida e consciente do trabalho
que precisa fazer. Estamos evoluindo e os jogos contra a República
Dominicana mostraram isso. A derrota é uma conseqüência
de tudo que aconteceu.
GE Net: O Bernardinho comentou que estava triste com
o processo da seleção feminina. Como você
analisa esta afirmação?
Motta: Eu não fui o culpado pela renovação.
Desde que começaram os problemas, sempre fui eu o culpado.
Sempre estive aberto ao diálogo, mas ninguém
fala quais são os motivos da dispensa. A Virna fala
em problema com o filho, a Fofão fala outra coisa e
a Érika diz que não é nenhuma das coisas,
mas ninguém explica direito. Se realmente aconteceu
alguma coisa tão grave precisa ter um motivo. E até
agora, elas não falaram qual é. Será
que eu sou o único errado? Será que eu sou tão
imbecil assim? Eu sou um cara respeitado, fui aprovado por
outros técnicos e tenho uma história no vôlei.
Tenho fatos e sei de coisas que levaram a isso tudo, mas prefiro
não comentar por motivos éticos e porque isso
tenho de passar aos meus superiores, internamente.
GE Net: Quais fatos são esses a que você
se refere?
Motta: Tem inúmeras coisas. Não vou ficar
falando, pois é uma questão interna e as jogadoras
sabem muito bem o que é. Foram elas que pediram dispensa.
Nunca fechei as portas e nem vou fazer isso. Elas poderão
voltar, desde que expliquem quais são os motivos da
dispensa. O mais importante de tudo isso não são
as jogadoras, nem o Marco Aurélio, mas sim o vôlei
brasileiro. Vamos perder espaço e a seleção
é a única prejudicada.
GE Net: A Fernanda Venturini afirmou que ela e o Bernardinho
estão cansados de serem apontados como culpados pela
crise na seleção. Ela está certa?
Motta: Ela é uma grande jogadora e, talvez,
uma das melhores do mundo. Mas, isso não dá
autorização para ela fazer o que bem entende
sobre meu trabalho e meu lado pessoal. Ela sempre fala de
forma pejorativa sobre a minha pessoa. Além disso,
ela já declarou para todo mundo que é conselheira
das jogadoras que pediram dispensa e isso pode ter influenciado.
Há jogadoras e ex-jogadoras que parecem estar fazendo
um trabalho premeditado para tentar desestabilizar o meu trabalho.
Pelo que percebo, sempre há preocupação
dessas pessoas para que a coisa não dê certo.
Seguidamente, elas voltam e sempre me criticam.
GE Net: Mas você acha que isso é pessoal
contra o Marco Aurélio?
Motta: Não importa se é o Marco Aurélio
ou outra pessoa. São sempre as mesmas que me criticam.
É uma situação para que não dê
certo mais a seleção brasileira. Parece que
precisam provar que apenas uma geração dá
certo. Eu não entendo isso, pois é um trabalho
contra o vôlei brasileiro. Desde abril do ano passado,
quando assumi, há sempre uma necessidade de se criar
alguma coisa para desestabilizar o trabalho.
GE Net: E você acha que a Érika, Raquel,
Walewska, Fofão, Virna e Elisângela fazem parte
desse processo?
Motta: Elas estão sendo usadas por essas pessoas.
Elas não percebem que só têm a perder
com toda esta situação. Elas poderiam se coroar
e colher grandes resultados, mas tudo bem. Essa geração
se perdeu em fofocas, em conversinhas e perdeu uma grande
chance. Falei com elas na Suíça que era uma
atitude leviana, mas já que elas tomaram esta decisão,
paciência. Eu não vou ficar correndo atrás
delas.
GE Net: E como você vai trabalhar a parte psicológica
desse elenco?
Motta: Elas já sabem da responsabilidade. Cobrar
resultados e pódio por tudo que está acontecendo
não dá. A cobrança tem de ser pela evolução
do time e isso já está acontecendo com a equipe.
Pena que tivemos de retomar todo um processo. Demos um passo
para trás e vamos usar o Grand Prix como preparação
para o Mundial. É uma pena, pois temos apenas três
meses para deixar o time ajustado. As relações
dentro da equipe ainda não foram sedimentadas. Tem
atacante que nunca jogou com as levantadoras que temos e será
uma dificuldade a mais entrosar este time. Eu só quero
que me deixem tranqüilos para que eu possa trabalhar.
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