Fale conosco Receba o boletim  
13/03/2003

Por Claudia Andrade

"Cometi um erro único, que não voltará a acontecer jamais. Nunca mais." Foi com essa promessa que Gilberto Godoy Filho, o atacante Giba, da seleção brasileira masculina de vôlei, abriu nesta quinta-feira uma entrevista em São Paulo.

Giba foi pego em exame antidoping realizado no dia 15 de dezembro, por uso de maconha. Suspenso pelo seu time, o Ferrara, da Itália, ele ficou em silêncio até que sua punição fosse divulgada, o que aconteceu no último dia 3. O jogador foi condenado à pena mínima, e poderá voltar às quadras no próximo dia 30, pela 11ª rodada do returno da Liga Italiana. "Peguei a pena mínima por mostrar meus antecedentes, que não têm nada, absolutamente nada. Eu me lembro de já ter feito 20 testes no mínimo, e nunca deu nada." Trazido pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) ao País, o jogador queria esgotar o assunto. "Vou falar sobre isso agora e depois quero pensar no Campeonato Italiano, na seleção. Pensar para a frente, na Olimpíada, que o (técnico) Bernardinho quer uma medalha, no Pan-americano, que a gente não tem uma medalha de ouro. É isso o que importa."

Segundo ele, o erro foi cometido em um momento difícil de sua vida pessoal. "Na quadra eu estava em um momento muito bom, mas fora não era muito bom. Tive vários problemas que vieram juntos e sou uma pessoa fechada, não sou de falar. Resolvo meus problemas sozinho", afirma, para acrescentar que os problemas já foram resolvidos e que ele aprendeu uma lição. "Isso serviu para colocar a cabeça no lugar e saber o que é certo. Sou um símbolo, um exemplo para as crianças e vou continuar sendo."

‘Limpeza’ começa pelo bolso

Para continuar sendo um exemplo, Giba fará algumas ações para apagar a imagem negativa decorrente do caso de doping. A primeira delas foi combinada com a CBV e é explicada pelo presidente da entidade. "Eu combinei que ele vai dar um salário na seleção (entre R$ 5 e R$ 6 mil) para uma instituição que cuida de drogados. Isso será uma demonstração de que ele se arrependeu", diz Ary Graça, que dá outro nome para o erro do atleta. "Eu não digo que ele errou, digo que tropeçou mas não caiu."

O jogador, que está sem receber do Ferrara neste período de afastamento, também ofereceu sua imagem "sem ônus para uma campanha antidrogas", que deve ser realizada pela patrocinadora de Giba, a Olympikus. A empresa tem planos de fazer um trabalho institucional com o atacante. "Podemos organizar palestras, que serão divulgadas para tornar a imagem dele positiva", diz o gerente de promoção, Maurício Fragata.

Segundo ele, o contrato com qualquer jogador tem uma cláusula que prevê a rescisão em caso de doping. Mas a empresa não chegou a recorrer a ela. "Consideramos que a empresa não estava envolvida. Foi um erro dele, um erro pontual e por isso mantivemos nossa estratégia de marketing."

Fãs levam mensagem de incentivo ao jogador

Cinco fãs do atacante foram até o hotel em que ele concedeu a entrevista, na Zona Sul de São Paulo, para levar mensagens de apoio ao jogador. Discretas, elas aguardavam que o jogador descesse para falar com elas. A mais animada era Silvia Mokarzel, 17 anos, que estava vestida com a camisa 7 de Giba e levava um envelope cor-de-rosa repleto de corações desenhados e com a inscrição "Boa Sorte". Dentro, além de uma carta, uma foto da fã com o ídolo, tirada durante um jogo em Brasília.

"Quando eu fiquei sabendo da notícia os meus amigos ficaram tirando sarro de mim, porque sabiam que eu gosto dele. Mas eu não ligava, porque ele é humano, ele tem o direito de errar. Se ainda ele tivesse usando doping, aí sim...", defende.

Apesar da discussão existente para tirar a maconha da lista de substâncias proibidas do Comitê Olímpico Internacional, já que ela não melhora a performance do atleta, o brasileiro adotou um discurso radical. "Sou contra tirar e não vai sair. O esporte traz uma mensagem de saúde e é isso que passa para as crianças", afirma Giba, que considera "drogas iguais", o álcool, a maconha e o cigarro. Este, ele admitiu ter consumido. "Passei um tempo sim, fumando cigarro. Mas não era coisa de viciado não", diz. "Essa lição (a suspensão por causa da maconha) foi para eu parar e ver o que quero para o futuro. O cigarro fazia mal para mim e eu já parei."

Seleção terá psicólogo

O caso Giba fez com que a Confederação Brasileira passasse a dar um apoio maior aos demais jogadores. "A seleção está contratando um psicólogo, porque todos nós temos problemas e vamos ter mais ainda. Por isso o doutor Gilberto Getner vai trabalhar com os atletas", anuncia o presidente da CBV, Ary Graça.

Ele ressalta que a entidade "tem um trabalho de prevenção e conscientização muito forte". "Ninguém entra na seleção sem fazer o exame, mesmo nas categorias de base. E não há punição mais forte que ter a consciência do mal que a droga te faz."

O próprio Giba provavelmente precisará recorrer ao psicólogo, já que o incidente será um prato cheio para os rivais quando quiserem irritá-lo e tirar sua concentração durante os jogos. "Isso vai ter mesmo. Vai ter conseqüência disso principalmente com a torcida. Mas não tem o que fazer. E eu, quando estou em quadra não vejo mais nada, só o jogo. Eles vão usar isso por um tempo e depois vão esquecer."

Quem o apoiou durante o processo não foi um profissional da psicologia, mas sim a família e os amigos. "O Bernardinho (técnico da seleção) é uma pessoa espetacular. Ele conversou muito comigo e falamos um pouco de tudo. Conversamos sobre a vida, sobre a carreira e ele me deu conselhos de amigos", diz. "Minha mãe está na Itália desde o início desta história, minha namorada (a jogadora Cristina Pirv) também está me acompanhando e todos os jogadores (da seleção) me ligaram, incentivando, eu também li algumas coisas que eles disseram em entrevistas aqui e está tudo bem. O Ary (Graça) também me ligava duas, três vezes por semana, me dando apoio."

Com o fim do que ele chama de terremoto, Giba se diz pronto para reassumir o posto de ídolo do vôlei nacional. "Quando você ve a bandeira do seu país subindo mais alto... nenhum dinheiro paga isso. Cada um tem que dar o seu exemplo para a sociedade e eu carrego isso (o peso de ser um símbolo) com muito orgulho."

Gazeta Esportiva.Net © Todos os direitos reservados à Gazeta Esportiva.Net Voltar            Topo da página