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Por Claudia Andrade
"Cometi um erro único, que não voltará
a acontecer jamais. Nunca mais." Foi com essa promessa
que Gilberto Godoy Filho, o atacante Giba, da seleção
brasileira masculina de vôlei, abriu nesta quinta-feira
uma entrevista em São Paulo.
Giba foi pego em exame antidoping realizado no dia 15 de
dezembro, por uso de maconha. Suspenso pelo seu time, o Ferrara,
da Itália, ele ficou em silêncio até que
sua punição fosse divulgada, o que aconteceu
no último dia 3. O jogador foi condenado à pena
mínima, e poderá voltar às quadras no
próximo dia 30, pela 11ª rodada do returno da
Liga Italiana. "Peguei a pena mínima por mostrar
meus antecedentes, que não têm nada, absolutamente
nada. Eu me lembro de já ter feito 20 testes no mínimo,
e nunca deu nada." Trazido pela Confederação
Brasileira de Vôlei (CBV) ao País, o jogador
queria esgotar o assunto. "Vou falar sobre isso agora
e depois quero pensar no Campeonato Italiano, na seleção.
Pensar para a frente, na Olimpíada, que o (técnico)
Bernardinho quer uma medalha, no Pan-americano, que a gente
não tem uma medalha de ouro. É isso o que importa."
Segundo ele, o erro foi cometido em um momento difícil
de sua vida pessoal. "Na quadra eu estava em um momento
muito bom, mas fora não era muito bom. Tive vários
problemas que vieram juntos e sou uma pessoa fechada, não
sou de falar. Resolvo meus problemas sozinho", afirma,
para acrescentar que os problemas já foram resolvidos
e que ele aprendeu uma lição. "Isso serviu
para colocar a cabeça no lugar e saber o que é
certo. Sou um símbolo, um exemplo para as crianças
e vou continuar sendo."
Limpeza começa pelo bolso
Para continuar sendo um exemplo, Giba fará algumas
ações para apagar a imagem negativa decorrente
do caso de doping. A primeira delas foi combinada com a CBV
e é explicada pelo presidente da entidade. "Eu
combinei que ele vai dar um salário na seleção
(entre R$ 5 e R$ 6 mil) para uma instituição
que cuida de drogados. Isso será uma demonstração
de que ele se arrependeu", diz Ary Graça, que
dá outro nome para o erro do atleta. "Eu não
digo que ele errou, digo que tropeçou mas não
caiu."
O jogador, que está sem receber do Ferrara neste período
de afastamento, também ofereceu sua imagem "sem
ônus para uma campanha antidrogas", que deve ser
realizada pela patrocinadora de Giba, a Olympikus. A empresa
tem planos de fazer um trabalho institucional com o atacante.
"Podemos organizar palestras, que serão divulgadas
para tornar a imagem dele positiva", diz o gerente de
promoção, Maurício Fragata.
Segundo ele, o contrato com qualquer jogador tem uma cláusula
que prevê a rescisão em caso de doping. Mas a
empresa não chegou a recorrer a ela. "Consideramos
que a empresa não estava envolvida. Foi um erro dele,
um erro pontual e por isso mantivemos nossa estratégia
de marketing."
Fãs levam mensagem de incentivo ao jogador
Cinco fãs do atacante foram até o hotel em
que ele concedeu a entrevista, na Zona Sul de São Paulo,
para levar mensagens de apoio ao jogador. Discretas, elas
aguardavam que o jogador descesse para falar com elas. A mais
animada era Silvia Mokarzel, 17 anos, que estava vestida com
a camisa 7 de Giba e levava um envelope cor-de-rosa repleto
de corações desenhados e com a inscrição
"Boa Sorte". Dentro, além de uma carta, uma
foto da fã com o ídolo, tirada durante um jogo
em Brasília.
"Quando eu fiquei sabendo da notícia os meus
amigos ficaram tirando sarro de mim, porque sabiam que eu
gosto dele. Mas eu não ligava, porque ele é
humano, ele tem o direito de errar. Se ainda ele tivesse usando
doping, aí sim...", defende.
Apesar da discussão existente para tirar a maconha
da lista de substâncias proibidas do Comitê Olímpico
Internacional, já que ela não melhora a performance
do atleta, o brasileiro adotou um discurso radical. "Sou
contra tirar e não vai sair. O esporte traz uma mensagem
de saúde e é isso que passa para as crianças",
afirma Giba, que considera "drogas iguais", o álcool,
a maconha e o cigarro. Este, ele admitiu ter consumido. "Passei
um tempo sim, fumando cigarro. Mas não era coisa de
viciado não", diz. "Essa lição
(a suspensão por causa da maconha) foi para eu parar
e ver o que quero para o futuro. O cigarro fazia mal para
mim e eu já parei."
Seleção terá psicólogo
O caso Giba fez com que a Confederação Brasileira
passasse a dar um apoio maior aos demais jogadores. "A
seleção está contratando um psicólogo,
porque todos nós temos problemas e vamos ter mais ainda.
Por isso o doutor Gilberto Getner vai trabalhar com os atletas",
anuncia o presidente da CBV, Ary Graça.
Ele ressalta que a entidade "tem um trabalho de prevenção
e conscientização muito forte". "Ninguém
entra na seleção sem fazer o exame, mesmo nas
categorias de base. E não há punição
mais forte que ter a consciência do mal que a droga
te faz."
O próprio Giba provavelmente precisará recorrer
ao psicólogo, já que o incidente será
um prato cheio para os rivais quando quiserem irritá-lo
e tirar sua concentração durante os jogos. "Isso
vai ter mesmo. Vai ter conseqüência disso principalmente
com a torcida. Mas não tem o que fazer. E eu, quando
estou em quadra não vejo mais nada, só o jogo.
Eles vão usar isso por um tempo e depois vão
esquecer."
Quem o apoiou durante o processo não foi um profissional
da psicologia, mas sim a família e os amigos. "O
Bernardinho (técnico da seleção) é
uma pessoa espetacular. Ele conversou muito comigo e falamos
um pouco de tudo. Conversamos sobre a vida, sobre a carreira
e ele me deu conselhos de amigos", diz. "Minha mãe
está na Itália desde o início desta história,
minha namorada (a jogadora Cristina Pirv) também está
me acompanhando e todos os jogadores (da seleção)
me ligaram, incentivando, eu também li algumas coisas
que eles disseram em entrevistas aqui e está tudo bem.
O Ary (Graça) também me ligava duas, três
vezes por semana, me dando apoio."
Com o fim do que ele chama de terremoto, Giba se diz pronto
para reassumir o posto de ídolo do vôlei nacional.
"Quando você ve a bandeira do seu país subindo
mais alto... nenhum dinheiro paga isso. Cada um tem que dar
o seu exemplo para a sociedade e eu carrego isso (o peso de
ser um símbolo) com muito orgulho."
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