|
Por Fernando Narazaki, enviado especial a Curitiba
O Rexona estreava Fofão e Elisângela, mas os 1.271 torcedores
que foram ao ginásio do Tarumã, em Curitiba, no último sábado
tiveram outro motivo para assistir ao duelo entre o time paranaense
e o Brasil Telecom/Força Olímpica, na abertura da Superliga
Feminina.
Ironicamente, a atração da noite era uma jogadora adversária.
Sob aplausos, ela entrou na metade do primeiro set e não saiu
mais. A atuação não foi das melhores, mas a oposta Leila Barros
foi a mais procurada pelos fãs e o motivo não podia ser melhor:
após dois anos, a canhotinha está de volta ao vôlei das quadras.
Mas o retorno esteve longe de ser um sonho. Com apenas três
pontos, a atleta deixou a quadra extenuada, de cabeça baixa
e desanimada. "Estou frustrada. Não consegui atacar bem e
não correspondi. Levantaram umas cinco bolas para mim e só
virei duas ou três. Fui muito mal", desabafa a atleta em entrevista
exclusiva à Gazeta Esportiva Net.
Leila admite que mais do que a derrota por 3 sets a 0 (25/14,
25/20 e 25/20), a maior decepção foi sua atuação. "Eu sou
muito crítica comigo mesma e não consegui atacar. Sempre fui
uma jogadora de ataque e a forma como nós perdemos me chateou
demais. Tivemos muitos erros bobos e eu não consegui assumir
a responsabilidade", comenta.
Com duas medalhas de bronze olímpicas (Sydney-2000 e Atlanta-1996)
e mais de dez anos na seleção brasileira, Leila sabe mais
do que ninguém que será a grande responsável pelo sucesso
da equipe de Brasília na Superliga. "Eu e a Ricarda (líbero
da seleção em Sydney) somos as mais experientes e temos de
chamar mesmo essa função. É lógico que o time não é só nós
duas, mas temos uma boa parte. Eu preciso fazer o meu direito",
diz.
A oposta acredita que a contusão no dedo foi fundamental
para a fraca atuação na volta às quadras. "Eu só voltei há
duas semanas e nem tive tempo de me preparar bem. Pelo menos,
o jogo foi bom para saber do meu potencial. Sei que preciso
melhorar muito na parte física, pois no último set, eu não
conseguia nem levantar o braço. Doía muito. Mas vou compensar
isso, sou uma otimista e batalhadora por natureza".
Com 31 anos, Leila ainda vive um momento inédito na carreira
no Força Olímpica. "Vou ter de exercer liderança e comando
pela primeira vez. Em outras equipes, sempre tive com quem
dividir. Aqui, sou só eu e a Ricarda. O importante é que não
estou preocupada com cobranças, mas será muito difícil fazer
isso no começo", admite.
Confiante, a oposta diz que o time tem tudo para melhorar
e chegar aos playoffs. "Você pode ter certeza que vou ralar
muito, muito. Eu não quero mais sair humilhada assim e essa
derrota será um estímulo para mim. Sempre fui assim, sei das
limitações da equipe, mas vou fazer de tudo para classificar
o time".
Escolha - Pelo menos, a jogadora saiu com uma certeza
de Curitiba: fez a escolha certa. Leila voltou ao vôlei de
quadra após dois anos de uma experiência na praia, em que
atuou ao lado de Sandra Pires. Neste período, a canhotinha
venceu três etapas do circuito brasileiro e foi terceira colocada
na classificação geral em 2002.
A parceria com Sandra durou 20 meses e, em junho deste ano,
Leila passou a jogar com Mônica Rodrigues. Era a última tentativa.
Mas a dupla não vingou e Leila optou por voltar à quadra e,
justamente, para defender um time de sua cidade-natal.
"Estava muito amargurada. Não tinha mais a mesma alegria.
Agora, aqui eu encontrei a felicidade. A minha família está
firme, estou com uma pessoa maravilhosa (o jogador de vôlei
de praia Emanuel) e jogo em casa. Não me arrependo de nenhuma
decisão que fiz", aponta.
Neste ano, Leila perdeu a mãe e enfrentou um dos seus piores
momentos. Por isso, a canhotinha fez uma decisão claramente
pessoal. "Fiqui muito mal. A morte da minha mãe abalou todo
mundo e meu pai estava passando por um processo de depressão
muito forte. Tive propostas de outras equipes, mas achei melhor
voltar. Foi uma decisão pessoal e percebi que fiz a coisa
certa. A minha família estava precisando muito de mim, e eu
dela", explica.
Jogando em uma equipe modesta, Leila acredita que este fato
não afetará um possível retorno à seleção brasileira. "Isso
não vai comprometer. Eu procurei não pensar nisso e sim no
lado pessoal. Se fizer o que posso fazer, o Zé Roberto vai
saber o que fazer. Ele sabe do meu potencial", garante. Na
seleção, Leila deve disputar duas vagas com Bia, Elisângela
e Raquel.
Das praias, Leila prefere guardar apenas uma virtude. "Melhorei
o meu passe e isso foi muito importante, pois sempre criticaram
a minha fragilidade neste item", avalia. No final, depois
de tantas autocríticas, a oposta finalmente volta a sorrir.
Enquanto tira a bolsa de gelo que estava na coxa esquerda,
Leila já pensa no programa da noite. "Quero namorar. Estou
louca de saudades do Emanuel. Ele falou que me encontraria
no Rio, mas me enganou. Foi uma bela surpresa e só percebi
quando ele estava do meu lado na grade (que separava a torcida
da quadra no ginásio). Ele é demais".
|