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26/02/2007
Montagem sobre fotos Divulgação

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Fenômeno comum no futebol, o êxodo de atletas brasileiros para o exterior também se repete no vôlei. Quem quiser ver os astros brasileiros do esporte, terá que bancar uma passagem para a Europa ou se conformar com a TV. Basta olhar a convocação para o último Mundial da modalidade, quando a seleção masculina levou o bicampeonato e as mulheres ficaram com a medalha de prata. Do time comandado por Bernardinho, apenas o novato Samuel Fuchs ainda atua por aqui, defendendo as cores do Telemig Celular/Minas. Na Superliga feminina, a situação é um pouco melhor: das 12 jogadoras, sete ainda defendem clubes nacionais. Só não se sabe até quando.

“Nós já pensamos para o próximo ano contratar uma equipe inchada para poder se dar ao luxo de perder um ou dois. É inevitável, você não consegue segurar os jogadores”, admite Renan Dal Zotto, técnico da Cimed/Florianópolis, atual campeão da Superliga masculina. Do time da temporada 2005/2006, ele não conseguiu manter alguns de seus principais nomes no país, como Bruno Zanuto, Bob e Sidão. E, da mesma forma que nos gramados, a saída de jogadores de vôlei do país não acontece apenas entre os chamados “top”.

Foto: Divulgação/FIVB
Entre Carol Gattaz e Sheilla, Jaqueline se viu obrigada a ir para o exterior graças ao ranqueamento adotado pela CBV
De acordo com dados da própria Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), nada menos que 399 atletas nacionais (242 homens e 157 mulheres) estão espalhados pelas quadras de 28 nações. É possível encontrar brasileiros jogando em ligas de países com praticamente nenhuma tradição no esporte, caso de Chipre (um), Dinamarca (dois), Kuwait (um), Romênia (um) e Catar (13). Isso sem contar os técnicos: neste momento José Roberto Guimarães (Scavolini Pesaro - Itália), Paulo Coco (Grupo 2002 Murcia - Espanha), Radamés Lattari (Trentino – Itália) e Marco Aurélio Motta (Eczacibaci Istambul – Turquia), todos com passagens pelas seleções brasileiras, trabalham no exterior.

O fenômeno chama a atenção porque arregimenta atletas cada vez mais jovens, ainda em fase de formação. Não faz muito tempo que os atletas que iam jogar fora do país eram apenas aqueles já consagrados, caso de Nalbert, Maurício, Giba, etc. “Um jogador que ainda está em uma faixa intermediária, iniciando em seleções brasileiras já tem mercado lá fora. Atletas ainda medianos estão sendo absorvidos pelas equipes européias. A Superliga é um grande showroom”, constata José Montanaro Júnior, ex-jogador e agora gerente de vôlei do Banespa/São Bernardo, uma das equipes mais tradicionais do Brasil, com grande histórico de revelação de atletas.

Empresário de oito campeões mundiais em dezembro, Jorge Assef Neto explica como funciona o mercado externo do vôlei. “A Itália quer os nossos jogadores top. A Rússia e a Grécia todo ano tentam contratar os tops, mas em geral acabam ficando com os intermediários, assim como o Japão. O resto pode ser qualquer um, porque qualquer brasileiro médio é melhor que um ótimo de lá”, avalia.

Os motivos para o êxodo são simples: os bons resultados das seleções brasileiras, vontade de estar no centro mundial do esporte e salários em euro, incompatíveis com a realidade mesmo dos maiores clubes brasileiros. Em geral, um jogador no exterior, fora de um grande centro, chega a ganhar três vezes mais por temporada que se estivesse atuando por aqui. Se ele for de elite, as cifras podem chegar à casa de centenas de milhares, sem contar privilégios como passagens para o Brasil, residência, etc. “O vôlei é a oportunidade que eu tenho para colocar comida em casa. Então, eu tenho que aproveitar”, admite o libero Escadinha, do Copra Berni Piacenza. “É uma pena acontecer isso porque poderia muito bem todos jogarmos aqui e o Brasil ser o melhor campeonato do mundo”, completa. Ensaiando sua volta às quadras, Nalbert concorda. “A carreira de atleta é curta, então ele vai querer colher o máximo que puder”, assegura.

Clubes dos atletas que defenderam o Brasil no Mundial
Anderson - Taranto (ITA)

Carol Albuquerque - Cimed/Macaé (BRA)

André Heller - Trentino (ITA)

Carol Gattaz - Finasa/Osasco (BRA)

André Nascimento - Trentino (ITA)

Fabi - Rexona/Ades (BRA)

Dante - Panathinaikos (GRE)

Fabiana - Rexona/Ades (BRA)

Escadinha - Piacenza (ITA)

Fofão - Perugia (ITA)

Giba - Cuneo (ITA)

Jaqueline - Jesi (ITA)

Gustavo - Treviso (ITA)

Mari - Pesaro (ITA)

Marcelinho - Panathinaikos (GRE)

Paula Pequeno - Finasa/Osasco (BRA)

Murilo - Modena (ITA)

Renatinha - Rexona/Ades (BRA)

Ricardinho - Modena (ITA)

Sassá - Rexona/Ades (BRA)

Rodrigão - Macerata (ITA)

Sheilla - Pesaro (ITA)

Samuel - Telemig Celular/Minas (BRA)

Walewska - Perugia (ITA)

Técnico: Bernardinho - Rexona/Ades (BRA)

Técnico: José Roberto Guimarães - Pesaro (ITA)

Para Renato D’Ávila, gerente de competições da CBV, a solução seria trazer mais patrocinadores para que os clubes tivessem condições de manter jogadores de primeira linha no Brasil. “Nós precisamos ter um maior volume de dinheiro investido pela iniciativa privada, pelo poder público para que eles permaneçam”, acredita. O problema é que está formado um ciclo vicioso: sem os astros, menos empresas se interessam pelo esporte, o que significa menos dinheiro e menores condições de repatriamento. Por isso, de acordo com D’Ávila, a solução seria contar com leis de incentivo fiscal para que se comece a reação.

Para Assef, o problema é ainda mais complicado. “A nação brasileira precisa enriquecer como um todo. Não é apenas o fato de o euro ser mais forte que o real, mas sim um problema da economia. O Macerata, uma das principais equipes da Itália, é patrocinada pela Lube, uma loja de móveis. O Modena, do Ricardinho, conta com o apoio do Cimone, que faz loteamento de montanhas. Aqui, apenas grandes companhias conseguem bancar um time. Precisamos ter mais empresas para apoiar o vôlei”, analisa.

Bernardinho sugere mudanças ainda mais drásticas. “Ter ídolos melhora, dá publicidade, os patrocínios vêm, mas você tem que ter um mercado grande: um bom número de atletas, de times, faz com que você possa tirar qualidade. Nós temos que repensar o modelo, angariar investimentos. O nosso calendário é mal planejado, internamente falando, e mal executado, além de, na minha opinião, o ranqueamento das atletas ter sido mal-feito na última temporada”, comenta o treinador.

Ele cita exemplos. “O Rexona teve que abrir mão da Jaqueline por causa disso. Nós tínhamos condições de mantê-la e ela queria ficar. A intenção dela, inclusive, era permanecer e trazer o Murilo de volta. Eu conversei com os dois lá em Saquarema e disse que não havia o que fazer: nós já tínhamos acertado com a Sassá e a Fabiana”, explica Bernardinho, se referindo ao fato de Jaqueline, Sassá e Fabiana possuírem pontuação máxima(sete) para a CBV, que permite apenas duas jogadores deste nível por clube.

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