| Por Carolina Canossa, especial para
a GE.Net
Fenômeno comum no futebol, o êxodo de atletas brasileiros
para o exterior também se repete no vôlei. Quem quiser ver os
astros brasileiros do esporte, terá que bancar uma passagem
para a Europa ou se conformar com a TV. Basta olhar a convocação
para o último Mundial da modalidade, quando a seleção masculina
levou o bicampeonato e as mulheres ficaram com a medalha de
prata. Do time comandado por Bernardinho, apenas o novato Samuel
Fuchs ainda atua por aqui, defendendo as cores do Telemig Celular/Minas.
Na Superliga feminina, a situação é um pouco melhor: das 12
jogadoras, sete ainda defendem clubes nacionais. Só não se sabe
até quando.
“Nós já pensamos para o próximo ano contratar uma equipe
inchada para poder se dar ao luxo de perder um ou dois. É
inevitável, você não consegue segurar os jogadores”, admite
Renan Dal Zotto, técnico da Cimed/Florianópolis, atual campeão
da Superliga masculina. Do time da temporada 2005/2006, ele
não conseguiu manter alguns de seus principais nomes no país,
como Bruno Zanuto, Bob e Sidão. E, da mesma forma que nos
gramados, a saída de jogadores de vôlei do país não acontece
apenas entre os chamados “top”.
| Foto: Divulgação/FIVB |
 |
| Entre Carol Gattaz e Sheilla, Jaqueline se viu obrigada
a ir para o exterior graças ao ranqueamento adotado
pela CBV |
De acordo com dados da própria
Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), nada menos que 399 atletas
nacionais (242 homens e 157 mulheres) estão espalhados pelas
quadras de 28 nações. É possível encontrar brasileiros jogando
em ligas de países com praticamente nenhuma tradição no esporte,
caso de Chipre (um), Dinamarca (dois), Kuwait (um), Romênia
(um) e Catar (13). Isso sem contar os técnicos: neste momento
José Roberto Guimarães (Scavolini Pesaro - Itália), Paulo Coco
(Grupo 2002 Murcia - Espanha), Radamés Lattari (Trentino – Itália)
e Marco Aurélio Motta (Eczacibaci Istambul – Turquia), todos
com passagens pelas seleções brasileiras, trabalham no exterior.
O fenômeno chama a atenção porque arregimenta atletas cada
vez mais jovens, ainda em fase de formação. Não faz muito
tempo que os atletas que iam jogar fora do país eram apenas
aqueles já consagrados, caso de Nalbert, Maurício, Giba, etc.
“Um jogador que ainda está em uma faixa intermediária, iniciando
em seleções brasileiras já tem mercado lá fora. Atletas ainda
medianos estão sendo absorvidos pelas equipes européias. A
Superliga é um grande showroom”, constata José Montanaro
Júnior, ex-jogador e agora gerente de vôlei do Banespa/São
Bernardo, uma das equipes mais tradicionais do Brasil, com
grande histórico de revelação de atletas.
Empresário de oito campeões mundiais em dezembro, Jorge Assef
Neto explica como funciona o mercado externo do vôlei. “A
Itália quer os nossos jogadores top. A Rússia e a Grécia todo
ano tentam contratar os tops, mas em geral acabam ficando
com os intermediários, assim como o Japão. O resto pode ser
qualquer um, porque qualquer brasileiro médio é melhor que
um ótimo de lá”, avalia.
Os motivos para o êxodo são simples: os bons resultados
das seleções brasileiras, vontade de estar no centro mundial
do esporte e salários em euro, incompatíveis com a realidade
mesmo dos maiores clubes brasileiros. Em geral, um jogador
no exterior, fora de um grande centro, chega a ganhar três
vezes mais por temporada que se estivesse atuando por aqui.
Se ele for de elite, as cifras podem chegar à casa de centenas
de milhares, sem contar privilégios como passagens para o
Brasil, residência, etc. “O vôlei é a oportunidade que eu
tenho para colocar comida em casa. Então, eu tenho que aproveitar”,
admite o libero Escadinha, do Copra Berni Piacenza. “É uma
pena acontecer isso porque poderia muito bem todos jogarmos
aqui e o Brasil ser o melhor campeonato do mundo”, completa.
Ensaiando sua volta às quadras, Nalbert concorda. “A carreira
de atleta é curta, então ele vai querer colher o máximo que
puder”, assegura.
| Clubes dos atletas que
defenderam o Brasil no Mundial |
| Anderson - Taranto (ITA) |
Carol Albuquerque - Cimed/Macaé (BRA)
|
|
André Heller - Trentino (ITA)
|
Carol Gattaz - Finasa/Osasco (BRA)
|
|
André Nascimento - Trentino (ITA)
|
Fabi - Rexona/Ades (BRA) |
|
Dante - Panathinaikos (GRE)
|
Fabiana - Rexona/Ades (BRA) |
Escadinha - Piacenza (ITA)
|
Fofão - Perugia (ITA) |
|
Giba - Cuneo (ITA)
|
Jaqueline - Jesi (ITA)
|
|
Gustavo - Treviso (ITA)
|
Mari - Pesaro (ITA) |
|
Marcelinho - Panathinaikos (GRE) |
Paula Pequeno - Finasa/Osasco (BRA) |
|
Murilo - Modena (ITA) |
Renatinha - Rexona/Ades (BRA) |
|
Ricardinho - Modena (ITA) |
Sassá - Rexona/Ades (BRA) |
|
Rodrigão - Macerata (ITA) |
Sheilla - Pesaro (ITA) |
|
Samuel - Telemig Celular/Minas (BRA)
|
Walewska - Perugia (ITA)
|
| Técnico: Bernardinho
- Rexona/Ades (BRA) |
Técnico: José Roberto
Guimarães - Pesaro (ITA) |
Para Renato D’Ávila, gerente
de competições da CBV, a solução seria trazer mais patrocinadores
para que os clubes tivessem condições de manter jogadores de
primeira linha no Brasil. “Nós precisamos ter um maior volume
de dinheiro investido pela iniciativa privada, pelo poder público
para que eles permaneçam”, acredita. O problema é que está formado
um ciclo vicioso: sem os astros, menos empresas se interessam
pelo esporte, o que significa menos dinheiro e menores condições
de repatriamento. Por isso, de acordo com D’Ávila, a solução
seria contar com leis de incentivo fiscal para que se comece
a reação.
Para Assef, o problema é ainda mais complicado. “A nação
brasileira precisa enriquecer como um todo. Não é apenas o
fato de o euro ser mais forte que o real, mas sim um problema
da economia. O Macerata, uma das principais equipes da Itália,
é patrocinada pela Lube, uma loja de móveis. O Modena, do
Ricardinho, conta com o apoio do Cimone, que faz loteamento
de montanhas. Aqui, apenas grandes companhias conseguem bancar
um time. Precisamos ter mais empresas para apoiar o vôlei”,
analisa.
Bernardinho sugere mudanças ainda mais drásticas. “Ter ídolos
melhora, dá publicidade, os patrocínios vêm, mas você tem
que ter um mercado grande: um bom número de atletas, de times,
faz com que você possa tirar qualidade. Nós temos que repensar
o modelo, angariar investimentos. O nosso calendário é mal
planejado, internamente falando, e mal executado, além de,
na minha opinião, o ranqueamento das atletas ter sido mal-feito
na última temporada”, comenta o treinador.
Ele cita exemplos. “O Rexona teve que abrir mão da Jaqueline
por causa disso. Nós tínhamos condições de mantê-la e ela
queria ficar. A intenção dela, inclusive, era permanecer e
trazer o Murilo de volta. Eu conversei com os dois lá em Saquarema
e disse que não havia o que fazer: nós já tínhamos acertado
com a Sassá e a Fabiana”, explica Bernardinho, se referindo
ao fato de Jaqueline, Sassá e Fabiana possuírem pontuação
máxima(sete) para a CBV, que permite apenas duas jogadores
deste nível por clube.
|